Israel é aqui. Por Francisco Fernandes Ladeira.

Por Francisco Fernandes Ladeira.

Na década de 1990, Caetano Veloso e Gilberto Gil cantavam o verso “O Haiti é aqui” para ilustrar que a desigualdade, pobreza, violência e racismo associados ao país caribenho (considerado o mais subdesenvolvido das Américas) também existem e são uma realidade no Brasil.

No presente contexto, parafraseando os compositores baianos, sobretudo com a repercussão sobre a recente chacina policial ocorrida no Complexo do Alemão, podemos dizer que “Israel é aqui”.

Não estou falando exclusivamente sobre as técnicas de eliminação estatal de grupos marginalizados: os palestinos lá no Oriente Médio e os moradores das favelas aqui no Brasil. Estou me referindo à normalização das mortes desses segmentos da população na sociedade civil.

Em setembro, escrevi um artigo aqui no Desacato questionando como seria possível a existência de Israel enquanto tal, ou seja, um Estado que, há oito décadas, pratica genocídio contra o povo palestino. Uma das respostas está naquilo que a professora da Universidade de Brasília (UnB) Berenice Bento qualifica como “estrutura psíquica narcisista coletiva”.

Essa configuração psicológica coletiva manifesta-se por meio de quatro características principais: a vitimização permanente, que instrumentaliza o Holocausto como justificativa eterna para a opressão; a ausência de empatia, que nega a humanidade palestina e trata vidas como descartáveis; a mentira compulsiva (gaslighting), que inverte responsabilidades e apresenta Israel como “única democracia do Oriente Médio”; e, finalmente, a máscara positiva, que projeta uma imagem moderna e progressista enquanto o país pratica apartheid e genocídio.

Nos últimos dias, ao analisar os comentários nas redes sociais exaltando a chacina policial no Complexo do Alemão, concluí que não apenas “O Haiti é aqui”; também “Israel é aqui”. Embora no Brasil não haja uma estrutura colonial, genocídio contra outro povo, supremacismo ou apartheid, a normalização da morte de pretos e pobres entre parcela considerável da sociedade é a mesma que ocorre no Estado sionista em relação aos palestinos. Aliás, não somente a “normalização”, mas a “celebração” desses óbitos.

A cada postagem sobre os acontecimentos no Complexo do Alemão, emergiam comentários fascistóides como “mataram pouco”, “só lamento as mortes dos ‘guerreiros policiais’”, “parabéns governador Cláudio Castro”, “ninguém era inocente” e, como não poderia deixar de ser, o mantra “bandido bom é bandido morto” – como se todos os moradores de favelas fossem criminosos. Substitua a palavra “Hamas” por “Comando Vermelho” e temos os mesmos “argumentos” para as políticas de extermínio em Gaza e no Rio de Janeiro.

Evidentemente, não estou afirmando que a sociedade brasileira é fascista, característica que facilmente podemos associar a Israel. No entanto, é inegável que, no contexto pós-jornadas de junho de 2013, culminando com a eleição de Jair Bolsonaro cinco anos depois, parcela considerável dos brasileiros tirou todos os seus preconceitos e ódios do armário. O que antes era visto com vergonha, hoje é motivo de orgulho. Hannah Arendt chamaria de “banalidade do mal”.

Se há uma espécie de “efeito colateral positivo” que o bolsonarismo e a ascensão da extrema direita em geral trouxeram foi revelar as pessoas com quem não vale a pena conviver. Comemorar uma fila de corpos estendidos em uma lona, como se fosse uma “vitória contra a criminalidade”, entre outras imagens surreais que nos chegam da capital fluminense, é sinal de se ter perdido qualquer tipo de “humanidade” há tempos. Infelizmente, Israel também é aqui.

Francisco Fernandes Ladeira é Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Licenciado em Geografia pela Universidade Presidente Antônio Carlos (Unipac). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).

 

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