3 Monstros prontos na Papuda, decepcionados porque Bolsonaro não chega. Por Flávio Carvalho.

Por Flávio Carvalho.

Como vai proibir quando o galo insistir em cantar?” (Buarque)

Vivendo em Barcelona, aqui se diz que o time de futebol é de eternos sofredores. Mesmo quando estão líderes do campeonato, hesitamos antes de comemorar.

Bolsonaro preso, comemoro MUITO.

Porém, hesito. Atento. Com cuidado…

1. Bolsonaro preso é algo excelente.

Porém, pergunto: você sabe por qual motivo ele foi preso?

O fato dele não estar preso pelas mais de 700 mil mortes pelo genocídio que cometeu (entre muitos outros crimes e mais de 600 pedidos de Impeachment que não foram nem julgados, e pelos quais ele não deveria nem ter tomado posse), estamos diante de um imenso problema.

Um grave vacilo do poder judiciário e de todo o aparato estatal brasileiro.

Nos satisfaz por prender uma pessoa (várias, de fato) e resolver atualmente o problema.

Porém, demonstra que o que comemoramos como Justiça, também significa uma injustiça (ou falta dela) com os nossos amigos e familiares assassinados na Sindemia do Covid (Sindemia é quando morre mais um grupo determinado, Os Desprivilegiados, do que outros).

Justiça quando não é plena, é injusta. É valor absoluto.

2. Que o STF prenda Bolsonaro é algo excelente.

Porém, pergunto, a mim mesmo: EU tenho motivos para confiar plenamente no Supremo Tribunal Federal do meu país?

Não! Estou no meu direito de não confiar nem um pouco no atual sistema judicial brasileiro.

Tendo meus próprios motivos, não aceito questionamento sobre os meus sentimentos.

A análise das mais recentes e outras tantas decisões do STF revelam-me mais injustiças (do que efetiva justiça) contra a maioria do povo brasileiro.

Além disso, cria outros dois monstros.

O primeiro é um exagero.

Um excesso de confiança que pode provocar uma futura tragédia, no dia que o poder judicial (oligárquico e aristocrático, como SEMPRE foi no Brasil) redirecione o alvo.

E, assim, passe a atacar nossos direitos.

Tal como já avisou que está prestes a fazer em relação ao novo ataque sobre os direitos trabalhistas.

Nada a ver com a comparação absurda dos fascistas que sempre defenderam o retorno da ditadura e agora não aceitam a democracia liberal brasileira.

Eu também não estou nem um pouco satisfeito com a atual democracia liberal.

Por isso, cada vez mais, reafirmo a palavra Revolução no meu atual ideário político.

Porém, enquanto ela, a revolução, não vem, seguirei jogando as regras do jogo.

E lutando, cada dia, para mudá-lo a favor da maioria do nosso povo.

Apostando mais pela arena política do que por essa mania (política) de “judicializar” quase tudo.

Na política de hoje, para mim, o cerne da questão se resume a outra forte palavra, ao Medo.

Dele, se origina a acomodação (zona de conforto), o ritmo em que uns e outros exigem mudança (ou conformidade, e até imploram por mais “paciência”, ao estar melhores que outros), e a hipocrisia típica dos privilegiados: vergonha interna (mais que externa) de admitir os próprios privilégios.

Mas esse pode ser assunto para outro texto.

O segundo monstro é conhecido como Lawfare: tirar da política (conscientes do quanto está péssima a composição política do Congresso Nacional, enquanto não a mudamos) e entregar ao poder judiciário o que deveria ser resolvido pelo sistema político no estado democrático de direito.

Mesmo sabendo o quanto é baixo o nosso nível de legitimidade democrática do atual sistema político.

Todo um paradoxo. Medroso.

Prejudico a política ao desprestigiá-la e não lutar politicamente por uma nova hegemonia política.

Enquanto isso, a oligarquia (preponderância de um pequeno grupo no poder) não somente julga, e sim acaba interferindo diretamente no que não lhe corresponde na teoria clássica do equilíbrio entre os 3 poderes (legislativo, executivo e judiciário): acaba interferindo substancialmente naquilo que deveria ser de exclusiva instância política.

Linguagem fácil.

A criança está suja e não a lavamos; e, evitando o banho, jogamos fora a criança, a água suja e a bacia onde ela deveria banhar-se.

3. Voltando ao foco, prenderam o chefe da quadrilha. Terceira e última excelente notícia!

Porém, prender o ladrão não é nada quando o seu bando tem a chave da tua própria casa.

Considerando que “a quadrilha” é como uma máfia que opera em nível mundial (chamada Fascismo), e que essa máfia aprendeu com o tempo a mudar o comando, exterminando-o quando passa a dar mais problemas que lucros, comemorar é bom, mas…

Não deveria jamais significar que baixemos a guarda e relaxemos, somente nos dedicando a comemorar a batalha vencida, enquanto a guerra segue.

Dito tudo isso, afinal, vem o melhor.

Me permito (a mim mesmo), agora mesmo, desconsiderar tudo o que eu mesmo escrevi e tornar tudo isso plenamente compatível com o meu próprio ato de comemorar e MUITO a prisão daquele desgraçado.

Brindemos, por favor.

(“alegria de pobre dura pouco”; mudemos isso)

Aquele abraço.

@1flaviocarvalho, sociólogo, ex-consultor internacional da OIM e da UNESCO, eleito vice-presidente do Conselho de Representantes dos Brasileiros no Exterior, em 2010. Recebeu a Ordem do Rio Branco, no Governo Lula, em 2011.

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