Unidade Popular denuncia “ataque político” após ação policial em Florianópolis. Entrevista com Júlia Ew.

A dirigente da Unidade Popular pelo Socialismo (UP) em Santa Catarina, Júlia Ew, denunciou que a operação policial realizada no dia 27 de novembro contra a sede do partido e militantes de movimentos populares representa “um ataque direto à organização da classe trabalhadora” e configura grave violação democrática. A declaração foi dada em entrevista a Sofia Andrade do Portal Desacato, na manhã desta sexta-feira (28).

Segundo Júlia, agentes das polícias Civil, Militar e do Batalhão de Choque invadiram a sede da UP em Florianópolis, reviraram o espaço e apreenderam materiais. No mesmo momento, militantes do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) tiveram suas casas abordadas por policiais, que levaram celulares, computadores e pertences pessoais.

“Parece que Santa Catarina tem uma constituição própria”

Para a dirigente, o governo estadual conduz uma política sistemática de criminalização de movimentos sociais e de setores vulnerabilizados da população. Júlia cita exemplos recentes de ataques midiáticos e institucionais contra mulheres, imigrantes, população negra, trabalhadores sem teto e estudantes, afirmando que há uma cultura de ódio e perseguição incentivada por autoridades públicas.

Ela lembra declarações consideradas racistas feitas pelo governador, bem como projetos de lei e campanhas xenofóbicas contra imigrantes — parte importante da força de trabalho catarinense. “É um estado ingrato com quem constrói sua riqueza”, afirma.

Mandados sob sigilo máximo impedem defesa

Um dos pontos mais graves, segundo Júlia, é que todas as buscas e apreensões foram autorizadas por mandados em sigilo máximo, impedindo que os investigados saibam do que são acusados. “Não temos o direito nem de saber do que estamos sendo acusados, nem de nos defender”, denuncia. Escritórios de advocacia que acompanharam a operação classificaram a situação como “fora da curva”, sem precedentes desde a Constituição de 1988.

Por que a operação foi deflagrada?

De acordo com um comunicado divulgado pela Polícia Militar, a investigação teria como base a participação da UP e de movimentos parceiros em quatro jornadas de luta ao longo do ano:

• manifestações contra a escala de trabalho 6×1, organizadas pelo Movimento Luta de Classes;
• a ação “Mães Contra a Fome”, realizada pelo MLB no Dia das Mães;
• protestos estudantis na Univali contra a palestra do deputado federal Nikolas Ferreira;
• a jornada nacional do Grito dos Excluídos, com ocupações urbanas que denunciaram o alto custo dos aluguéis e a falta de moradia no país.

Júlia observa que todas essas ações são pacíficas, públicas e historicamente reconhecidas como práticas legítimas dos movimentos populares brasileiros. “Estão nos criminalizando por defender um programa aprovado pelo Tribunal Superior Eleitoral, amparado pela Constituição e fruto de uma grande campanha popular”, afirma.

“Quem tenta golpe recebe contraditório. Por que nós não?”

A dirigente compara a situação à forma como foram tratadas figuras envolvidas nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. “Os que tentaram abolir o Estado democrático de direito tiveram direito a defesa, contraditório e acesso ao processo. Por que a Unidade Popular está em sigilo máximo?”, questiona.

Para ela, a resposta está nos interesses econômicos confrontados pelas pautas defendidas pelos movimentos sociais: combate à especulação imobiliária, crítica às grandes redes varejistas que praticam jornadas extenuantes, luta por direitos das mulheres, pessoas LGBTQIA+ e por soberania nacional. “Aparentemente, estas pautas são mais ameaçadoras ao Estado do que quem tentou dar um golpe militar no Brasil”, provoca.

Como resistir aos ataques?

Júlia alerta que o objetivo central da operação é disseminar medo e desmobilizar a militância. Porém, afirma que o efeito deve ser o contrário: “O medo não pode nos paralisar. Mudanças nunca vieram de quem se esconde”. Ela convoca a população a ocupar as ruas, participar de assembleias, fortalecer a organização coletiva e denunciar abusos.

A dirigente também anuncia atos públicos em Florianópolis e reuniões em ocupações urbanas para discutir os acontecimentos e reforçar a solidariedade entre movimentos.

Solidariedade cresce entre organizações e militantes

Durante a transmissão, o público enviou mensagens de apoio à UP, ao MLB e aos demais movimentos atingidos. Comentários destacaram o contraste entre a operação policial contra militantes e a ausência de ações semelhantes contra casos de violência cometidos por figuras influentes. Organizações anarquistas também manifestaram solidariedade.

Quem já fez o mesmo que a polícia de Jorginho fez contra a UP e militantes sociais? Por Raul Fitipaldi.

 


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