Biografias interiores para geografias imperfeitas (I). Por Marco Vasques.

Imagem: Tumisu por Pixabay

Por Marco Vasques, para Desacato.info.

ANSELMO

O silêncio de domingo retumba com mais violência no coração de Anselmo. Ele nasceu para não pertencer. Não pertence à sua família, não pertence ao mundo padronizado, não participa de clubes e grupelhos, não pertence à família das pessoas que ama, pois nasceu mesmo para não se sentir inteiro no mundo. Anselmo sofre de falta. A ele sempre falta algo. Uma palavra, um gesto, um carinho. Mas também sofre de excesso, sobretudo com os solavancos semanais.

É no domingo, quando cruza a rua e dá de cara com um par de sapatos dependurados nos fios elétricos, que o mundo dói mais. Aqueles sapatos abandonados de corpo à espera de um vento ou de uma chuva que os movimentem faz os olhos de Anselmo sofrer. A coisa mais banal aos olhos de muitos é capaz de fazer seus olhos marejarem. Em público costuma disfarçar. E quando não consegue segurar o desconforto, arruma logo uma desculpa e se isola. Em solidão, chora aos soluços.

Nos dias de semana passa horas em frente ao ponto de ônibus. Fica observando homens, mulheres e crianças que esperam o coletivo. Anselmo escolhe umas duas ou três pessoas desconhecidas e tenta investigar suas dores. Investiga algumas rotinas também, mas o motivo de suas observações tem outra origem. Anselmo é um exímio observador de solidões. Se existe um momento em que conhece a alegria é quando encontra um andar, um olhar, uma expressão que revele a mais profunda solidão. O silêncio de domingo realmente viola sua vida, pois ele passa a observar a solidão dos objetos.

Um balde velho quebrado, umas garrafas de vinho no lixo, um chinelo de criança no meio da estrada, xepas de cigarro, tampinhas de refrigerantes, um sofá queimado engolido pelo verde do mato num terreno baldio, um prato quebrado, copos de plástico, uma geladeira enferrujada, enfim, o silêncio dos objetos abandonados faz o coração de Anselmo viver toda a solidão das tardes vazias de domingo. Realmente, no domingo, a violência é ainda mais retumbante porque Anselmo se enxerga em tudo que é traste velho imprestável para a roda veloz do mundo.

NOÊMIA

O pequeno casebre em que Noêmia vive com Jurandir sofre, toda semana, o olhar curioso dos vizinhos. Noêmia grita. E seus berros ecoam pelas ruas do bairro provocando a curiosidade em alguns e muita indignação em outros. No pequeno espaço constituído de um quarto, uma cozinha e um banheiro, o mundo é uma voz em desespero. As mãos de Noêmia tentam derrubar demônios invisíveis que corroem o seu imaginário. Ela vive com Carlos, um exímio catador de xepas de cigarro, também nominado de “o louco do bairro” pelos moradores ásperos a tudo que não entendem.

Sem filhos, Carlos e Noêmia, quando juntos, se acalmam um ao outro. O silêncio impera no momento em que seus corpos estão próximos. Esse dado é muito relevante, pois denota que o corpo, os olhos e os espíritos de ambos são cúmplices e ternos quando gozando da presença e do aconchego mútuo. Contudo, basta Carlos fazer suas saídas habituais para encher potes de margarina com xepas de cigarro que ela entra em luta com seus infernos.

Especialistas não conseguem descobrir o que afeta o interior de Noêmia, que força pulsa em seu íntimo. Ninguém consegue entender que espécie de magnetismo faz com que corpo e espírito entrem em erupção e revolta. O mundo se torna um útero indesejado, o ar se faz excessivo e sua respiração se descontrola. Seus olhos enraízam as veias por toda face. Sua pele, em arrepios, transpira incontrolavelmente.

A filha de Valdomiro, Vanusa, que com apenas sete anos de idade acompanha seu pai nas coletas de papelão e de latas pelo bairro, tem fixação por Noêmia. Sentada, feito rainha, no alto do carrinho apinhado de papelão, ao olhar para Noêmia, revela ao pai que ela tem um ninho de pássaros dentro da cabeça; no estômago, uma ninhada de serpentes.

Valdomiro, com a pele comida pelo sol, olha para Vanusa, abre um enorme sorriso desdentado e diz: “Filha, Noêmia é gente das margens. É gente como nós. Noêmia é uma nódoa, uma mancha desensolarada de mundo.”

DURVAL

Amanhece e Durval não sai da cama. Norma, sua mãe, resolveu não interferir em seu dia, pelo menos uma vez, para verificar se algo pode despertar os sentidos e as vontades de seu filho, despertar sentidos e vontades em outras direções que não as habituais. Durval nasceu com uma disfunção raríssima. Tão rara, que não há nenhum caso registrado na literatura médica. Ele tem todas as funções vitais em plena normalidade, não tem nenhum sentido alterado: todos os exames feitos, e foram milhares desde o seu nascimento, acusam que sua estrutura física não possui nenhum problema, pelo menos na aparência e para a medicina.

Durval, no auge dos seus 35 anos, tem feição de homem, mas olha para o mundo como uma criança de 5 anos. Sabe escrever, fala bem, faz cálculos de toda ordem, ou seja, entende a realidade à sua frente. Contudo, quando se aproxima das pessoas, quando estabelece relações sociais e casuais, passa a pensar e viver como se o mundo à sua volta fosse destituído de lógica. Há nisso um certo encantamento, porque Durval é um ser brincante. Não faz nada além de brincar. Nenhuma outra lógica adentra seu mundo. Se alguém lhe dá uma nota de duzentos reais, pega seu estojo de canetas e lápis de cor e imprime na cédula uma beleza infantil. As notas de cem reais, costuma rasgar para fazer cata-ventos.

Nas refeições, Durval promove uma verdadeira festa. Quando forçado aos encontros noturnos, por exemplo, tudo que há na mesa sofre grande mescla. O que o chama atenção nas bebidas e comidas são as cores. Crianças são encantadas por cores. Durval junta água, cerveja, vinho e suco de laranja numa única jarra e se regozija com o experimento. As comidas, espalha pelo chão. Em um restaurante muito famoso da cidade, com um prato de arroz, desenhou um coração, montando grão a grão, em frente ao tapete exposto na porta de entrada.

O que Norma nunca descobriu é que Durval faz isso justamente para negar a realidade. Nunca houve nada de errado, nem com seu físico, como os exames atestam, e, muito menos com sua constituição psíquica. É que seu coração não suporta a lógica das relações familiares, sociais e amorosas. Não se sente parte dessa comunidade regida pela ordem, pelo desejo de enriquecimento, pela competição, pela mentira e pela velocidade do amor, da amizade, das relações afetivas e do convívio diário.

Durval, aos olhos de muitos, é o tolo do bairro, o lesado da família, o incômodo a ser evitado. Na verdade, Durval tem um bom encontro com a humanidade, mas continua sendo evitado. Depois da morte de Norma, que cuidava com zelo do filho, ele se tornou o andarilho do bairro. Vive nos cantos escuros a brincar com latas de refrigerantes, rolhas de vinho, sacos plásticos e toda sorte de objetos imprestáveis. Durval sempre foi um impróprio para consumo.

 

 


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