Vergonha digital ou encadernada?

Publicado em: 23/03/2011 às 11:43
Vergonha digital ou encadernada?


Por Raul Longo.

Não é de hoje que os veículos e os ditos “profissionais” da mídia brasileira me fazem passar vergonha perante meus amigos estrangeiros.

Não gosto muito dessa palavra “estrangeiro”, pois como diz o Facundo Cabral nascemos todos da mesma forma e seja na Austrália ou na Islândia todas as mães sentem as mesmas dores do parto. Se, entre todas do mundo, algumas diferem da maioria nos sentimentos por seus rebentos, independe de cultura ou idioma, pois trata-se de questões individuais. Daí que o conceito dado a palavra estrangeiro me parece falho, afinal não conheço nenhum estrangeiro que não sinta fome, sede, interesse sexual e todas as demais manifestações fisiológicas e emocionais que sinto cotidianamente.

 

Conheço chineses que apesar dos olhos espichados e cabelos escorridos são muito mais parecidos comigo do que muitos sujeitos que nasceram na mesma maternidade que nasci. Talvez me irmane a um esquimó que por ventura venha a conhecer, tanto quanto me identifico com um velho amigo baiano, embora tenha dificuldades para aceitar e conviver com os costumes e o modo de pensar do meu irmão de pai e mãe.

Conviver não consigo, mas procuro compreender esse irmão dentro da realidade que o formou num tempo diferente da que me construiu 12 anos antes, neste mesmo Brasil. E sei que muito mais nos difere as influências culturais e sociais impostas pelo regime militar instituído em 1964, do que nos aproximam os laços genéticos.

 

Mas mesmo essas diferenças culturais não são ou não deveriam ser barreira alguma, afinal em essência somos os mesmos seres, tenha-se nascido numa aldeia ianomâmi ou entre beduínos, neste ou no século passado. E por muito mais que isso, pois já se constatou em diversas oportunidades que indivíduos de comunidades em nível cultural considerado similar ao de nossos ancestrais da Idade da Pedra, quando levados e adaptados ao ambiente urbano em pouco tempo adquirem os conhecimentos do dito “civilizado” e se equiparam a qualquer orgulhoso ocidental.

A adaptabilidade do ser humano é tamanha que o inverso também se dá e qualquer de nós que diariamente ligamos nossos computadores, se deixados por poucos dias em condições inóspitas para nossos padrões, mesmo nos revestindo de profundos e refinados discursos éticos para nos garantirmos como mais elevados e nos assegurarmos como exemplares para a formação de uma sociedade íntegra e cristã, ou democrática, ou socialista, seja qual for o ideário político/social e religioso de cada um; em poucos dias retornamos à barbárie e até ao canibalismo, superando em muito a selvageria que apontamos em indivíduos de comunidades que julgamos primitivas.

 

Um exemplo claro ocorreu com uma equipe de rúgbi cujo avião caiu no alto dos Andes. O rúgbi não é um esporte de periferia. Seja na Grã-Bretanha, na Austrália ou no Uruguai, jogadores de rúgbi sempre provêm de famílias de  boa situação econômica e muito seguras em seus valores sociais e morais, no entanto um massagista paraguaio daquela equipe, sem dúvida o de menor estabilidade financeira entre os sobreviventes do acidente, me contou ter testemunhado barbáries que jamais serão versadas ao cinema ou descritas por algum escritor por mais sensacionalista e indiscreto.

A questão é: qual interesse teria a divulgação dos detalhes a mim narrados?

Tudo depende de como se conduz o relato. O do paraguaio pude sentir como um desabafo, algo que lhe pesava na memória e, talvez, em seu esforço por  compreender o comportamento de seus colegas de infortúnio, motivou-se naquele momento à terrível confidência após anos do acontecimento.

Não me pediu sigilo, mas era evidente a confiabilidade no senso comum de que normalmente as pessoas são dotadas. Qualquer outro, como eu, deduziria a desnecessidade de divulgação do ali relatado. Desnecessário e inútil, sem qualquer resultado ou benefício a coisa alguma. Compreensível a momentânea necessidade psicológica do rapaz, do contrário seria caso de ter ficado me devendo um pedido de desculpas por ter me feito escutar tão tenebroso relato .

Ainda assim, alguém bastante atilado poderia ter aproveitado daquele mesmo contar para provocar ponderações sobre a fragilidade do verniz moral e cultural que reveste o ser humano, seja qual for o estágio de civilização alcançado. E isso poderia ser mais útil para todos nós do que os códigos de conduta social, concepções religiosas e conceitos morais que constroem nossa condição de civilizados, pois mais nos vale o conhecermo-nos em nossa real essência, do que toda a metafísica, seja a kantiana com suas leis a definir a razão humana, seja a aristotélica a buscar fundamentação ao que hoje somos em nossa origem primacial.

Somos primatas. Nunca deixamos de sê-lo, mas para haver alguma compensação em termos abandonado as cavernas para diariamente ligarmos nossos computadores, precisamos saber dar valor ao que foi conquistado desde lá, inclusive ao pensamento de Kant ou de Aristóteles. E também, lógico, aos códigos, normas de conduta e comportamento, por mais fina a camada de verniz em que se consistam.

Se não reconhecer valor, temos de distinguir onde o brilho é falso e denunciar a fraude, até construirmos atitudes consistentes, pois não adianta pregar a norma, apontar o padrão e enaltecer códigos apenas para destacar indivíduos. Não existem homens bons numa má sociedade, pois se fossem bons de fato transformariam a sociedade e não se bastariam em ser apontados como seus seletos. Ocorre que todos os que se pavoneiam como superiores por exibir mais belas penas que não condizem com a realidade comum, um dia acabam virando adorno ou adereço das próprias fantasias.

Isso em todas as atividades, quaisquer que sejam, mesmo a inaugurada pelo Gutenberg. Como todos sabemos, o invento do Gutenberg deu origem ao que hoje chamamos de 4º poder. E também sabemos que aqueles que detêm alguma espécie de poder sempre são responsáveis pela formação ou deformação de uma sociedade ou de toda uma geração. Eu, por exemplo, não tenho dúvidas de que as deformações em meus conhecimentos e até em meus comportamentos, refletem o período em que fui vitimado pela ditadura militar. Com meu irmão ocorreu a mesma coisa, embora tenha sido vitimado de outra maneira e em outra fase de sua vida. Se cronologicamente nem tanto exposto àquele regime que vivenciei desde o fatídico 1º de Abril de 1964, certamente a ele os efeitos foram ainda mais nocivos, pois sua formação se deu em meio a uma sociedade já forjada por aquele sistema de poder.

A ditadura passou e felizmente nem todos que a vivemos fomos danificados da mesma forma ou com a mesma intensidade, não só por alguns terem escapado de coerções maiores, mas também por, como sempre acontece, cada um ter uma reação diferente a um mesmo fato, ainda que igualmente traumático. Afetar, afetou a todos nós, mas muitos que sofreram muito mais do que eu, por questões de caráter, de personalidade ou de formação; reagiram de forma bem mais positiva. O mesmo acontece com os da geração de meu irmão e não há base para se desculpar pelo que somos apenas por se vivenciado determinado período histórico.

Mas também não há como negá-lo nem fazer de conta que não existiu ou não nos afetou. Existiu e, como sempre acontece nesses lamentáveis períodos da história, praticamente todas as atividades de uma sociedade foram alteradas e todos os poderes que direta ou indiretamente compõem e constituem um sistema político foram corrompidos.

Como é sabido, convencionamos como poderes o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, mas esse que chamamos de 4º poder também tem enorme influência na formação e deformação social e individual, sobretudo nos períodos de vigência de poderes totalitários. Num certo aspecto, é o que faz o serviço mais sujo, na medida em que é o que se incumbe de convencer os dominados de que o poder do dominador é exercido em benefício do próprio dominado.

Uma gritante mentira, afinal para realmente beneficiar alguém o menos indicado é dominar esse alguém, pois o exercício do domínio, em si, já é o maior dos malefícios a ser praticado contra quem for. Mas é disso que vive o poder da imprensa em períodos ditatoriais. Foi assim na França de Napoleão Bonaparte, na Alemanha de Hitler, na União Soviética de Stálin e no Brasil de Médici ou Figueiredo.

Como também aconteceu no Paraguai de Stroessner, no Chile de Pinochet, no Uruguai de Bordaberry, na Argentina de Videla ou Galtieri, e os demais do continente ao longo dos anos 60 e 70.

Se todos passaram pelo mesmo, por quê então me sinto envergonhado com nossa imprensa perante meus amigos estrangeiros? Talvez devesse lhes contar que apesar de toda a censura, apesar da conivência e cumplicidade dos ainda hoje donos dos grandes veículos de comunicação do Brasil, naqueles tempos difíceis e ariscos havia muito mais profissionais comprometidos com a verdade, com a realidade dos fatos. Mas de que adiantaria relembrar Herzog ou Abramo e todos os outros, alguns também amigos? São estrangeiros. Tiveram os similares nas ditaduras de seus países, mas o que os espanta e indigna é a imprensa brasileira de hoje.

Temos uma imprensa moderna, digitalizada ou impressa através dos mais avançados recursos técnicos, em papel de boa qualidade e excelentes resoluções e reproduções de imagens! Por quê então me envergonho? Em quê?

Acontece que por essa nossa história comum no decorrer do século XX contemporizo-me com meus amigos e nos identificamos de forma totalmente independente de cronologia ou geografia. Podemos conviver, pensar, festejar, opinar, divergir e concluir temas que nos são perfeitamente compreensíveis. Mas como, depois de mais de 3 décadas atuando em diversas áreas como profissional de comunicação, explicar-lhes o que acontece com a imprensa brasileira?

Como explicar a um chileno, por exemplo, a razão do dono de um dos jornais de maior circulação no país, se referir a uma “ditabranda”? Devo dizer que por terem assassinado menos brasileiros do que se assassinou chilenos, nossa ditadura foi mais amena ou menos infame?

E quando me questionam sobre o passado de certos profissionais da comunicação que hoje se pautam pelo reacionarismo de seus patrões, como explico a transformação a que se sujeitaram para garantir seus empregos ou aferir ganhos mais compensadores?

No caso que adiante reproduzo, o que explico ao amigo argentino? Vejam como se sente atônito!

O máximo que posso lhe dizer é que o Amilcar Neves sem dúvida é um bom escritor, dos melhores deste estado. Já foi premiado nacionalmente e também recebeu prêmios em outros países. Sem dúvida, assim como fiz, não divulgaria o relato daquele sobrevivente dos Andes se não tivesse uma consideração a fazer para sugerir ao leitor uma reflexão sobre a condição humana, ou qualquer algo que promovesse formação de uma opinião própria sobre nossa realidade.

Posso até especular sobre uma possível intenção do Amilcar em demonstrar como a barbárie herdada da ditadura ainda sobrevive nos meios policiais do Brasil, mas aí o amigo vai me cobrar a falta de, ao menos, um parágrafo relacionado à manutenção da impunidade dos torturadores e estupradores que instituíram e perpetuam a “cultura” aí documentada. E vou dizer o quê, se a falta é evidente?

Que possivelmente o Amilcar tenha composto um ou mais parágrafos nesse sentido, mas que teriam sido cortados pelo editor? Isso não posso dizer, pois nem na época da ditadura permitiríamos que um editor mutilasse a compreensibilidade de nossas reais intenções com um texto. Reduzir o número de palavras ou toques para se ajustar ao espaço previsto pela diagramação, vá lá. Mas deixar o leitor em dúvida se pretendemos uma crítica ou um estímulo a determinada situação ou fato, jamais! Concorde ou discorde o leitor pode até nos entender mal, mas ficar sem entender por nossa própria falta de clareza ou definição, é comprovação de inépcia profissional e, apesar disso ser tão comum em todo o país, sem dúvida não é o caso do Amílcar.

É de quem, então? Antigamente não interessava de quem fosse, pois quem responderia seria o editor. Hoje, apesar de constar no expediente, a função parece ter sido extinta como se extinguem os leitores.

Desse jeito, como mantê-los?

Mas o que pessoalmente mais me preocupa não é a queda do hábito de leitura de jornais entre os brasileiros. E sim os meus amigos que ainda mantêm esse hábito trazido de seus países e que, vira e mexe, vêm me pedir explicações, como faz o Daniel aí adiante.

Explicar o quê? Como esclarecer que apesar de todos os avanços tecnológicos e da ditadura ter acabado há 25 anos atrás, ainda temos uma imprensa da Idade da Pedra e entre os que nela atuam acontecem processos inversos ao diagnosticado por Darwin em sua teoria da evolução?

Não tem jeito e só o que me resta é passar vergonha perante aqueles que dizemos estrangeiros, embora mais atentos às nossas realidades do que os profissionais brasileiros que mais e melhor as deveriam analisar e ponderar.

 

Imagem: jordipeiro.blogspot.com

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