Escola 25 de maio e os 30 anos de história: processos construídos coletivamente

    “A convivência foi mostrando outra postura e isso se deve muito ao movimento. Estou na gestão da escola, não enfrento problemas internamente pelo fato de estar na gestão e ser homoafetivo e conviver com meu companheiro aqui. Já passei por situações fora daqui de ser colocado em condição de humilhação e de ouvir a palavra ‘nojo’, ‘nojo de gay’, e você ter que escutar isso no teu almoço, mas ao mesmo tempo pensei que temos algo maior pela frente para construir, então a diversidade sexual precisa ser trazida para todos os espaços, sendo um deles no debate da agroecologia”, contextualizou Agnaldo Cordeiro, atual gestor.

    Comemoração de 30 anos da escola 25 de maio. Foto: Claudia Weinman, para Desacato. info.

    Por Claudia Weinman, para Desacato. Info.

    No berço do Taquaruçu, aconteceu ontem, sexta-feira, dia 1 de novembro, a comemoração dos 30 anos de “resistência, de construção da agroecologia e educação do campo”, da escola 25 de maio, em Fraiburgo/SC. Falas sobre a história e os processos construídos até o momento deram início ao dia.

    Foto: Franciele Scarmucim Caldas.

    A comemoração também contou com um momento cultural conduzido pelos trovadores Pedro Pinheiro e Pedro Munhoz, no projeto intitulado: Cantos e Cordas no Contestado, uma proposta das organizações sociais: Cooperativas, religiosas, sindicais e populares.

    Da esquerda para direita: Trovadores Pedro Munhoz e Pedro Pinheiro, na apresentação do projeto: Cantos e Cordas no Contestado. Foto: Claudia Weinman, para Desacato. info.

    A escola 25 de maio é constituída a partir da luta da comunidade junto ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra no ano de 1988. O Portal Desacato trás, nas entrevistas abaixo, alguns comentários de pessoas que fizeram parte do processo de construção desse espaço, como é o caso do educador Matheus Fernando Mohr, que morou durante 15 anos na escola. Atualmente, Matheus é professor do curso de licenciatura em educação do campo e atua no curso de agronomia da Universidade Federal Fronteira Sul, campus de Erechim/RS.

    Educador Matheus Fernando Mohr. Foto: Claudia Weinman, para Desacato. info.

    “Foi um momento importante onde tive a oportunidade de ajudar nas questões que envolvem as teorias e práticas da agroecologia. É muito bom verificar que a escola continua com muitas atividades, com enfrentamentos diante dos processos de industrialização que chegam ao campo e nesse sentido sempre foi um grande enfrentamento instituir a agroecologia enquanto teoria e prática fazendo ligação com as outras ciências e áreas do conhecimento”.

    Matheus acrescenta que um dos grandes desafios sempre foi o de mostrar que era possível e viável a existência da escola. “Vivenciamos muitas tentativas de fechamento da escola e cerceamento da ampliação dos níveis de ensino, mas fomos trilhando formas e caminhamos para estabelecer um processo de defesa desse espaço, de instituição e construção da agroecologia. A escola não tinha muitas verbas. Fomos juntando pessoas para garantir isso”, lembra.

    “Muitas das experimentações, da lida com a terra, foram feitas pelas mãos das mulheres”

    Naira Mohr, educadora. Foto: Claudia Weinman, para Desacato. info.

    Naira Mohr é educadora, atua na Universidade Federal Fronteira Sul, campus de Erechim/RS. Ela conta sobre a experiência de vivenciar a construção da escola 25 de maio durante 12 anos. “Tenho um vínculo especial com a organização do MST e participei do processo de construção desse espaço da escola. É emocionante ver que a escola permanece, continua construindo novas experiências, respondendo as dificuldades de forma participativa”.

    Naira faz um destaque especial para a discussão da questão de gênero. “Esses espaços não foram pensados para ter a participação feminina e a gente buscou também atuar nisso, sabendo que existem as resistências externas e dos próprios grupos constituídos se reconhecer. A escola teve muito crescimento com relação a isso pela presença das mulheres nos processos de decisão. Sempre estivemos relacionadas com as educadoras, funcionárias, mães que participaram do processo de construção da escola. Passamos a discutir as situações educativas no campo da agroecologia e vivenciamos muitas das experimentações, da lida com a terra, que eram feitas pelas mãos das mulheres. Eu aprendi muito com as mulheres camponesas, sem terra as quais são, embora nem sempre reconhecidas, grandes cientistas do campo da agroecologia”.

    “As pessoas valorizam a escola, ela é uma parte muito importante da minha vida”

    Ana Flávia Roesler Mohr. Foto: Claudia Weinman, para Desacato. info.

    Ana Flávia Roesler Mohr morou na escola de 1999 até 2010. “Vim com cinco anos, fiz desde a pré-escola até oitava série. Pra mim a escola foi mais do que uma experiência na área da educação, foi uma experiência de vida. É um processo diferente do que era acostumada. A coletividade é muito forte. Não tinha toda estrutura, duas salas de aula, um refeitório, foi tudo sendo reconstruído e ampliado. Fico feliz de ver que a escola cresceu muito, as pessoas valorizam a escola e ela é uma parte muito importante da minha vida”.

    Diversidade sexual: “No início a família ficou com receio de como as pessoas nos tratariam e a convivência foi mostrando outra postura e isso se deve muito ao movimento”

    Agnaldo Cordeiro, gestor da escola 25 de maio. Foto: Claudia Weinman, para Desacato. info.

    Agnaldo Cordeiro e o companheiro Rodrigo Pinheiro moram há 10 anos na escola, espaço que tem contribuído na formação, na segurança e na discussão da diversidade. “A comunidade nos acolheu e de uma forma calorosa. Há cinco anos se começou a discutir no movimento a questão da diversidade sexual, dos LGBT sem terra que estavam na luta mas não eram reconhecidos como LGBT e que  assumem a pauta da reforma agrária e que querem fazer uma construção teórica inclusive do debate da diversidade sexual e da luta de classes, envolvendo várias questões como o combate ao patriarcado e outras formas de violências. Estar na comunidade, no espaço da escola é seguro, é confortável”.

    Agnaldo conta que no início a família ficou com receio de como as pessoas tratariam essa forma de viver. “A convivência foi mostrando outra postura e isso se deve muito ao movimento. Estou na gestão da escola, não enfrento problemas internamente pelo fato de estar na gestão e ser homoafetivo e conviver com meu companheiro aqui. Já passei por situações fora daqui de ser colocado em condição de humilhação e de ouvir a palavra ‘nojo’, ‘nojo de gay’, e você ter que escutar isso no teu almoço, mas ao mesmo tempo pensei que temos algo maior pela frente para construir, então a diversidade sexual precisa ser trazida para todos os espaços, sendo um deles no debate da agroecologia”, contextualizou.

    “O planejamento era feito com a comunidade, se não fosse a comunidade a gente não conseguia tocar”

    Adilio da Silva Paz. Foto: Claudia Weinman, para Desacato. info.

    Adilio da Silva Paz tem 60 anos, é liderança do MST, atuou por muito tempo no setor de educação. Faz parte da coordenação da brigada Olga Benário que abrange os municípios de Água doce, Vargem Bonita e Catanduvas. Ele fez parte da direção da escola dez anos depois de sua fundação. “Me senti no compromisso de vir para a confraternização. Lembro que no início, chegando aqui, tinha o conselho da escola, os professores, começamos o planejamento do ano, a escola já tinha 10 anos de vida, só duas salas de aula, a gente improvisava aula em chiqueiro ou aviário. O planejamento era feito com a comunidade, se não fosse a comunidade a gente não conseguia tocar. O terreno não era corrigido ainda, máquinas estragadas, então a comunidade sempre foi fundamental”.

    *A matéria completa você acompanha no #JTT Regional do Extremo-oeste, que vai ao ar ao meio dia de quinta-feira, dia 7 de novembro, no Portal Desacato e redes. 

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