Vocês querem falar de linchamento? Ok, falemos então

Por Suzane Jardim.

Nos últimos anos você, jovem que frequenta as redes sociais, provavelmente ouviu muito a palavra linchamento. Tá em alta, têm se usado toda vez que surge uma ou outra polêmica com alguém famoso ou com algum mínimo reconhecimento em seu meio.

Pois já que é uma palavra tão usada, vamos lá discutir um pouco sobre ela:


Ao contrário da grande maioria das palavras da língua portuguesa, o verbo linchar não tem uma raiz latina; trata-se de uma palavra bem recente se considerarmos a vasta história do mundo e da comunicação verbal e escrita, sendo um dos muitos anglicanismos que formam nossa língua.

Linchar ( to lynch, lynching: em inglês) vem de um nome próprio, entretanto não se sabe com certeza quem foi o responsável direto por esse “batismo”. Existem duas versões aceitas nessa caso, seria então uma palavra derivada dos nomes de:

  • Charles Lynch, um juiz do estado de Virginia e também coronel de exército miliciano que atuava contra supostos traidores da independência americana. Os que eram acusados de apoiar a Inglaterra recebiam julgamento em um tribunal informal onde as sentenças proferidas incluíam chicote, apreensão de propriedade e recrutamento militar
  • William Lynch, um capitão do exercito que também atuava na Virgina e que montou um “comitê para manutenção da ordem”, por volta de 1780, onde os membros eram autorizados a sair praticando atos violentos contra qualquer um que fosse suspeito de traição. Existe uma confusão histórica comum em confundir esse Willian Lynch com o Willian Lynch que supostamente teria escrito uma carta dando instruções de como controlar escravos nas plantações sulistas em 1712, entretanto os historiadores norte-americanos contestam essa versão e a veracidade da carta em si.

Seja qual for a versão correta, o que importa saber aqui é que foi a partir disso que os termos lei de Lynch ou lei de juiz foram popularizados, sendo muito presentes nos dicionários ingleses da década de 1850 para caracterizar a punição organizada, mas não autorizada de criminosos. Foram esses termos que acabaram por originar o verbo tema desse texto.

Representação dos Motins de Nova Iorque (1863), revolta ocorrida durante a Guerra Civil (Norte)Americana onde homens brancos (imigrantes irlandeses em maioria) atacaram e assassinaram homens negros pela cidade durante três dias

Pois bem,
casos de linchamento público existem na história do mundo desde os tempos bíblicos mesmo que sem o mesmo termo?—?vide Jesus indo lá impedir que tacassem pedras em Maria Madalena?—?porém, seu formato atual tem a origem na opressão contra negros nos Estados Unidos após a Guerra Civil e Reconstrução (Norte)Americana. São famosas as imagens de homens e mulheres negras pendurados em árvores pelo pescoço, muitas vezes com seus corpos queimados, enquanto uma multidão de cidadãos brancos sorri e acompanha o espetáculo de “justiça” contra a ameaça negra, mandando assim o recado de que ali os negros não eram bem vindos?—?o que causou a enorme migração de negros do Sul para os estados do norte do país.

Em termos jurídicos e sociológicos, linchamento é o assassinato de uma ou mais pessoas cometido por uma multidão com o objetivo de punir um suposto transgressor de um modo totalmente independente do sistema jurídico e legal. Geralmente surge com o viés de um espetáculo público que tem o controle social de um grupo específico como meta

Um indivíduo é cruelmente assassinado para mandar um recado, intimidar, controlar ou manipular um setor específico da população, sendo assim um ato ligado a formas de grupos dominantes manterem sua dominação reprimindo física e mentalmente seus adversários

Essa lógica de manutenção do poder contra grupos considerados extermináveis acaba por criar no restante da população um senso de “justiça popular”: os seres lincháveis não estão necessariamente passando por um processo penal e nem tiveram sua culpa comprovada, mas para não correr o risco de ver “a ameaça” em liberdade, agem por fora do sistema e a eliminam.

De acordo com o livro Linchamentos?—?A justiça popular no Brasil, do sociólogo José de Souza Martins, no Brasil ocorre em média uma tentativa de linchamento por dia. Nos últimos 60 anos, mais de 1 milhão de brasileiros já participaram de um ato assim. Os números mostram que a prática se tornou um componente da realidade social brasileira, deixando de se apresentar como atitudes isoladas.

Em 2015 tivemos um caso de linchamento que se tornou emblemático em nossas discussões: Cledenilson Pereira da Silva, de 29 anos, foi acusado de tentar assaltar um bar no estado do Maranhão. Devido a isso, foi amarrado a um poste e agredido com socos, chutes, pedradas e garrafadas até a morte.

A cena do jovem (negro) nu, ensanguentado e já sem vida, com o tronco e pescoço presos por cordas, foi amplamente divulgada nas redes sociais e levantou o debate sobre os riscos desse tipo de justiçamento para a sociedade.

trecho da matéria Linchamentos no Brasil e a naturalização da barbárie

Em março, as imagens cruéis do espancamento e morte da travesti Dandara tomaram as redes sociais. Seu crime? Ser travesti e pobre.

Em resumo

Linchamentos são crimes cometidos por uma multidão de cidadãos, contra uma pessoa ou grupos menores que romperam uma norma social preestabelecida. Ser negro em um estado racista, ser judeu em um estado anti-semita, ser gay em uma sociedade homofóbica, ser acusado de um roubo em uma sociedade punitivista e por aí vai.

Apesar de todas essas informações históricas, linguísticas, jurídicas e sociológicas, devo reconhecer que não sou uma purista. Sei e respeito o fato de que a linguagem é um organismo vivo e mutável. As palavras nascem mas podem ter seus significados e usos alterados, principalmente diante de mudanças estruturais da sociedade, novas lógicas de socialização e avanços tecnológicos.
É então que chegamos ao avanço tecnológico mais significativo do século XXI, a internet e sua popularização, e o surgimento do neologismo linchamento virtual.

Bem, não existe uma definição jurídica ou linguística muito certa e definitiva sobre o que seria um linchamento virtual, então vamos tentar cunhar nós mesmos o que o termo significa:
Um linchamento virtual seria a intimidação de um sujeito via internet e a incitação ao ódio contra ele feita com o uso da mesma ferramenta, gerando assim um grave risco a sua integridade física e segurança. Perfeito. Acho que é uma definição que nos servirá por aqui.

Esse tal linchamento virtual então acarretaria o risco de vida e a ameaça a segurança física dos que são vítimas.

Pensando por esse lado, poderíamos dizer com segurança que todos os citados nesse outro texto que escrevi foram vítimas de linchamentos virtuais, seja em vida ou em morte:

Nesses casos citados no artigo vemos sujeitos que fazem partes de camadas sociais vulneráveis (negros e pobres) sendo acusados sem provas concretas de terem cometidos crimes socialmente entendidos como condenáveis e repugnantes. Nesses casos a violência física e o assassinato de todos eles se tornam moralmente justificados perante a justiça popular que abomina os comportamentos e acusações expostas.

Entretanto
porém
todavia
essas foram pessoas que morreram ou que correram riscos graves devido a boatos e pré julgamentos, mas que aparentemente não são assim tão dignas de uma defesa pública apaixonada e dedicada. Os que lutaram pra expor a injustiça e os perigos desses casos foram e ainda são majoritariamente membros de grupos também vulneráveis que se reconhecem nesses casos e percebem neles a perpetuação de lógicas racistas, discriminatórias e genocidas.

Vamos ser sinceros, quantos intelectuais e pessoas com visibilidade vocês viram por aí lançando textões de apoio e solidariedade ao Luiz Fernando, esse jovem de cordão de prata e boné que, por suas vestes, cor e origem humilde, foi posto em redes sociais como um ladrão a ser caçado e morto?

Então, qual é esse linchamento virtual que realmente mobiliza uma camada grande de pessoas importantes lutando para que ele desapareça?

O linchamento virtual mobilizador acontece geralmente contra pessoa pública que tem prestígio em sua área de atuação

Geralmente são pessoas que já possuem um rosto público, essas que você facilmente consegue uma foto jogando nome e sobrenome no Google Imagens. Normalmente são respeitadas e queridas pela humanidade inteira até que BOOM cometem um ato questionável e são questionados por isso.

Na narrativa da defesa, o questionamento vira “acusação” e a cobrança vira “criminalização”.

Rapidamente o fato do rosto da pessoa ser público parece não fazer diferença e frases como “estão espalhando minha imagem por aí e isso me causa risco” parecem fazer algum sentido que eu ainda não consigo entender qual é sinceramente, mas enfim…

Na prática, esse linchamento causa danos virtuais que atrapalhará a costumeira rotina da pessoa nas redes sociais: ela receberá um monte de mensagens já não tão simpáticas e apaixonadas como antes, será marcada em várias discussões, vão ir atrás de dados do passado que possam engrossar a coisa, virará memes e verá gente que não a conhece dizendo que ela não presta (talvez até alguns conhecidos também, porque não?).
Está então formado o verdadeiro inferno de acordo com as concepções que esse conceito trás?—?como diabos se pode impedir um ser humano de usar as redes sociais em paz?

Existem também diferença nas tais acusações.

Vamos levar em conta aqui apenas os casos de linchamento virtual que ficaram famosos nas rodas da esquerda brasileira nos últimos anos: os crimes pelos quais são acusados raramente são tipificados em códigos penais ou dados como repugnantes por toda a sociedade. É geralmente machismo, homofobia, elitismo, preconceito linguístico ou racismo (única das acusações aqui que consta como crime de acordo com nosso código penal, mas que sabemos que raramente leva de fato alguém a ser condenado por isso).

Essas acusações podem ser graves para nós que atuamos com minorias e que temos causas ligadas a elas como bandeiras pessoais, entretanto vamos combinar que né…

Talvez pelo costume em ser elogiado, pela ilusão de que se é um grande ser humano, a “vítima” desse linchamento virtual e seus apoiadores costumam ser levados por um narcisismo psicodélico onde existe a possibilidade de saírem na rua pra comprar pão e serem, de repente, interrompidos por uma multidão em fúria que acha que racismo ou machismo são questões tão repugnantes quando o suposto sequestro de crianças que matou Fabiane Maria de Jesus.

Tudo isso acontece e tem base para acontecer porque existe um pânico generalizado de que finalmente chegue o real dia de fúria.

Quem irá garantir que a pessoa que está cansada de ver a corrupção na política, de ganhar um salário de merda, ter que pegar ônibus lotado todos os dias, acordar cedo e dormir tarde sem tempo pro lazer ou estudos etc, não irá simplesmente arrumar uma maneira de pegar em armas e sair matando todo mundo? Bem, ninguém garante. Partimos do bom senso de que isso não acontecerá e seguimos nossas vidas, entretanto a dúvida existe porque assumimos que o sujeito está em uma condição mental causada por uma precarização e uma injustiça extrema, onde não teria controle de si mesmo e poderia sim apelar para um ato extremo e irracional. Entendemos que nesse caso o cara chegou ao seu limite.

Nos casos de linchamento virtual que citei agora, esse receio também existe, porém sem que se assuma que o individuo que poderia cometer a tal violência irracional está também em uma situação de precarização e injustiça extrema. Se por acaso um negro reagir violentamente a um ato racista de modo considerado desproporcional, dificilmente dirão que é um pobre homem que provavelmente se cansou se sofrer racismo calado por toda uma vida, mas com certeza dirão que é uma pessoa descontrolada, selvagem, violenta por si só e que agiu por banalidade ou sem motivação.

O limite nesse caso é estendido. É o outro que define o limite aceitável, o quanto tem que ser suportado, o quanto algo é ou não revoltante.

A lógica se inverte: os que possuem apoio da mídia, de poderosos, de pessoas importantes, de uma intelectualidade relevante, se tornam vítimas de perigosas pessoas anônimas que estão em casa muito putas gastando seu pacote de 3G e xingando muito no Twitter. Ser chamado de racista ou misógino é então mais perigoso e danoso do que ser racista ou misógino, do que sofrer racismo e misoginia por toda uma vida.

Como assim eu fui racista? Você quer acabar com a minha vida dizendo algo assim?

Curiosamente racismo e misoginia não são levados a sério por grande parte da população, mas de repente se tornam assuntos seríssimos e capazes de destruir a vida de quem foi questionado por isso.

Esse fenômeno revela tanto sobre privilégios sociais e sobre a sociedade de aparências e likes em que vivemos…

Veja bem, não estou dizendo aqui que xingar na internet, ficar puto e perseguir é legal, divertido e que devemos fazer isso sempre.
É bizarro, não faça isso cara, isso é tosco pra caramba, sério.

A questão aqui é pensar que tipo de linchamento virtual é realmente mobilizador? Quem são os sujeitos perigosos nessa narrativa? Quem são os vulneráveis e quais seus argumentos egocêntricos e sem base social sobre risco e perigo?

Obviamente estou falando de estrutura aqui, certo?

Em todo caso pode surgir um Mark Chapman da vida trazendo um risco real para o sujeito, jamais irei negar isso pois a lógica do dia de fúria tá aí, ela existe.

Contudo, negar a diferença visível de tratamento, alcance e abordagem entre os que de fato morrem e os que no máximo excluirão suas próprias contas em redes sociais devido a tal perseguição (o que nos tempos atuais parece ser pior que a morte física já que o ser acaba sendo definido pelo número de likes e mentions que recebe) só nos afastará ainda mais de conseguir ter uma conversa franca, justa e necessária sobre os limites da internet, o avanço de uma sociedade punitivista, as lógicas de vingança/justificamento e o lugar das causas e grupos sociais diferenciados em tudo isso.

 

Fonte: Medium.

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