Primeiro dia do 2º Seminário de Comunicação e Integração reúne lideranças do Sul Global em Salvador

 

O 2º Seminário de Comunicação e Integração, promovido pelo Barão de Itararé,  parceiro histórico do Desacato e um dos principais articuladores da mídia alternativa no país, abriu sua programação nesta sexta-feira (28) em Salvador, Bahia, com duas mesas de debate que deixaram evidente o espírito do encontro: a busca por soberania latino-americana, tanto nos governos quanto nos meios de comunicação. Uma pauta ambiciosa, é verdade, mas necessária diante de um continente inteiro que ainda insiste em ser narrado por outros.

A abertura contou com a participação do Sindicato dos Bancários da Bahia, representado por seu diretor, Adelmo Andrade, cuja presença não foi apenas protocolar. Em entrevista, Andrade destacou a importância quase simbólica de o seminário acontecer em Salvador, cidade que, segundo ele, “respira história, luta e transformação social”, além de abrigar o único sindicato do país que ainda mantém um jornal impresso diário em atividade. O veterano O Bancário, há 36 anos circulando, acabou virando também personagem do debate, como evidência viva de que a comunicação popular não só resiste como insiste.

A primeira mesa, dedicada à comunicação e cooperação no Sul Global, trouxe vozes que conhecem bem os desafios de construir narrativas longe do eixo euro-norte-americano. Bruno Lima Rocha, da Hispan TV, e Leonardo Attuch, do Brasil 247, não fugiram do tema que atormenta todos nós: a censura algorítmica. Entre críticas aos bloqueios invisíveis das plataformas e aos interesses igualmente invisíveis que definem o que pode ou não ser visto, o debate orbitou conflitos internacionais, especialmente os do Oriente Médio, que parecem ter virado alvo preferencial das podas digitais.

Representantes internacionais ampliaram o horizonte: Patrícia Villegas, presidenta da teleSUR, reforçou a necessidade de integração comunicacional latino-americana, enquanto Isabela Shi Xiaomiao, da CGTN em português, destacou como a China observa e analisa o cenário midiático regional. Se alguém ainda duvidava da dimensão geopolítica da comunicação, saiu sem dúvidas e possivelmente um pouco mais preocupado.

A segunda mesa mergulhou na “batalha de ideias nas Américas”, e aí o tom ficou ainda mais intenso, embora por vezes surpreendentemente leve. Zoe Alexandra, jornalista e editora do People ‘s Dispatch, veio diretamente dos Estados Unidos para narrar os desafios de fazer comunicação alternativa “do lado de lá”. Em meio a relatos sobre pressões, vigilância e contradições do império, ela arrancou risadas do público ao comparar sua vivência com “morar nas entranhas do monstro”. Um humor que serve não só como alívio, mas como diagnóstico.

Completando a roda, Vladimir Ríos, do México, e Florencia Abregú, da Alba Movimentos, ofereceram o que talvez tenha sido a análise mais ampla da noite. Ambos traçaram um panorama das governanças e movimentos sociais latino-americanos, apontando caminhos para o futuro da tão sonhada pátria grande. Um futuro ainda distante, é claro, mas que parece bem mais palpável quando discutido em Salvador, no calor de uma plateia que sabe que integração não é poesia: é sobrevivência.

O primeiro dia terminou com a sensação de que a comunicação, mais do que nunca, é terreno de disputa. E que, apesar das plataformas, dos algoritmos e das narrativas importadas, há quem trabalhe diariamente para que a América Latina fale por si e, quem sabe, para que o mundo finalmente ouça.


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