Haitianos/as no mundo: Entre o racismo estrutural e a injustiça global. Por Tali Feld Gleiser.

O Haiti ousou ser livre em 1804, quando homens e mulheres negras escravizadas derrotaram o império francês. Em vez de reconhecimento, recebeu dívida, isolamento e racismo. Hoje, de São Paulo a Santiago, de Lima a Paris e até na vizinha República Dominicana, haitianos seguem sendo vítimas de discriminação e exclusão. O castigo pela Revolução Negra nunca terminou

Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.

O Haiti ocupa um lugar único na história mundial: foi o primeiro país da América Latina e do Caribe a conquistar a independência em 1804, resultado de uma revolução liderada por pessoas negras escravizadas que derrotaram o exército de Napoleão. Esse feito histórico, símbolo da luta contra a escravidão, não foi celebrado pelo Ocidente — pelo contrário, foi punido com uma brutalidade econômica e política que ressoa até hoje. A França, potência colonizadora, impôs ao Haiti, em 1825, uma dívida de indenização bilionária para compensar os antigos senhores de escravos, obrigando o país a pagar durante mais de um século pelo crime de ter ousado ser livre (DUBOIS, 2012). Esse “resgate colonial” drenou recursos vitais e perpetuou a pobreza estrutural, tornando-se um dos maiores exemplos de colonialismo econômico.

A revolução haitiana, liderada por pessoas escravizadas, foi um golpe mortal contra a lógica do racismo que sustentava o tráfico atlântico de africanos. O castigo imposto pelas potências europeias, apoiado pelos Estados Unidos, foi não apenas econômico, mas também político e simbólico: o Haiti foi isolado diplomaticamente, estigmatizado como ameaça e condenado a viver sob a sombra da pobreza, em grande medida fabricada.

Hoje, os migrantes haitianos carregam esse peso histórico e enfrentam racismo e exclusão em praticamente todos os países onde buscam refúgio e trabalho. No Brasil, apesar da acolhida oficial a partir de 2010, muitos haitianos foram empurrados para condições precárias de trabalho, com relatos de exploração em frigoríficos e construção civil, reforçando a associação colonial entre corpo negro e trabalho forçado (SILVA, 2017). Nos Estados Unidos, em 2021, imagens de guardas de fronteira a cavalo chicoteando migrantes haitianos em Del Rio, Texas, evocaram uma cena de perseguição escravista, mostrando que o racismo estrutural continua a moldar a política migratória (BBC NEWS, 2021). A hostilidade foi inclusive verbalizada no mais alto nível: em 2017, o então presidente Donald Trump afirmou em reunião oficial que haitianos “todos tinham AIDS” e que migrantes desse país “comem gatos e cachorros”, declarações racistas e infundadas que reforçam estigmas coloniais contra um povo já historicamente criminalizado (THE NEW YORK TIMES, 2017).

Na América do Sul, os casos de racismo são múltiplos e sistemáticos. No Chile, organizações de direitos humanos denunciam agressões físicas e verbais contra haitianos, com casos de insultos racistas em espaços públicos e discriminação no mercado de trabalho, onde muitos são segregados a ocupações precárias e informais (OBSERVATORIO CIUDADANO, 2019). No Peru, a Defensoría del Pueblo documentou episódios de haitianos impedidos de acessar serviços de saúde durante a pandemia, sob pretextos xenofóbicos, revelando um racismo institucionalizado (DEFENSORÍA DEL PUEBLO, 2021). Na Argentina, pesquisas apontam que haitianos sofrem violência simbólica e estigmatização, sendo frequentemente alvo de piadas racistas na mídia e enfrentando barreiras para validar seus diplomas e ter acesso a empregos dignos (SILVEIRA; PIZARRO, 2020). Já na França, país que explorou e puniu o Haiti durante séculos, relatórios recentes registram que haitianos imigrantes enfrentam racismo no acesso à moradia, sendo relegados a bairros marginalizados e submetidos a controles policiais desproporcionais, o que evidencia a continuidade de práticas coloniais (CNCDH, 2020).

Na República Dominicana, que compartilha a ilha da Hispaniola com o Haiti, o racismo estrutural contra haitianos é talvez o mais violento do continente. Esse racismo está enraizado na construção histórica da identidade dominicana em oposição ao “outro negro haitiano”, narrativa que remonta à ocupação haitiana entre 1822 e 1844, reinterpretada pelas elites locais como uma “invasão bárbara”. No século XX, o ditador Rafael Trujillo consolidou essa ideologia, promovendo políticas abertamente antinegras e ordenando o massacre de milhares de haitianos e dominicanos de ascendência haitiana em 1937, no episódio conhecido como Massacre del Perejil (RODRÍGUEZ, 2015). Esse legado persiste: em 2013, a Suprema Corte retirou a cidadania de descendentes de haitianos nascidos no país desde 1929, tornando dezenas de milhares de pessoas apátridas — um dos maiores exemplos contemporâneos de racismo institucionalizado no Caribe (HUMAN RIGHTS WATCH, 2015). Essa política revela o esforço das elites dominicanas em negar a própria herança africana da população. Não por acaso, apenas 8% da população se autodeclara negra (UNFPA, 2022), apesar de estudos genéticos e demográficos apontarem que 34% dos dominicanos são afrodescendentes e que sua composição genética é, em média, 49% africana, 39% europeia e 4% taina pré-colombiana (UNIBE, 2016).

O tratamento dispensado aos haitianos não pode ser compreendido sem reconhecer que eles representam, simbolicamente, a primeira vitória dos povos escravizados contra o colonialismo branco. A permanência do racismo estrutural contra migrantes haitianos mostra que a punição pela independência de 1804 nunca terminou: mudou de forma, mas não de essência. O Haiti continua a ser castigado por quebrar a ordem racial do mundo colonial.

A crítica que se impõe é que a luta haitiana pela liberdade não foi apenas uma conquista nacional, mas um ato revolucionário universal. Porém, em vez de reconhecimento, o povo haitiano recebe racismo, xenofobia e exploração. A memória da revolução negra assombra o Ocidente — e os migrantes haitianos são obrigados a pagar o preço desse medo até hoje.

Referências

  • BBC NEWS. Del Rio: agentes da fronteira dos EUA são flagrados perseguindo haitianos a cavalo. 22 set. 2021. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-58658542. Acesso em: 12 set. 2025.

  • CNCDH – Commission Nationale Consultative des Droits de l’Homme. Rapport sur la lutte contre le racisme, l’antisémitisme et la xénophobie. Paris, 2020.

  • DEFENSORÍA DEL PUEBLO. Migración y discriminación racial en tiempos de pandemia. Lima, 2021.

  • DUBOIS, Laurent. Haiti: The Aftershocks of History. New York: Metropolitan Books, 2012.

  • HUMAN RIGHTS WATCH. We are Dominican: Arbitrary deprivation of nationality in the Dominican Republic. New York, 2015.

  • OBSERVATORIO CIUDADANO. Informe sobre racismo y discriminación hacia migrantes haitianos en Chile. Santiago, 2019.

  • RODRÍGUEZ, Edward Paulino. Dividing Hispaniola: The Dominican Republic’s Border Campaign against Haiti, 1930–1961. Pittsburgh: University of Pittsburgh Press, 2015.

  • SILVA, Sidney Antonio da. Imigração haitiana no Brasil: processos migratórios e identidades. São Paulo: Edusp, 2017.

  • SILVEIRA, Paula; PIZARRO, Gabriela. Migrantes haitianos na Argentina: racismo, integração e cidadania. Buenos Aires: CLACSO, 2020.

  • THE NEW YORK TIMES. Trump disparaged Haitians and Nigerians, officials say. 23 dez. 2017. Disponível em: https://www.nytimes.com/2017/12/23/us/politics/trump-immigrants.html. Acesso em: 12 set. 2025.

  • UNFPA. Primera Encuesta Nacional de Inmigrantes República Dominicana 2022. Santo Domingo, 2022.

  • UNIBE. Estudio genético de la población dominicana. Santo Domingo: Universidad Iberoamericana, 2016.

Tali Feld Gleiser é cofundadora e diretora geral do Portal Desacato. Toda segunda-feira, apresenta o programa Do Rio ao Mar.


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