Por Joseph Massad.
Enquanto Israel continua seu genocídio dos palestinos sob o novo guarda-chuva do “plano de paz” do presidente dos EUA, Donald Trump, os estadunidenses estão montando uma campanha diplomática que finge oposição às últimas medidas da colônia judaica para anexar a Cisjordânia.
Para garantir apoio a um cessar-fogo em Gaza — onde Israel matou pelo menos 88 palestinos e feriu outros 315 desde que ele entrou em vigor, em 10 de outubro —, Trump prometeu aos seus regimes clientes árabes no mês passado que não permitiria que Israel prosseguisse com a anexação, uma linha vermelha que eles temiam que despertasse a ira pública e comprometesse o projeto mais amplo de normalização de Washington na região.
O parlamento de Israel, no entanto, aprovou preliminarmente na semana passada dois projetos de lei que pedem a anexação formal da Cisjordânia.
O vice-presidente de Trump, JD Vance, que estava no país para ajudar os israelenses a coordenar a próxima fase do genocídio em Gaza, descreveu a votação como “uma manobra política muito estúpida” — e uma que ele “pessoalmente [considerou] um insulto”.
Na tentativa de salvar a face perante os clientes árabes de Washington, Trump também enviou seu secretário de Estado, Marco Rubio, para repreender os israelenses por sua votação inoportuna. A caminho de Israel, Rubio emitiu a advertência mais severa do governo até o momento, dizendo: “Isso não é algo que possamos apoiar neste momento” – o que significa que os estadunidenses o apoiariam mais tarde.
Uma semana antes, Trump adotou um tom semelhante em uma entrevista à revista Time, insistindo que este não era o momento indicado para a anexação: “Isso não vai acontecer. Não vai acontecer. Não vai acontecer porque eu dei minha palavra aos países árabes. E você não pode fazer isso agora… Israel perderia todo o apoio dos Estados Unidos se isso acontecesse”, disse ele.
A palavra-chave nessas declarações é “agora”. Qualquer disputa aparente entre os estadunidenses e os israelenses diz respeito ao momento e ao método, não ao objetivo em si.
Avançando com o expansionismo
Longe de se opor à agenda expansionista de Israel, o governo Trump tem sido parte integrante de sua realização.
Afinal, durante seu primeiro mandato, o plano de “paz pela prosperidade” de Trump, elaborado por seu genro Jared Kushner, endossou os planos de Israel de anexar 30% da Cisjordânia.
Sob essa proposta, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu anunciou que Israel agiria imediatamente para anexar o Vale do Jordão e os assentamentos da Cisjordânia, ao mesmo tempo em que se comprometia generosamente a adiar a construção de novos assentamentos nas áreas deixadas para os palestinos por pelo menos quatro anos.
O então embaixador dos EUA em Israel, David Friedman, sinalizou que Trump havia dado luz verde à anexação imediata, afirmando que “Israel não precisa esperar nada” e que “nós a reconheceremos”. Trump reiterou sua posição em fevereiro passado, quando justificou a anexação observando: “É um país pequeno… é um país pequeno em termos de território”.
Seria ridículo pensar que os regimes árabes acreditam verdadeiramente nas promessas de Trump. Eles apenas fingem bajulá-lo e alinham com ele por uma questão de relações públicas internas.
Por que, então, ele se oporia à anexação da Cisjordânia em vez de simplesmente adiá-la para um momento mais auspicioso?
Na verdade, os israelenses já estão planejando expandir-se além da Cisjordânia, que, assim como Jerusalém Oriental e os Montes Golã, eles já consideram um negócio fechado. Agora, eles buscam tomar mais territórios de seus outros vizinhos árabes.
Há poucas semanas, Netanyahu declarou que estava em uma “missão histórica e espiritual” em nome do povo judeu, acrescentando que se sentia “muito apegado à visão da Terra Prometida e da Grande Israel”. Essa visão se estende a todo o país da Jordânia, bem como a outras terras sírias, libanesas, egípcias e iraquianas.
Os países árabes foram rápidos em condenar a visão de Netanyahu de cobiçar seus territórios como futuras partes de Israel, assim como condenam as recentes medidas israelenses para anexar a Cisjordânia. No entanto, isso é pouco mais do que uma performance pro forma.
Os regimes árabes, seguindo ordens europeias e estadunidenses, têm na prática aceitado de fato todas as anexações israelenses desde 1948 — e alguns até as abraçaram de jure, como o Egito, a Jordânia, os Emirados Árabes Unidos, Marrocos, Sudão e Bahrein fizeram quando reconheceram as fronteiras de Israel de 1949, que já abrangiam terras palestinas anexadas.
Legitimação global
Quando Israel foi fundado em 1948, incluía metade da área atribuída pelas Nações Unidas para um Estado palestino, bem como Jerusalém Ocidental, que deveria permanecer sob jurisdição internacional.
Embora a Assembleia Geral da ONU, incluindo o Reino Unido, tenha inicialmente insistido que Israel só seria reconhecido após se retirar desses territórios, de acordo com o Plano de Partilha da ONU de 1947, entre 1949 e 1950, o Conselho de Segurança e o Reino Unido acabaram por reconhecer o país com as suas novas fronteiras intactas, expandidas por conquistas muito além das previstas no Plano de Partilha da ONU de 1947.
Israel inicialmente concordou em negociar com seus vizinhos árabes sobre as fronteiras do Estado, mas manteve os territórios que ocupava em violação às resoluções da ONU, especialmente aquelas relativas à sua anexação de Jerusalém Ocidental em 1949. Transferiu seus escritórios governamentais para lá e declarou a cidade sua capital.
A ONU, os EUA e toda a Europa reconheceram as anexações de Israel de fato, se não de jure, no início da década de 1950, e os países árabes que normalizaram as relações seguiram o exemplo nas décadas seguintes.
Afinal, o presidente egípcio Anwar Sadat não viu qualquer problema em discursar no parlamento de Israel, em Jerusalém Ocidental anexada, durante a sua visita de 1977, sem que houvesse qualquer protesto.
Embora o rei Hussein nunca tenha feito uma visita oficial a Jerusalém Ocidental, já que suas visitas a Israel em 1994 e 1996 foram principalmente a Tel Aviv e ao Lago Tiberíades, ele visitou Jerusalém Ocidental anexada em 1995 para comparecer ao funeral do então primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin e, novamente, em 1997, para se encontrar com famílias israelenses que perderam filhos quando um soldado jordaniano abriu fogo contra elas.
Vale mencionar que, mesmo antes de assinar um tratado de paz com Israel em 1993, Hussein já havia concedido a soberania palestina e árabe não apenas sobre Jerusalém Ocidental, mas também sobre Jerusalém Oriental, quando insistiu que “somente Deus tem direito sobre Jerusalém” — uma declaração que ele reiteraria muitas vezes depois disso. As embaixadas do Egito e da Jordânia, como as da maioria dos países que não reconhecem Jerusalém Ocidental como capital de Israel, permanecem em Tel Aviv.
Isso, no entanto, não significa que esses países não reconheçam Jerusalém Ocidental como parte de Israel.
O legado da conquista
Para não pensarmos que a “visão” da Grande Israel recentemente anunciada por Netanyahu é uma obsessão peculiar apenas dele, devemos lembrar que, até agora, ele conquistou poucos territórios árabes e ainda não anexou nenhum — ao contrário de seus antecessores, de David Ben-Gurion a Menachem Begin, que anexaram vastas terras palestinas e sírias.
A avareza de Israel pela terra dos outros sempre foi publicamente declarada e exibida. Após sua invasão em 1956 e primeira ocupação de Gaza e da Península do Sinai, o primeiro-ministro fundador de Israel, o secular David Ben-Gurion, tornou-se bíblico, afirmando que a invasão do Sinai “foi a maior e mais gloriosa dos anais do nosso povo”. A conquista, acrescentou ele, restaurou “o patrimônio do rei Salomão, desde a ilha de Yotvat, no sul, até o sopé do Líbano, no norte”.
“Yotvat”, o nome que os israelenses deram à ilha egípcia de Tiran, “voltou a fazer parte do Terceiro Reino de Israel”, proclamou Ben-Gurion.
Diante da oposição internacional à ocupação israelense, ele insistiu: “Até meados do século VI, a independência judaica foi mantida na ilha de Yotvat… que foi libertada ontem pelo exército israelense”. Ele também declarou a Faixa de Gaza “parte integrante da nação”. Invocando a profecia de Isaías, Ben-Gurion jurou: “Nenhuma força, seja qual for o seu nome, faria Israel evacuar o Sinai”.
Quando os israelenses foram finalmente forçados a se retirar, eles esperaram o momento certo e invadiram e ocuparam essas áreas novamente em 1967. Apesar da retirada final de Israel do Sinai — cuja desmilitarização exigiu —, hoje em dia volta a se falar em invadir e colonizar a península egípcia.
Após 1948, os israelenses prosseguiram com planos para roubar todas as terras na zona desmilitarizada (DMZ) ao longo da fronteira com a Síria, perto das Colinas de Golã. Em 1967, eles já haviam tomado conta da área antes de conquistar o próprio Golã.
Nos primeiros 10 meses deste ano, Israel expandiu sua aquisição ilegal de territórios sírios com a aquiescência do novo regime sírio apoiado pelos EUA, liderado pelo reabilitado ex-membro da Al-Qaeda e do Estado Islâmico, Ahmad al-Sharaa.
Os israelenses criaram mais uma “zona tampão” em território sírio e, assim como fizeram na DMZ entre 1948 e 1967, colonos judeus israelenses cruzaram no mês passado para o território sírio para lançar a pedra fundamental de um novo assentamento chamado Neve Habashan, ou “o Oásis de Bashan”, nos territórios sírios recém-ocupados perto de Jabal al-Shaykh.
Eles são membros do movimento israelense Uri Tzafon “Despertar do Norte”, que visa colonizar a Síria e o sul do Líbano, reivindicando direitos religiosos sobre a “região de Bashan” – nome bíblico que os expansionistas judeus aplicam a essas terras. No ano passado, o movimento enviou milhares de notificações de despejo aos residentes de cidades libanesas usando balões e drones.
Embora as forças armadas israelenses tenham removido os colonos em Jabal al-Shaykh, é apenas uma questão de tempo até que assentamentos judeus oficiais sejam estabelecidos — assim como continuam a ser construídos em toda a região das Colinas de Golã, que Israel ocupou em 1967 e anexou em 1981, um ano após anexar Jerusalém Oriental.
A anexação continua
Em 2002, Israel construiu seu “muro de separação” ilegal de apartheid dentro da Cisjordânia, anexando de fato 10% do território, provocando apenas protestos pro forma da comunidade “internacional”, incluindo o Tribunal Penal Internacional.
Israel também insiste, desde 1967, em anexar o Vale do Jordão, na fronteira com a Jordânia — outros 10% da Cisjordânia —, uma medida aprovada pelo plano de “paz” de Trump para 2020.
Os regimes árabes, assim como a Europa e os EUA, sabem muito bem que a anexação da Cisjordânia por Israel seguirá em ritmo acelerado, mesmo que seja taticamente adiada.
A aceitação estadunidense e europeia, e em alguns casos o patrocínio, de tais expansões territoriais não difere de seu endosso ao plano mais recente de Trump para Gaza, que prevê a ocupação direta e indefinida por Israel de mais da metade do território de Gaza.
Os regimes árabes, assim como a Europa e os EUA, sabem muito bem que a anexação da Cisjordânia por Israel seguirá em frente, mesmo que seja taticamente adiada. E isso será feito com a bênção da “comunidade internacional” — embora acompanhado dos habituais protestos pro forma —, com os regimes árabes (exceto a Jordânia, por razões de segurança nacional) na vanguarda.
Rubio foi explícito sobre este ponto: “Neste momento, é algo que nós… achamos que pode ser contraproducente” e “potencialmente ameaçador para o acordo de paz” — mas claramente não mais tarde, quando poderá ser “produtivo” e “potencialmente” propício à paz.
De fato, o Escritório de Direitos Humanos da ONU acaba de divulgar um relatório documentando a cumplicidade de dezenas de países — principalmente europeus, mas também árabes — no genocídio em curso em Israel. O Washington Post revelou igualmente que vários Estados árabes intensificaram sua cooperação militar com Israel durante o genocídio, incluindo Jordânia, Catar, Arábia Saudita, Egito e Emirados Árabes Unidos.
Quando os palestinos resistirem a esse apoio internacional à colonização, ocupação e anexação contínuas de sua terra natal por Israel, todos esses países fingirão surpresa, enquanto aberta ou secretamente incentivam a próxima fase do genocídio de Israel, assim como fizeram nos últimos dois anos. E, como sempre, eles farão isso em nome do “direito de Israel de se defender”.

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