Por Flávio Carvalho.
Maria (nome fictício) de origem migrante, residente em Valência (Espanha), estava grávida, com a sua outra filha, de 2 anos de idade, dentro do carro. Estava com o marido, espanhol, operário da construção civil. A correnteza tombou e arrastou o carro, quando a água entrou com tudo. Com a força da abrupta enchente, o marido foi lançado pra fora do carro e só ele se salvou, desesperado.
Aproveito pra avisar a quem não está acostumado com esse fenômeno natural, agravado pelo negacionismo fascista (igual às enchentes no Rio Grande do Sul) que a água acumulada pela tempestade nos barrancos, próximos às cidades mediterrâneas, na Espanha, pode matar em um par de minutos. Foram 223 mortos, em outubro do ano passado.
O governador de Valência é do partido de direita (claro!). O PP, fundado por seis ex-ministros do Golpe de Estado de Franco e que até hoje, desde 1936, insiste em não condenar a sanguinária ditadura. Seus dissidentes fundaram outro partido ainda mais fascista, chamado VOX. Franco morreu num leito de luxo, com honras de Chefe de Estado. Faz exatamente meio século. Foi a ditadura ocidental que mais tempo ficou no poder. Na europeia tríplice aliança fascista, um morreu enforcado (Mussolini), outro foi “suicidado” (Hitler) e somente Franco morreu praticamente quando, onde e como quis morrer. Ordenou a construção de um majestoso mausoléu, com a força de trabalho forçado dos presos políticos republicanos, contrários à monarquia espanhola, medieval, franquista e corrupta. Até hoje reina.
O livro espanhol mais vendido, atualmente, é a autobiografia do rei corrupto que fugiu do reinado do próprio filho, com a ajuda da própria polícia e justiça que oficialmente deveria lhe prender.
Ocorre que o governador de Valência, responsabilizado pelas 229 mortes (conheço pessoalmente o caso de mais uma dezena de famílias brasileiras que perderam TUDO na enchente), ao saber do que estava acontecendo, naquele exato momento, decidiu desaparecer. Omitiu-se, alegando estar num almoço político com uma importante jornalista. A tempestade estava cientificamente avisada, dias atrás. O almoço foi reservado dois dias antes, pago com transferência de dinheiro público (do fundo partidário) e durou quatro horas, aproximadamente. Incluindo 39 minutos em que os telefones celulares estiveram absolutamente incomunicados, segundo perícia judicial.
Ela, a jornalista, calou-se durante um ano inteiro. Felizmente, a mentira tem pernas curtas.
O povo valenciano, com dinheiro público, pagou quase mil reais (convertendo-os de Euros), pela comida e bebida (uma garrafa de vinho, água e algumas cervejas). Também pela sala reservada no primeiro andar do restaurante valenciano El Ventorro, onde se estenderam as quase quatro horas do reservado almoço. Documentos judiciais revelam que as câmeras de segurança captaram, inclusive, imagens de troca de roupa, entre o ato de entrar e de sair do ambiente privado, reservado para almoço em ambiente íntimo.
Foram horas fatídicas, onde o poder político ausentou-se criminosamente, sem os comandos principais que acionariam diversos serviços públicos e de emergência. Seguiram-se semanas de voluntários de diversas partes da Espanha, caminhando à margem das estradas impossibilitadas, com pás e baldes caseiros. Ajudaram a retirar lama, escombros e cadáveres.
Hoje, sabe-se que o criminoso político do PP, Carlos Mazón (acabou de demitir-se do cargo, mas segue como parlamentar e altíssimo salário), não conseguiu sair daquele reservado pós-almoço, na reservada sala do primeiro andar daquele restaurante valenciano. Por quê?Negacionismo? Fascismo? Relacionamento espúrio entre o poder político e a mídia “ao seu dispor”?
Sempre os mesmos. Não falha.
Aquele abraço.
@1flaviocarvalho, sociólogo. Barcelona, 27 de novembro de 2025.
Flávio Carvalho é sociólogo, participante da FIBRA e do Coletivo Brasil Catalunya.A opinião do/a/s autor/a/s não representa necessariamente a opinião de Desacato.info.
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