Um revés na busca da vacina contra a covid

Suspensão dos testes com imunizante da Astra-Zeneca teria sido causada por inflamação tratável, na medula de um voluntário. Outros experimentos avançam. E mais: negligência do Brasil diante da pandemia agrava deficiências na Educação

Por

A SUSPENSÃO NOS ENSAIOS

Os ensaios com a vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford e pela AstraZeneca foram suspensos por conta de uma suspeita de efeito adverso em um participante. Como se sabe, o candidato a imunizante está na fase 3 dos testes, sendo aplicado em milhares de voluntários em vários países, entre eles o Brasil.

Quem deua notícia primeiro foi o site STAT, ontem à tarde. Na reportagem, um porta-voz da AstraZeneca declara que o “processo de revisão padrão da empresa acionou uma pausa na vacinação para permitir a revisão dos dados de segurança” e investigar o caso, mas sem dar detalhes sobre o que exatamente aconteceu. Mais tarde, o New York Times deu novas informações a partir de uma fonte anônima. De acordo com ela, trata-se de um participante do Reino Unido que foi diagnosticado com mielite transversa, uma síndrome inflamatória (tratável) que afeta a medula espinhal e frequentemente é disparada por infecções virais. Porém, até o fechamento desta edição da newsletter, isso não havia sido confirmado pela AstraZeneca.

Seria um efeito adverso compatível com a vacinação, podendo ter sido desencadeado pelo vetor adenovírus do imunizante. Segundo o Manual de Vigilância Epidemiológica de Eventos Adversos Pós-Vacinação do Ministério da Saúde, existem relatos raros dessa mesma síndrome (e outras síndromes neurológicas) após a administração da vacina contra a hepatite B, mas nunca foram encontradas evidências suficientes para dizer se existe de fato uma relação causal.

No caso dos testes paralisados, também não dá para saber se o problema foi realmente um efeito da vacina ou se a síndrome teria se desenvolvido de qualquer forma – daí a necessidade de parar tudo e investigar, procurando outros voluntários que possam ter tido o mesmo problema. Via de regra, a pausa em ensaios significa parar de recrutar novos voluntários e interromper a dosagem nos já inscritos, mas mantendo seu acompanhamento.

É preciso dizer que, embora a novidade seja perturbadora, suspensões em testes são comuns e o caso só confirma o quanto a fase 3 é importante, impossível de pular. A segurança é confirmada de forma preliminar nas fases 1 e 2, mas nessas etapas, com um número reduzido de participantes, efeitos menos comuns podem não aparecer. No caso dessa candidata, os resultados das primeiras fases mostraram efeitos colaterais considerados leves ou moderados em 60% dos participantes.

Infelizmente, o contratempo vem em péssima hora no Brasil, justo quando o presidente Jair Bolsonaro decidiu cair nas graças do movimento antivacina. Ontem ele voltou a dizer que ninguém pode ser obrigado a se imunizar. Não é difícil imaginar os efeitos que a paralisação deve ter em grupos que já vociferavam contra os imunizantes.

OS EFEITOS IMEDIATOS

Horas antes da suspensão, o ministro interino da Saúde Eduardo Pazuello afirmou que o governo pretendia imunizar as pessoas muito em breve. “Em janeiro do ano que vem, a gente começa a vacinar todo mundo“, disse ele a uma youtuber de dez anos que participou de reunião ministerial. A principal aposta do governo federai é justo a vacina de Oxford/AstraZeneca.

Os testes, obviamente, foram pausados aqui também. “Trata-se de uma prática comum em estudos clínicos envolvendo fármacos. O comitê de monitoramento de segurança do estudo analisa se o caso tem ou não relação com a vacina e, assim que a análise for concluída, a fase 3 deve ser retomada”, disse em nota a Unifesp, que coordena o estudo em São Paulo. Segundo a instituição, entre os cinco mil voluntários que já tomaram a vacina aqui, não houve intercorrências graves. A Fiocruz disse que vai acompanhar os resultados e a Anvisa informou que foi comunicada, mas não se pronunciou.

Mesmo que as investigações não demonstrem causalidade entre a vacina e a síndrome, o cronograma do estudo pode ser afetado.

ENQUANTO ISSO…

A Rússia liberou sua vacina Sputnik V – cuja fase 3 dos ensaios ainda está em andamento – para o público em geral, com a entrega do primeiro lote prevista para “um futuro próximo”. O vice-diretor do Instituto Gamaleya, Denis Logunov, já havia dito que a liberação poderia acontecer esta semana.

E o CEO da BioNTech, Ugur Sahin, confirmou na CNN que a vacina desenvolvida por essa empresa junto com a Pfizer deve estar pronta para aprovação em outubro – a tempo de impactar as eleições presidenciais nos EUA. A previsão é que sejam produzidas cem milhões de doses este ano (todas já encomendadas por Donald Trump) e mais 1,3 bilhão em 2021.

É uma promessa duvidosa, considerando que os testes são imprevisíveis. Apesar da afobação, a Pfizer e a BioNTech estão entre as nove empresas que assinaram um compromisso público de “desenvolver e testar vacinas potenciais para covid-19 de acordo com altos padrões éticos e princípios científicos sólidos“. Como comentamos na última edição, essa é uma tentativa de a indústria manter a credibilidade diante da evidente pressão política de Trump para uma aprovação rápida. O comunicado foi publicado ontem.

CRESCENTE ABANDONO

A taxa de abandono de vacinas no Brasil cresceu 47,6% nos últimos cinco anos, segundo a apuração de Estêvão Gamba e Sabine Righetti, na Folha. Essa taxa se refere ao número de pessoas que começam um determinado esquema vacinal e o largam no meio do caminho antes de tomar todas as doses necessárias para garantir a imunização: a criança que toma a primeira dose da tríplice viral, mas não a segunda, por exemplo. Se em 2015 essa taxa era de 15,8%, no ano passado chegou a 23,4%. O aumento é desigual e foi muito pior em alguns estados, como Goiás, em que praticamente dobrou. E, como nota a reportagem, essa trajetória pode ser um problema no contexto da pandemia. É que das 33 candidatas em testes clínicos atualmente, 29 devem exigir pelo menos duas doses. Fora que ainda não se sabe se as futuras vacinas vão ter que ser tomadas de novo todo ano, como acontece com a da gripe.

IMPACTOS DURADOUROS

A OCDE divulgou ontem um relatório que trata dos impactos da pandemia na educação, com foco nos efeitos sobre a produtividade do trabalho e, consequentemente, na economia. A entidade projeta uma queda de 1,5% no PIB mundial até o fim do século devido à interrupção nas aulas. O tombo será maior nos países que demorarem a se organizar de modo a retomar o desempenho de antes da crise sanitária. É o caso do Brasil.

Com as atividades presenciais suspensas desde março, o país acumula um atraso superior à média: no fim de junho, já eram 16 semanas de paralisação contra 14 nos países ricos. No começo de setembro, fazíamos parte do grupo de oito entre 46 nações onde as aulas seguiam suspensas (com exceção do Amazonas). Isso, claro, é consequência da taxa de contágios que até semanas atrás estava descontrolada.

Mas existem fragilidades históricas. A OCDE apontaque um dos gargalos para retomar as atividades de forma segura por aqui é a quantidade de alunos por sala de aula. Até o 5º ano do ensino fundamental, temos, em média, 23 estudantes por classe – o que nos coloca na 10ª pior posição entre 32 nações com dados disponíveis. O cenário se agrava nos anos finais do ensino fundamental (que vai 6º ao 9º ano), quando as classes têm 27 alunos, o que nos coloca na 6º pior posição.

Outro problema levantado pela entidade é o financiamento da educação na pandemia e para lidar com os problemas de aprendizagem que vêm depois. Para se ter uma ideia, ontem o projeto Covid Tracking estimou a quantidade mensal de testes que os Estados Unidos precisam para retomar as aulas presenciais com segurança: 193 milhões por mês. Hoje, são feitos mensalmente apenas 21 milhões. Tudo isso está bem longe da nossa realidade, e por aqui ainda temos que lidar com o risco de desvinculação das verbas da educação.

Finalmente, o relatório corrobora o diagnóstico de que a aprendizagem é menor com o ensino remoto e que a desigualdade de acesso à internet, equipamentos e condições de estudo amplia o abismo entre ricos e pobres.

Em tempo: ontem, escolas públicas e privadas do estado de São Paulo reabriram. Segundo o governo, 200 escolas da rede estadual retomaram as atividades, o que corresponde a apenas 3,5% do total. E nessas unidades, a taxa de presença foi baixa: entre 10% e 15% dos estudantes compareceram.

REVERSÃO DE CONQUISTAS

Outro relatório divulgado ontem, desta vez por várias agências da ONU, concluiu que o novo coronavírus pode estar minando os avanços de redução da mortalidade infantil. Uma pesquisa conduzida no inverno pela Unicef com 77 países constatou uma sistemática interrupção nos serviços de saúde: 68% relataram problemas na imunização; 63% nos exames pré-natais; e 59% nos cuidados pós-natais. Outro estudo citado no relatório, feito pela Organização Mundial da Saúde (OMS), ouviu governos de 105 países. Em 52% dos casos, foi relatada interrupção nos serviços de saúde infantis, e em 51% nos programas de combate à desnutrição.

FECHOU E FLEXIBILIZOU CEDO

Pesquisadores da USP, da Universidade de Oxford e do Imperial College analisaram dados sobre a conduta dos prefeitos na pandemia. O levantamento foi feito pela Confederação Nacional dos Municípios em questionário respondido por 4.061 cidades, ou 73% do total do país. Quase 70% dos gestores que adotaram restrições afirmaram que tomaram essa decisão antes de confirmar o primeiro caso da doença. Já a flexibilização das quarentenas, confirmada em 61,9% dos casos, aconteceu de forma precipitada, principalmente em abril e maio.

“Diferentemente da implantação das medidas não farmacológicas (como distanciamento social), a flexibilização foi extremamente dessincronizada. (…) A maioria dos municípios que registrou picos de ao menos 20 casos novos por dia flexibilizou as restrições antes de chegar nesse patamar”, afirmou  a diretora do Centro de Estudos sobre o Brasil da Universidade de Oxford, Andreza Santos, em entrevista ao Estadão. O estudo, que será lançado hoje, indica que faltou coordenação nacional.

E o Brasil registrou ontem 516 mortes. O número ficou abaixo de 800 pelo segundo dia consecutivo, mas, como acontece nos finais de semana, o feriado pode ter impactado a contagem nos estados. Mesmo assim, a média móvel de óbitos continua em tendência de queda: chegou a 691, a menor registrada desde 14 de maio. Temos 127,5 mil mortes e 4,1 milhões de infecções registradas no total.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.