
Luiza Soeiro para Desacato.info
Santa Catarina alcançou uma marca nada comemorável: 29 prefeitos presos por suspeita de corrupção nos últimos cinco anos. O dado veio à tona após a prisão do prefeito de Garopaba, Júnior de Abreu Bento (Progressistas), e escancara algo que o discurso moralista da direita tenta esconder sob o tapete persa da “boa gestão”: corrupção não é exclusividade ideológica, mas tem um endereço político bem conhecido.
Júnior Bento foi preso preventivamente sob suspeita de comandar um esquema de corrupção na coleta de lixo do município. O roteiro é antigo e previsível: contratos públicos, empresários “parceiros”, servidores envolvidos e o dinheiro público evaporando no caminho. Além dele, um servidor do setor de licitações e um empresário do ramo de resíduos sólidos também foram detidos. A prefeitura, seguindo o manual da crise, afirmou que “aguarda acesso aos autos”.
Tradução livre: boca fechada até segunda ordem.
As prisões ocorreram em operações do Ministério Público, como a Mensageiro e a Et Pater Filium, nomes quase bíblicos para pecados bem terrenos. O levantamento revela um padrão político nada aleatório: MDB lidera a lista com nove prefeitos presos, seguido por PP (6), PL (5) e PSD (4). São justamente os partidos que mais vocalizam discursos anticorrupção, mas que protagonizam as páginas policiais com frequência constrangedora.
Entre os detidos estão prefeitos de cidades como Criciúma, Tubarão, Lages, Canoinhas e Barra Velha. Uma lista extensa que inclui nomes ligados diretamente ao bolsonarismo e ao conservadorismo catarinense. A narrativa da “corrupção de esquerda”, tão repetida em palanques e grupos de WhatsApp, se sustenta mais em gritos do que em dados. A esmagadora maioria dos presos pertence ao campo conservador e ao centrão, enquanto a esquerda aparece de forma residual. O problema, portanto, não é ideológico, mas estrutural. Ainda assim, é sempre a esquerda que vira bode expiatório no teatro político.
A ironia se aprofunda quando olhamos para o cenário nacional. O mesmo campo político que ergue a bandeira da moralidade segue defendendo figuras como Jair Bolsonaro, hoje investigado por tentativa de golpe de Estado, envolvimento no caso das joias sauditas e fraudes em cartões de vacina. Some-se a isso nomes como Valdemar Costa Neto, condenado no Mensalão e ainda assim figura central da direita partidária brasileira.
Nada disso serve para absolver a esquerda de erros históricos. Não iremos romantizar a corrupção, venha de onde vier. Mas os números falam mais alto do que qualquer live indignada: o discurso moralista da direita catarinense não resiste a um boletim de ocorrência.
No fim, Santa Catarina segue como laboratório do conservadorismo nacional, provando que a tal “gestão eficiente” muitas vezes termina em cela comum. E o eleitor ainda precisa olhar para os dois lados antes de atravessar.
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