Todos os riscos (vale)

Por Fernando Evangelista.

Matt Corner é um fotógrafo de guerra. Tem cara de alemão, nome de americano, mas é italiano da gema. É um sujeito esperto e corajoso. Corajoso demais e, às vezes, lá no meio das bombas, eu ficava me perguntando se ele era mesmo corajoso ou só um maluco inconsequente.

Mais um doido em busca de um sentido ou de uma revelação, igual àqueles fanáticos com o Velho Testamento embaixo do braço. Uns se agarram à religião, ao poder, às drogas e outros se agarram às guerras. Cada um na sua, como naquele comercial de cigarro. Pena que não é tão simples assim.

Matt Corner é um fotógrafo pobre. Trabalha para uma pequena agência fotográfica de Milão, sem estrutura e sem fama. É complicado sobreviver sem grana em qualquer lugar e é ainda pior sobreviver nas guerras com os bolsos vazios. Isso, porém, não o impede de continuar na estrada, registrando as belezas e os horrores do caminho.

O caminho escolhido é quase sempre o secundário, aonde ninguém quer ir porque é muito longe, ou muito perigoso ou inacessível ou tudo isso junto. As histórias que lhe interessam são as histórias não contadas.

Se o circo da mídia está indo para um lugar, pode apostar que ele seguirá na direção oposta e, para espanto geral, voltará de lá com registros preciosos. Em Bagdá, em 2003, depois de vários dias descobrindo personagens “anônimos” – para ele sempre extraordinários -, Matt entrou sem credencial na proibida Zona Verde e fotografou uma reunião secreta do Alto Comando militar norte-americano, até ser notado e escorraçado do local.

Matt Corner é um fotógrafo ambicioso. Ele está atrás da sua “grande foto”, a grande imagem que conquistará o World Press Photo, o Oscar da fotografia, e o transformará num profissional reconhecido e requisitado pelas grandes agências. E ele, a partir de então, poderá fazer as viagens que quiser, ir para as guerras que desejar, sem contar cada centavo de um dinheiro sempre curto.

Com a grande foto no currículo, ele poderá publicar livros e dar palestras mundo afora, e aí, numa prestigiada Universidade, rodeado de admiradores, ele vai relembrar, entre um autógrafo e outro, como tudo começou.

Vai lembrar como no início era difícil, “oh, meu Deus, era tudo tão complicado”, e uma das mulheres perguntará sobre a famosa foto na guerra do Líbano e outra fará menção  de uma foto da Bósnia e ele, dando um meio-sorriso, sem mostrar os dentes, desviando o olhar para baixo, como um bom menino tímido, dirá: “sim, sim, eu estava lá e aquilo foi realmente difícil”.

Então, para deixar o mistério no ar, sem explicar nada, sem falar muito, em meio ao murmurinho e olhares de admiração, ele pedirá desculpa, “o papo está muito bom, mas preciso ir, tenho um compromisso importante” e irá embora, enigmático e triunfante, como se fosse um Arturo Bandini ou um Dominic Molise, personagens do escritor John Fante.

Matt Corner é um sujeito insatisfeito. Ele ainda não conseguiu – já com seus 40 e tantos anos – a bendita grande foto. Mas não desiste. Apesar de um pessimismo militante, Matt não se leva muito a sério e isso lhe dá a capacidade de rir de si mesmo, o que me parece uma sábia ferramenta de sobrevivência.

Curioso e culto – ele fala cinco línguas, incluindo o árabe – Matt possui qualidades fundamentais para quem trabalha em áreas de risco: é pragmático, sem ser indiferente;  é posicionado, sem ser ideológico;  é cético, sem ser cínico. É apaixonado pela profissão, o que pode soar piegas e fora de moda diante do jornalismo estatístico e desumanizado de hoje em dia.

Além de certa loucura e alguma vaidade, Matt é movido por algo ainda maior. Ele acredita que uma foto – uma simples foto bem feita – pode ser capaz de denunciar a injustiça mais terrível. E isso, para ele,  justifica todos os riscos.

Fernando Evangelista é jornalista. Mantém a coluna Revoltas Cotidianas, publicada toda terça-feira. Fotos de Matt Corner em http://mattcorner.photoshelter.com/

 Foto: Matt Corner.  Festa de ano-novo dos curdos, a maior etnia sem estado no mundo. Turquia, 2007.

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