“Luto contra o apagamento cultural, o racismo estrutural e o anticiganismo que ainda hoje marcam profundamente o povo romani no Brasil.”
San Cândido
O programa Direitos e Cidadania, do Portal Desacato, apresentado por Erli Camargo, recebeu a ativista San Cândido, coordenadora da Urban Nomads Brasil, educadora popular e integrante da Associação Maylê Sara Kali (MS). As duas conversaram sobre a luta pelos direitos humanos do povo romani (ou cigano), o apagamento cultural, o racismo estrutural e as estratégias de resistência e valorização da identidade cigana no país.
Uma história marcada pelo apagamento e pela força
O povo romani, originário do noroeste da Índia, migrou para a Europa e depois para outras partes do mundo entre os séculos IX e X. No Brasil, há registros de sua presença desde o século XVI, quando foram trazidos como degredados. Desde então, o povo romani enfrenta perseguição, preconceito e invisibilidade.
Durante a Segunda Guerra Mundial, os romani foram vítimas do Samudaripen — o genocídio cigano. Estima-se que mais de 500 mil foram assassinados em campos de concentração, embora as organizações romani afirmem que o número ultrapasse um milhão de vidas perdidas.
San lembra que, no Brasil, essa história é quase desconhecida — inclusive entre os descendentes. “Nossos avós esconderam sobrenomes, línguas e tradições para proteger os filhos. Mas há coisas que não se escondem: o rosto, o sangue, a alma de um povo”, afirma.
Lê Papuchá Kalinka: bonecas, memória e resistência
Da dor nasceu um projeto que transforma lembrança em resistência: Lê Papuchá Kalinka. Criado por San Cândido, o projeto surgiu após sua visita a antigos campos de concentração romani na República Tcheca. Lá, ela encontrou uma réplica de bonecas feitas por mães ciganas para seus filhos nos campos.
A partir dessa memória, San criou vídeos poéticos como “Lápis Azul” e “Mamãe Zora”, que unem arte, literatura e história. Escritos por ela (sob o pseudônimo Kalinka Kriston) e ilustrados digitalmente por Vivian Jorge, os contos resgatam a força das mulheres e crianças romani durante o genocídio.
“Mesmo em tempos de terror, nossas crianças resistiram com imaginação e sonho. O lápis azul representa o céu que elas não podiam ver — mas continuavam a desenhar dentro da alma”, explica San.
O conto Mamãe Zora narra a história de uma mãe que usa sua saia bordada como abrigo e memória, simbolizando a resistência das mulheres romani que, mesmo em meio ao horror, mantiveram viva a esperança e a cultura.
Sarsan: a primeira conferência romani nacional
Outro marco destacado por San foi a realização da Conferência Livre Nacional Romani – Sarsan, cujo nome significa “Como estamos?” em romanês.
O encontro reuniu 12 estados e 12 organizações romani do Brasil, sendo o primeiro espaço nacional de articulação política do povo cigano.
Entre as propostas aprovadas estão:
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Reconhecimento das línguas e cultura romani como patrimônio imaterial;
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Criação de protocolos de proteção familiar;
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Enfrentamento ao anticiganismo e à homofobia;
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Políticas públicas de inclusão produtiva e respeito ao trabalho informal;
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Criação de um Comitê Nacional de Preservação da Cultura e Memória Romani, vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos.
Apesar disso, San denuncia:
“O Ministério dos Direitos Humanos não tem uma cadeira para o povo romani. Falamos através de outras vozes, mas não com a nossa própria. Isso precisa mudar.”
Pela inclusão e pela dignidade
A apresentadora Erli Camargo destacou o papel da comunicação na luta por justiça e diversidade:
“O Portal deSacato é um espaço para dar voz e vez a quem resiste. Falar do povo romani é falar de Brasil, de memória, de direitos humanos.”
San encerrou com uma mensagem de esperança e afirmação:
“Não estamos mais nos organizando — nós já estamos organizados. Temos consciência do nosso papel na construção de um Brasil mais justo, plural e democrático. Sarsan: estamos aqui, e estamos prontos para seguir em frente.”
Lembrar é bordar, e bordar é resistir
A entrevista foi encerrada com uma reflexão que une arte, política e humanidade:
“Que possamos seguir apoiando, contestando, sonhando e desenhando com lápis de qualquer cor. Porque imaginar é sobreviver, e lembrar é resistir.”
— Erli Camargo
Assista à entrevista completa no vídeo abaixo:
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