“Não me pergunte. Não me responda. Não me procure. E não se esconda. Não diga nada. Saiba de tudo. Fique calada. Me deixe mudo. Seja num canto. Seja num centro. Fique por fora. Fique por dentro. Seja o avesso. Seja a metade. Se for começo. Fique à vontade” (Walter Franco).
No recente debate do PED, o processo de eleição direta da nova direção nacional do PT, se um petista crítico com a atuação do campo majoritário que comanda o partido tivesse dito o que recentemente disse o Presidente, poderia ter sofrido as mais duras ofensas.
Mesmo sendo um companheiro de partido.
Mas foi Lula quem disse.
Aliás, foi Lula quem perguntou, de forma retórica.
Aquele tipo de perguntas que se faz mesmo já contendo, dissimuladamente, a própria resposta.
Foi bem perto do aniversário de Paulo Freire.
Que, sintomaticamente, o PT nacional esqueceu de fazer um cartãozinho de aniversário, como fez várias vezes, vários anos atrás.
Imagine esquecer o aniversário de casamento? Depois de tantos anos reservando mesa para jantar romântico, na mesa decorada com flores, daquele elegante restaurante! Daí, um belo dia, de um belo ano, a pessoa esquece do cartãozinho, das flores, do aniversário.
Se quiser ler o meu texto publicado no Portal Desacato, sobre isso, sobre as perguntas sem resposta (já respondidas), de Lula…
Mas, quem sou eu? Né?
Eis aqui nas palavras do articulista Luiz Filgueiras, publicado no site Outras Palavras.
“24/09; o presidente Lula participou na sede da ONU, em Nova York, em uma agenda paralela à Assembleia Geral das Nações Unidas, da segunda edição do evento “Em Defesa da Democracia e Contra o Extremismo”, fórum que busca uma articulação internacional em defesa das instituições democráticas e contra a desinformação, o discurso de ódio e a desigualdade social. Com a participação de 30 países, incluindo Brasil, Chile, Espanha, Colômbia e Uruguai”.
“Onde os democratas e a esquerda erraram e por que a extrema-direita cresceu”? Perguntou Lula. “Antes de procurar as virtudes do extremismo de direita é preciso identificar os erros que a democracia cometeu”.
“A sua resposta começa enfatizando que o Partido dos Trabalhadores era organizado (no passado mesmo) em núcleos por local de trabalho, moradia e estudo. Não analisa o porquê disso ter sido abandonado pelo partido, posteriormente, mas pergunta: “o que eu fiz na Presidência da República; o que eu fiz para fortalecer a organização popular e social?”. A sua resposta genérica e sintética, estendida para a esquerda latino-americana: “abandonamos a organização dos trabalhadores e do povo”.
“O que fazemos hoje; como estamos exercendo a democracia em nossos países”? E responde, Lula, explicitamente que “a gente ganha as eleições com discurso de esquerda e quando começa a governar atende muito mais os interesses de nossos inimigos do que dos nossos amigos”. A preocupação maior é com “a cobrança do mercado e a necessidade de contentar o mercado e os adversários”, além de “dar resposta ao que a imprensa publica sobre nós”.
“E surpreendentemente, destaca, Lula, que “os nossos eleitores, que foram para ruas e apanharam, são considerados por nós como sectários e radicais”; “a gente não dá atenção a eles e dá atenção àqueles que falam mal da gente”. A sua conclusão é clara e direta: o fracasso da democracia se deve ao que “nós deixamos de fazer, aos erros que a democracia cometeu na sua relação com a sociedade civil”. Segundo Lula, reconhecer isso é crucial para não superestimarmos as virtudes do extremismo de direita e termos condições de derrotá-lo.
Não é o Estado brasileiro, portanto, quem cala, ao não romper totalmente com o Estado sionazista de Israel. Nem é o governo brasileiro. Não é nem o PT, que nem poderia, por não governar sozinho, o partido.
Quem cala é a pessoa, petista (como eu; mas que não me calo, diferentemente da maioria).
Quem cala é a pessoa que olha pro outro lado.
Eu, não. Eu falo.
Aliás, concordando até com Lula.
(Antes que repitam que a culpa é de Jones Manoel; de quem constata o que Lula mesmo constatou).
Depende mais, então, de quem fala? Ou daquilo, da essência do que está sendo falado?
De Paulo Freire, eu não esqueço.
Aquele abraço.
Barcelona, 6 de outubro de 2025.
Flávio Carvalho é sociólogo, participante da FIBRA e do Coletivo Brasil Catalunya.
@1flaviocarvalho
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