Sionismo e poder europeu: Uma solução de classe para a questão judaica

O movimento sionista não visava libertar os judeus da opressão, mas reorganizar a questão judaica de modo funcional ao sistema capitalista e ao imperialismo.

Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.

O sionismo político, fundado por Theodor Herzl no fim do século XIX, costuma ser apresentado como resposta humanitária ao “antissemitismo” europeu. Contudo, análises históricas e sociológicas — como as de Stephen Halbrook (1972) — revelam um aspecto menos celebrado: o sionismo nasceu das necessidades de classe da elite judaica ocidental, em aliança com os interesses coloniais europeus.

Na prática, o movimento não visava libertar os judeus da opressão, mas reorganizar a questão judaica de modo funcional ao sistema capitalista e ao imperialismo.

Como resume Halbrook (1972, p. 86), o sionismo “buscava simultaneamente assegurar lucros ao capital financeiro e afastar da Europa a ameaça representada pelos judeus pobres e revolucionários”.

2. A Europa e o “problema dos judeus pobres”

Entre 1850 e 1900, cerca de sete milhões de judeus viviam no Leste Europeu, em condições de miséria e discriminação. Esses grupos formaram uma base importante do movimento operário, aderindo ao socialismo, ao anarquismo e à revolução.

Para a burguesia judaica ocidental, integrada ao capitalismo financeiro — como os Rothschild, Montefiore e Crémieux —, essa massa empobrecida tornava-se um fardo político. Por um lado, alimentava o antissemitismo popular; por outro, ameaçava o status das elites judaicas por sua militância revolucionária.

O sionismo surgiu, assim, como solução de classe: deslocar os pobres e preservar o prestígio dos ricos.

3. Moses Hess e o “imperialismo civilizador”

O precursor Moses Hess, em Roma e Jerusalém (1862), propôs a restauração judaica na Palestina sob proteção francesa. Para ele, os judeus deveriam ser “o elo civilizatório entre a Europa e o Oriente” (HESS, 1862, p. 139).

Na leitura de Halbrook (1972, p. 88), Hess incorporou integralmente a ideologia imperialista europeia: a colonização seria uma “missão civilizadora”, não um ato de libertação.

Hess também rejeitava a luta de classes, defendendo a colaboração entre capital e trabalho “sob o solo comum do patriotismo judaico” — antecipando a visão de que a unidade nacional substituiria o conflito social.

4. Theodor Herzl e o sionismo como negócio imperial

O verdadeiro arquiteto do sionismo político foi Theodor Herzl, autor de Der Judenstaat (O Estado Judeu, 1896). Filho de banqueiro e influenciado pela cultura imperial da época, Herzl concebeu um Estado judaico que seria uma extensão da Europa no Oriente Médio, um “bastião da civilização contra a barbárie asiática” (HERZL, 1896, p. 255).

Herzl propôs criar uma Companhia Judaica, nos moldes das companhias coloniais britânicas, que organizaria comércio, terras e trabalho no novo território.
O projeto previa grandes lucros para os investidores e uma nova ordem social hierarquizada, na qual os pobres judeus seriam “reeducados” pelo trabalho produtivo.

Mais que um ideal nacional, o plano representava uma aliança direta entre o capital judaico e o imperialismo europeu.

5. O acordo com o czarismo e a função contrarrevolucionária

Em 1903, Herzl encontrou-se com Vyacheslav von Plehve, ministro do czar Nicolau II e responsável por pogroms.

O entendimento foi cínico: o governo russo apoiaria a emigração judaica para a Palestina; em troca, o movimento sionista ajudaria a conter o radicalismo revolucionário entre os judeus.

Halbrook (1972, p. 100) observa que Herzl via o sionismo como “meio de canalizar a energia revolucionária judaica para fins coloniais, e não para a luta de classes”. Assim, o sionismo cumpria uma função contrarrevolucionária, alinhando-se ao poder que perseguia os próprios judeus.

6. A aliança com o Império britânico

Com a decadência do czarismo, o sionismo aproximou-se da Grã-Bretanha, então potência hegemônica.

A Declaração Balfour de 1917 — que prometia um “lar nacional judaico” — foi, segundo Kohn (1961), “um pacto entre o imperialismo britânico e o capital sionista”.

A Palestina, sob mandato britânico, tornou-se base estratégica e econômica do império.
Para os britânicos, os colonos judeus seriam aliados leais em uma região árabe cada vez mais hostil. Para os sionistas, era a legitimação política e militar de seu projeto colonial.

7. O sionismo “trabalhista” e a exclusão racial

No início do século XX, o chamado sionismo trabalhista buscou conquistar os operários judeus. Líderes como Ber Borochov e David Ben-Gurion afirmavam que o retorno à terra seria um ato socialista.

Mas, na prática, o movimento manteve os princípios elitistas e raciais: defendia o “trabalho judaico exclusivo” e proibia o emprego de árabes nos assentamentos.

A Histadrut, central sindical fundada por Ben-Gurion em 1922, reproduzia essa lógica.
Como nota Kautsky (1926, p. 209), o sionismo “tratou os árabes da Palestina com o mesmo desprezo com que os colonos americanos trataram os povos indígenas”.

8. Conclusão

O sionismo político, em sua gênese, foi um projeto de classe e de império.
Ele atendeu simultaneamente:

  • Ao interesse do capital financeiro judaico, que buscava segurança e novos investimentos;
  • À necessidade do imperialismo europeu, que queria postos avançados no Oriente;
  • E ao desejo de remover da Europa os judeus pobres, socialistas e revolucionários.

A “redenção nacional” serviu, assim, para exportar a pobreza e importar o colonialismo.
O sionismo foi — e permanece — um dispositivo de poder global, articulando economia, religião e política para consolidar o domínio ocidental no sudoeste asiático, por meio da opressão, apartheid e genocídio do povo palestino.

Referências

ARONSON, Geoffrey. The Zionist Idea and the European Context. London: Macmillan, 1981.
HALBROOK, Stephen. The Class Origins of Zionist Ideology. Journal of Palestine Studies, v. 2, n. 1, p. 86–110, 1972.
HERZL, Theodor. Der Judenstaat. Leipzig: M. Breitenstein, 1896.
HESS, Moses. Rome and Jerusalem: The Last National Question. New York: Bloch Publishing, 1918.
KAUTSKY, Karl. Are the Jews a Race? New York: International Publishers, 1926.
KOHN, Hans. Zion and the Jewish National Idea. In: SELZER, Michael (ed.). Zionism Reconsidered. New York: Macmillan, 1970.
PAPPÉ, Ilan. A limpeza étnica da Palestina. Londres: Oneworld, 2006.
DEUTSCHER, Isaac. The Non-Jewish Jew and Other Essays. London: Oxford University Press, 1968.


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