Não há sionismo bom: da fundação à extrema-direita, o projeto é o mesmo

Políticos israelenses que diziam ser de esquerda

Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.

Durante décadas, sustentou-se a ideia de que o sionismo teve uma fase “progressista” ou “socialista”, especialmente associada aos kibutzim e aos partidos trabalhistas que fundaram o Estado de Israel. Essa leitura, no entanto, ignora um elemento central: a estrutura colonial do sionismo e sua negação sistemática do povo palestino. Desde suas origens, o sionismo foi um projeto de assentamento e despossessão que não deixou espaço para a autodeterminação de quem já habitava a Palestina.

Ben Gurión: o socialismo subordinado à colonização

David Ben Gurión, líder do sionismo trabalhista e “pai fundador” do Estado de Israel, deixou clara sua visão expansionista:

“Depois de tomarmos o poder, aboliremos a partilha e expandiremos o Estado para toda a Palestina… O Estado será apenas uma etapa para a redenção da terra.”
— Carta a seu filho Amos, 1937

O sionismo trabalhista não buscava coexistência justa, mas sim organizar eficientemente o processo colonial sob uma retórica socialista. Um exemplo central foi a Histadrut, a central sindical sionista fundada em 1920.

A Histadrut e a exclusão deliberada dos trabalhadores árabes

A afirmação atribuída a Berl Katznelson — “O trabalhador árabe não é nosso irmão de classe” — resume com precisão a lógica interna do sionismo trabalhista. A Histadrut não foi concebida como um sindicato de toda a classe trabalhadora, mas como uma ferramenta para construir uma economia etnicamente exclusiva.

Estudos como os de Zeev Sternhell, Gershon Shafir e Joel Beinin demonstram como o ideal do “trabalho hebraico” foi central para excluir os palestinos do mercado de trabalho. Não se buscava solidariedade operária, mas sim o fortalecimento da colonização e da separação racial. A suposta “esquerda” sionista funcionou, desde o início, como instrumento de segregação e despossessão.

Golda Meir e a negação da identidade palestina

Em 1969, Golda Meir, primeira-ministra e figura central do Partido Trabalhista, afirmou sem rodeios:

“Não existe isso de povo palestino. Eles não existem.”

A negação do outro não foi acidente nem posição marginal, mas sim política de Estado, mesmo nas correntes ditas “progressistas” do sionismo.

Yitzhak Rabin: do Nobel da Paz à repressão brutal

Yitzhak Rabin, celebrado internacionalmente pelos Acordos de Oslo, foi quem ordenou, durante a Primeira Intifada:

“Quebrem os ossos deles.”

Milhares de palestinos foram brutalmente espancados por soldados israelenses sob essa ordem direta. A repressão não era exceção, mas sim uma prática sistemática.

Moshe Dayan e Chaim Weizmann: confissões do despojo

Moshe Dayan, um dos arquitetos do exército israelense, disse sem eufemismos:

“Viemos, expulsamos os árabes de suas aldeias e tomamos suas terras.”
— Haaretz, 1969

Chaim Weizmann, primeiro presidente do Estado de Israel, descreveu os árabes  (ou seja, os palestinos. Não usavam a palavra palestino para invisibilizá-los) como uma “rocha dura” contra a qual o sionismo deveria colidir. O despojo não apenas foi planejado: foi justificado com orgulho.

Conclusão: o sionismo nunca foi de esquerda

O sionismo, mesmo em suas versões “socialistas” ou “trabalhistas”, nunca reconheceu os direitos nacionais do povo palestino. Da exclusão sindical promovida pela Histadrut à negação da identidade palestina e à limpeza étnica de 1948, todo o projeto esteve orientado por uma lógica colonial e supremacista.

Dizer que o sionismo foi “cooptado” pela extrema direita é uma forma de encobrir sua verdadeira natureza. Não há sionismo bom. O que mudam são os estilos, não os objetivos.

Bibliografia e fontes

  • Sternhell, Zeev. Os Mitos Fundadores de Israel: Nacionalismo, Socialismo e a Construção do Estado Judeu. Princeton University Press, 2001.

  • Shafir, Gershon. Terra, Trabalho e as Origens do Conflito Israelense-Palestino, 1882–1914. Cambridge University Press, 1989.

  • Beinin, Joel. Trabalhadores e Camponeses no Oriente Médio Moderno. Cambridge University Press, 2001.

  • Pappé, Ilan. A Limpeza Étnica da Palestina. Oneworld Publications, 2006.

  • Yazbak, Mahmoud. Haifa no Período Otomano Tardio: Uma Cidade Muçulmana em Transição, 1864–1914. Brill, 1998.

  • Meir, Golda. Entrevista ao The Sunday Times, 15 de junho de 1969.

  • Ben Gurión, David. Carta a Amos Ben Gurión, 5 de outubro de 1937. Reproduzida em Shabtai Teveth, Ben-Gurion and the Palestinian Arabs.

  • Dayan, Moshe. Entrevista ao Haaretz, 1969.

  • Rabin, Yitzhak. Declarações durante a Primeira Intifada, documentadas por B’Tselem e Amira Hass.

  • Katznelson, Berl. Citado em Sternhell (2001) e Shafir (1989).

Tali Feld Gleiser é cofundadora do Portal Desacato, apresentadora do programa Do Rio ao Mar e Diretora Geral.


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