
Por Francisco Fernandes Ladeira.
Este é meu segundo ano aqui no Desacato, escrevendo artigos de opinião e apresentando a coluna “Fabricantes de Des(informação)”, às terças-feiras, durante o programa “A Manhã com Dignidade”. Entre as temáticas que abordo, destaca-se o cenário comunicacional no Brasil. Este ano, especificamente, nos mostrou a importância de se pautar a agenda pública – termo que se refere à principal questão presente no debate nacional.
Quando se fala em agenda pública, temos que admitir a eficiência da extrema-direita. Durante o (trágico) governo Bolsonaro, o presidente e seus ministros da chamada “ala ideológica” – os Ernesto Araújo e Damares Alves da vida, com seus delírios habituais – pautavam aquilo o que era notícia. Se houvesse um escândalo de corrupção ou uma crise econômica no governo, nada que um distracionismo não resolvesse: tipo Jesus na goiabeira, evacuar dia sim e dia não, Terra Plana e por aí vai. Assim, ao invés de discutir temáticas relevantes, as pessoas debatiam as bravatas bolsonaristas.
Mesmo fora do poder, Bolsonaro e seus comparsas dominam a agenda pública. Inclusive, há veículos da imprensa dita progressista que não passam um dia sem falar no ex-presidente. Também não podemos negar que, em muitas ocasiões em que a extrema-direita comanda o debate, há por trás a grande mídia, levantando a bola para eles cortarem. O mantra golpista não envelhece: o importante é atacar o PT.
Por falar em Partido dos Trabalhadores e agenda pública, um dos discursos mais difundidos pela grande mídia é que o atual governo federal não sabe se comunicar com o público. Mas o ponto central é outro: dominar a agenda. Quem domina o que vai ser debatido, obviamente, traz a discussão para o lado em que se sente melhor. Durante boa parte do terceiro mandato de Lula, a agenda pública não foi lá tão favorável para nós da esquerda.
Eis que, neste ano, surgiu uma sequência de pautas positivas: soberania nacional (vide o tarifaço de Trump), redução do imposto de renda para quem possui rendimento inferior a cinco mil reais, congresso inimigo do povo e taxação dos super-ricos. Ou seja, quando se fala em luta de classes e em defender o Brasil do imperialismo, a esquerda sempre se sairá melhor, pois, como sabemos, a direita está a favor dos ricos e da submissão do país aos ditames de Washington. Até as (suspeitíssimas) pesquisas de opinião ligadas à grande mídia tiveram que admitir o crescimento da popularidade de Lula. “O governo saiu das cordas” – lembrando uma expressão que os articulistas da imprensa hegemônica gostam de utilizar.
Quando achávamos que, enfim, o debate nacional era nosso, a chacina ordenada por Claudio Castro em favelas cariocas muda o jogo. A agenda nacional passou a ser “segurança pública”. E novamente tivemos que ouvir todas aquelas lorotas. Na grande mídia, o discurso é que a esquerda não tem proposta para a segurança pública. Na extrema-direita, o velho mantra fascista: “bandido bom é bandido morto”. Mas se o bandido violar a tornozeleira eletrônica não há problema.
E quais serão as questões da agenda pública em 2026, ano eleitoral? Bom, a esquerda tem os exemplos das duas últimas eleições. Se fizer como em 2018, influenciada pelo identitarismo, e quiser ir para a disputa no campo moral, estilo campanha “Ele não!”, o fracasso é certo. Se formos como em 2022, e pautarmos questões materiais – como o pobre comer picanha –, estaremos no caminho certo. Felizmente, Lula é adepto da segunda hipótese.

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