Região Sul tem maior índice de violência e perseguição contra educadores no país

Por Amanda Miranda.

Esse dado não estará na agenda de marketing do governador Jorginho Mello, embora muito intimamente talvez ele e seus apoiadores até gostem de passar essa vergonha: em audiência pública realizada nesta quinta-feira, 13 de novembro, na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, o Observatório Nacional da Violência contra Educadores e Educadoras (ONV) apresentou dados sobre a violência contra educadores em Santa Catarina.

A ênfase foi na discussão das estatísticas de um relatório quantitativo de perseguição que abrange todo o país. Os dados não foram relacionados por estado, mas apresentados por região – e a nossa lidera, com folga.

O coordenador da pesquisa, Fernando de Araújo Pena, fez uma apresentação geral dos dados, que colocam na Região Sul o maior peso da perseguição e da violência: entre os respondentes, 64% disseram já ter sofrido algum episódio de violência mais direta. Ele classifica o número como “assustador”.

Os números são preocupantes, mesmo para quem já imaginava que isso estivesse ocorrendo, devido aos casos emblemáticos que retratamos por aqui: um deles envolvendo o professor Andrei Dorneles, na Escola de Muquém, em Florianópolis. Ele foi agredido fisicamente ao lado da escola por um pai de um aluno. Nessa mesma escola, a orientadora Juliana Andózio já sofria todo tipo de ameaças e perseguições pelo simples fato de exercer seu trabalho.

“Essa forma de violência contra educadores e educadoras se tornou uma forma de empreendimento político. Muitos candidatos a vereadores e deputados usam a perseguição a educadores como uma forma de conseguir tanto o capital financeiro, porque esses vídeos são monetizados, quanto o capital político. Inclusive aqui no estado não seria difícil citar pelo menos um ou dois que se elegeram com essa pauta”, apontou Pena.

Os dados da violência também foram intensificados com momentos de acirramento político. Segundo o pesquisador, a violência contra educadores teve picos específicos em 2016, 2018 e 2022 – justamente nos anos de eleições presidenciais e de grandes eventos da política, como o impeachment. O padrão, segundo o pesquisador, pode se repetir em 2026, ano eleitoral:

Se essa tendência de crescimento continuar, ano que vem é outro ano no qual a violência contra educadores e educadoras vai crescer. Então, a gente precisa dessas ações e a gente precisa dessas ações agora, porque ano que vem é um ano no qual professores e professoras, educadores e educadoras vão ser perseguidos e expostos em redes sociais e vão sofrer violência para que alguns ganhem mais alguns votos.

Em Santa Catarina, a tática é alinhada ao que os extremistas e bolsonaristas radicais chamam de “guerra cultural”, uma guerra imaginária estimulada por Olavo de Carvalho como uma espécie de projeto “anti-Gramsciano”. Gramsci foi um pensador marxista que estudou a hegemonia sob a lógica da existência de um controle cultural e intelectual exercido na sociedade como poder.

Os olavistas vendem a ideia de que há uma influência desse pensamento na forma como sujeitos ligados à educação e a cultura atuam. Eles acreditam que a maioria esteja a serviço de uma agenda que destrói o status quo. Para eles, é preciso enfrentar essa guerra com a tática do constrangimento, da opressão e da violência, por isso até a Galinha Pintadinha vira uma inimiga a ser combatida.

Na pesquisa, o índice de educadores que passou por quatro ou mais episódios de violência também foi o maior na região sul, com pelo menos 49% dos entrevistados relatando estar nesse grupo. “Quando um educador ou uma educadora sofre uma violência e essa violência não tem uma resposta adequada do gestor da secretaria da própria comunidade, a tendência é que essa violência se repita com esse mesmo alvo”, justificou o pesquisador.

Outro dado que alarma o pesquisador são as respostas coletadas na pesquisa sobre quem são esses violadores, ou seja, de quem os professores são vítimas. Fernando explica que são “os próprios membros da comunidade educativa”. Ou seja, os próprios diretores, as coordenações, famílias e os estudantes são os agentes mais indicados. “O cenário é tão preocupante que essa violência que está sendo estimulada nacionalmente contra educadores e educadoras já se enraizou de maneira tamanha que está dentro das comunidades educativas”.

Estes dados precisam ser amplamente repercutidos para gerarem políticas sérias de proteção aos docentes. Além dos casos de Andrei e Juliana, alvos permanentes de um grupo de pais conservadores em uma escola específica de Florianópolis, tenho amigas que sofreram violências gravíssimas no Ensino Superior – violências que resultaram na perda de emprego e até em mudança de cidade. Em situações assim, todos são derrotados.

O “hater” de professor e da educação pública precisa ser estudado, mas enquanto amostras dos seus cérebros não são enviadas para bancadas de laboratório, resta a nós zelar pela proteção dessa classe a quem tanto devemos.

 


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