Chile e Venezuela: o dilema estratégico de Petro

Washington não respondeu recompensando a prudência de Petro, mas sim apertando o cerco em torno dele

O presidente colombiano, Gustavo Petro, e seu homólogo venezuelano, Nicolás Maduro. Palácio Miraflores, Caracas, 2 de novembro de 2022.
Pedro Rances Mattey/dpa/Legião-Media

Por Carmen Parejo Rendón.

Enquanto os principais veículos de comunicação internacionais insistem em retratar um suposto aumento nas “tensões” entre os EUA e a Venezuela como se fosse um conflito bilateral, o que estamos testemunhando — mais uma vez — é uma ofensiva unilateral do imperialismo estadunidense contra a Venezuela e, por extensão, contra toda a América Latina.

Não existem “tensões” entre iguais quando uma potência global mobiliza navios, sanções, chantagem financeira, operações secretas e campanhas midiáticas contra um país que resiste há mais de duas décadas. Chamar uma agressão estrutural e habitual de “tensão” é uma nova perversão da linguagem, que obscurece a verdadeira hierarquia de forças, esconde o agressor e transforma a vítima no “polo do conflito”.

Nesse contexto, a recente doutrina de segurança apresentada por Donald Trump funciona como uma atualização brutal — agora desmascarada — da Doutrina Monroe. O Caribe e a América Latina são mais uma vez designados como uma “zona natural” de controle, um espaço onde qualquer intervenção é normalizada se o objetivo for sufocar projetos populares ou conter a presença de atores como a China ou a Rússia. Trata-se de uma verdadeira declaração de intenções que já está sendo implementada na prática. Os assassinatos de pescadores em águas caribenhas sob o pretexto de narcotráfico — sem provas, julgamento ou qualquer base legal — perpetrados por forças estadunidenses, fazem parte dessa lógica cada vez menos sutil de recolonização regional.

E é nesse cenário renovado de agressão que Gustavo Petro conseguiu se posicionar como uma das vozes mais lúcidas do progressismo continental. Sua intervenção nas Nações Unidas — denunciando veementemente o genocídio em Gaza e a impunidade em torno dos crimes no Caribe — abriu uma brecha simbólica: por um instante, a Colômbia pareceu se libertar de seu papel histórico como um satélite disciplinado de Washington. Não se tratava apenas de um gesto retórico; era uma ruptura com o posicionamento político: falar a partir de uma posição de dignidade latino-americana em um fórum concebido para domesticá-la.

Contudo, essa clareza se deteriorou justamente com a intensificação das ameaças contra a Venezuela. E aqui surge a contradição: um líder com experiência política age como se o imperialismo pudesse ser contido por meio de concessões. Petro tenta construir uma narrativa de “pontes difusas” em direção ao governo dos EUA, como se o problema fosse de tom diplomático e não de interesses estratégicos.

Essa mudança se reflete em suas mensagens nas redes sociais, onde, de Bogotá, ele projeta uma narrativa paternalista sobre o que deveria ser uma “transição democrática” na Venezuela, sugerindo também fórmulas de “anistia” ou reintegração para setores que, durante anos, promoveram golpes de Estado, terrorismo político e violência de classe contra o povo venezuelano. O significado político dessa proposta é claro: ela desloca o foco da agressão externa para um suposto “conflito interno” simétrico; e, ao fazê-lo, equipara o processo bolivariano — coletivo, popular e constituinte — àqueles que tentaram destruí-lo: sua oligarquia tradicional e o imperialismo estadunidense e europeu.

Em Caracas, o conflito é compreendido em sua verdadeira natureza: um cerco sistemático — bloqueios, sabotagens, tentativas de golpe, guerra econômica, estrangulamento financeiro — enfrentado por um povo organizado que desenvolveu formas de democracia popular a partir da base.

A implicação é grave: introduz a ideia de que a “paz” latino-americana depende da restauração da legitimidade e do poder aos agentes históricos da desapropriação. E aqui a questão não é moral, mas estrutural: Petro aplicaria essa mesma lógica na Colômbia? Aceitaria uma “anistia política” para o uribismo como condição para a estabilidade, apesar de seu histórico de paramilitarismo, crimes e pilhagem? Se a resposta for não, então o duplo padrão fica exposto: pede-se à Venezuela que faça o que nenhuma nação aceitaria para si. A experiência venezuelana já nos ensinou a lição escrita com sangue: uma verdadeira revolução democrática não se negocia com aqueles que querem a sua morte.

Enquanto Bogotá busca reduzir a contradição a um nível administrável, em Caracas o conflito é compreendido em sua verdadeira natureza: um cerco sistemático — bloqueios, sabotagens, tentativas de golpe, guerra econômica, estrangulamento financeiro — enfrentado por um povo organizado que, sob fogo constante, desenvolveu formas de democracia popular de base. Portanto, em meio à ameaça, o que cresce não é a retórica da resignação, mas a capacidade de defender o próprio processo: organização, coesão e a disposição de sustentar o projeto, mesmo com armas.
Mesmo assim, e como era previsível, Washington não respondeu recompensando a prudência de Petro, mas apertando o cerco ao seu redor: hostilidade pública do trumpismo, pressão legislativa, disciplina institucional e guerra judicial com o objetivo de paralisar tanto seu governo quanto o horizonte político que o cerca. A sequência é familiar na América Latina: concessões não garantem segurança. Isso não é um erro de comunicação, mas uma leitura equivocada do poder: o imperialismo não reage à boa vontade, mas ao equilíbrio de poder. Todo gesto conciliatório é interpretado como um sinal de vulnerabilidade e como evidência prática de que há “margem de manobra” para apertar ainda mais o cerco.

Washington não respondeu recompensando a prudência de Petro, mas sim apertando o cerco em torno dele: hostilidade pública por parte do trumpismo, pressão legislativa, disciplina institucional e guerra judicial.

O que aconteceu no Chile é um alerta brutal para qualquer governo que acredite poder “moderar” seus compromissos com o povo em nome da “governabilidade”. O triunfo eleitoral do pinochetismo — em um país que, há poucos anos, vivenciou uma das mais poderosas revoltas sociais do continente — não pode ser compreendido como uma simples “mudança cultural” no eleitorado. É, acima de tudo, uma consequência política. E nessa consequência, o ciclo liderado por Gabriel Boric tem responsabilidade direta.

Boric chegou prometendo romper com o passado e acabou atuando como um garante da continuidade. Priorizar o diálogo com as elites tradicionais — e o alinhamento com Washington — em detrimento da força social que o levou ao poder foi uma decisão estratégica que deslocou o centro de gravidade do povo mobilizado para o Estado e seus pactos. Em vez de aprofundar o impulso constituinte aberto pela revolta, seu governo o conteve; em vez de expandir a organização popular, a desativou; em vez de desmantelar o aparato repressivo herdado, o normalizou. O resultado foi a reconstituição do bloco oligárquico e a restauração da ordem do bom senso.

O Chile demonstra, assim, uma lei política que se repete precisamente em toda a América Latina: o fascismo não entra apenas pela propaganda, mas também pela porta aberta da desmobilização. A regressão não decorre apenas da força do inimigo; decorre, sobretudo, do enfraquecimento do movimento popular. E esse enfraquecimento ocorre quando governos nascidos de uma onda social começam a gerir essa onda como se fosse algo alheio a eles.

Portanto, o que está em jogo em Bogotá não é meramente a sobrevivência de um governo, mas a continuidade — ou a derrota — dos processos transformadores que o povo buscou com tanto esmero. Não há atalhos nem terceiras vias quando o adversário é um sistema imperial decadente em uma fase particularmente violenta: o imperialismo não negocia com quem cede; interpreta concessões como fraqueza facilmente acessível e transforma essa “margem” em uma oportunidade de ataque.

Assim, a história da América Latina nos ensina algo mais: os únicos processos que resistiram a investidas sustentadas do capital — e especialmente de Washington — foram aqueles que aprofundaram sua base social, como nos casos de Cuba e Venezuela, que deslocaram o centro de gravidade do palácio presidencial para o povo organizado e que compreenderam que a luta não é apenas eleitoral, mas sobretudo estrutural. Porque, no fim das contas, o dilema não é nem moral nem retórico. É uma questão política e estratégica: ou a mudança se aprofunda tendo o povo como sujeito central, ou abre-se a porta para que os inimigos do povo retomem o controle por quaisquer meios e desencadeiem sua vingança.

Carmen Parejo Rendón é escritora, analista internacioinal e filóloga. Reside em Sevilha, Reino da Espanha.

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