Os obstáculos à distribuição de marmitas em Florianópolis

Foto: Guilherme Bernal

Luiza Soeiro para Desacato.info

Eram trinta e dois graus numa segunda-feira de manhã quando voluntários começaram a se reunir em um conselho comunitário para mais um dia de preparo de marmitas em Florianópolis. A maioria dos participantes já se conhece há anos. São pessoas que, semanalmente, deixam suas casas, seus trabalhos e suas famílias ainda cedo para cozinhar refeições destinadas a centenas de pessoas em situação de rua na cidade.

Os voluntários descrevem o trabalho como realizador e essencial, para muitos, trata-se de uma das atividades mais importantes de suas vidas. Não apenas pelo ato de cozinhar, mas pelo sentido que a ação carrega. Há propósito, compromisso coletivo e uma dimensão política evidente. Alimentar quem tem fome, em uma cidade marcada por desigualdades profundas e pela ausência de políticas públicas estruturantes, torna-se também um gesto de enfrentamento.

Nas últimas semanas, esse trabalho passou a ser atravessado por decisões da Prefeitura de Florianópolis que alteraram de forma significativa a dinâmica da distribuição de refeições. Com o argumento de reorganizar e regularizar as ações voluntárias, o poder público definiu um novo local para a entrega das marmitas: um albergue localizado na Avenida Hercílio Luz, um dos locais mais movimentados da cidade. O segundo andar do prédio passou a ser o destino exclusivo das refeições, mudança que já começou a ser implementada e que gerou questionamentos entre os voluntários envolvidos.

O albergue abriga pessoas em processo de saída das ruas, que ocupam o primeiro andar do espaço. Segundo relatos colhidos durante a primeira semana de entregas no local, havia um acordo prévio para que pessoas com dificuldade de mobilidade, como idosos, pessoas feridas ou com limitações físicas, pudessem receber as marmitas no primeiro andar ou do lado de fora do prédio. Na prática, esse encaminhamento não foi cumprido, as entregas ficaram restritas ao segundo andar, obrigando pessoas em situação de extrema vulnerabilidade a subir escadas ou a depender da ajuda de terceiros para conseguir se alimentar.

Além da questão da mobilidade, o tempo destinado à distribuição também é apontado como um entrave central. Os voluntários dispõem de apenas 30 minutos para entregar todas as marmitas, as refeições não podem ser levadas para fora do espaço e precisam ser consumidas no local, o atendimento ocorre em grupos de dez pessoas por vez, em rodadas sucessivas que precisam se encaixar dentro desse intervalo reduzido. O resultado é um processo apressado, que limita o acesso de quem não consegue cumprir as regras impostas.

Os impactos da mudança já aparecem de forma concreta. Após o fechamento do Restaurante Popular, em fevereiro deste ano, a demanda pelos projetos voluntários aumentou de maneira significativa. Onde antes eram distribuídas cerca de 100 marmitas, o número passou para aproximadamente 400 refeições por entrega. Com a transferência da distribuição para o albergue, esse volume voltou a cair de forma abrupta. Na última semana, foram entregues novamente em torno de 100 marmitas.

As refeições excedentes passaram a ser redistribuídas em comunidades próximas. Ainda assim, a redução de cerca de 300 marmitas evidencia a exclusão de pessoas que não conseguiram acessar o novo local, desistiram no percurso ou não tinham condições físicas de subir até o segundo andar. Há relatos, inclusive, de pais que tentaram retirar marmitas para levar aos filhos e não conseguiram, retornando para casa sem alimento.

O cenário se agrava com a repressão aos pontos tradicionais de entrega. Um dos projetos foi multado em R$ 1 mil por distribuir marmitas na Catedral Metropolitana de Florianópolis, espaço que por anos serviu como referência para a população em situação de rua. A multa está sendo contestada judicialmente, com apoio do Ministério Público.

Diante desse contexto, os voluntários solicitaram que não houvesse presença policial durante as entregas no albergue, justamente para evitar o afastamento ainda maior das pessoas atendidas. Muitas delas têm histórico de abordagens policiais ou passagens pelo sistema penal. Ainda assim, agentes da ordem pública e da assistência social acompanharam a ação em nome da prefeitura.

O que se desenha, a partir desses relatos, é uma contradição central na política adotada pelo município. Ao tentar retirar a distribuição de alimentos de um espaço turístico e simbólico da cidade, como a Catedral Metropolitana, a prefeitura criou um problema sem apresentar uma solução efetiva no curto prazo. Em meio à expectativa de receber cerca de três milhões de turistas, medidas passaram a ser adotadas com o objetivo de reorganizar, deslocar e, na prática, invisibilizar a pobreza da capital.

Sem Restaurante Popular em funcionamento, a responsabilidade pela garantia do direito básico à alimentação recai quase exclusivamente sobre projetos voluntários, sustentados por doações e trabalho coletivo. Em vez de fortalecer essas iniciativas, o poder público impõe barreiras, dificulta o acesso e criminaliza práticas solidárias. Com isso, os projetos acabam recorrendo tanto ao Ministério Público quanto à mídia alternativa para continuar existindo.

Na prática, a fome não desaparece. Ela apenas muda de lugar. E, ao ser empurrada para fora do campo de visão, revela uma política que prioriza a imagem da cidade em detrimento da vida de quem luta diariamente para sobreviver nela.


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