Terrorismo somali, instabilidade queniana

Publicado em: 22/12/2013 às 08:38
Terrorismo somali, instabilidade queniana

Implodida há mais de duas décadas, a Somália é um Estado falido. Ao norte, dois estados vivem autonomamente, enquanto no resto do país o poder central não consegue se impor. Ao mesmo tempo, a jihadista Al-Shabab perdeu o rumo, mas se espalhou, sobretudo no Quênia, onde os dirigentes se destacam por seu despreparo

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Civis escapam de área do Estgate Shopping Center em Nairóbi após atentado em 21 de setembro

Por Gérard Prunier.

Sábado, 21 de setembro de 2013. Uma pequena unidade agindo em nome do Al-Shabab – abreviação que designa o movimento islâmico somali Harakat al-Shabab al-Mujahideen – entra no shopping centerWestgate, em Nairóbi, no Quênia, e abre fogo contra a multidão que faz compras. Entrincheirados no labirinto de lojas, os agressores mantiveram um cerco de quatro dias, matando todos ao alcance. As autoridades quenianas não apenas foram incapazes de conter o massacre, como também não conseguiram identificar os membros da unidade, impedir que fugissem nem prender pelo menos um deles. Ninguém ainda sabe nada, nem sequer o número de vítimas.

Embora o evento tenha sido encarado sobretudo como um ataque de “terroristas islâmicos”, ele contém outras duas dimensões, muitas vezes subestimadas: é mais um episódio da guerra civil que arrasa a Somália desde as primeiras ofensivas da guerrilha em 1988; e é um sintoma do agravamento da instabilidade política que não para de crescer no Quênia desde a eleição presidencial contestada de 2007.1

A Somália está dividida não apenas desde a queda do ditador Siad Barre em 1991, como se costuma dizer, mas desde a grande rebelião da Somalilândia, região no norte do país que declarou independência em 1991, mas não obteve reconhecimento internacional.2 O crescimento, a partir de 2004, do movimento armado Al-Shabab (literalmente, “juventude”) simboliza a interminável desagregação política do país.

Conflito interno no Al-Shabab

Quisemos ver o ataque a Westgate como uma vingança contra o Quênia, cujo Exército interveio contra bases do grupo islâmico radical, com o apoio do governo federal somali (GFS) e da aviação francesa, em outubro de 2011. Porém o Exército queniano é apenas uma das forças armadas estrangeiras que atuam na Somália – e certamente uma das menos eficazes. Na verdade, forças da Uganda, Burundi e Djibuti atuam ali desde 2007, sob a égide da Missão da União Africana para a Somália (Amison), financiada pela União Africana e pela ONU. Muitas tropas etíopes também operam fora do quadro da Amison. Os quenianos seguem interesses nacionais que muito pouco têm a ver com a restauração da paz na Somália.

Nairóbi tenta proteger sua fronteira nordeste, constantemente atacada pelos shifta(criminosos somalis), mas também assumir o controle de uma área do Oceano Índico que provavelmente contém petróleo e, com certeza, gás natural. Em 2011, os soldados quenianos levaram nove meses para avançar 200 quilômetros, mesmo sem encontrar praticamente nenhuma resistência; essa lentidão explica-se em parte pelo mau funcionamento de sua cadeia logística. Durante a tomada do porto de Kismayo, em setembro de 2012, eles mandaram na frente os milicianos do aliado local Ahmed Madobe, cujas forças foram responsáveis pelo grosso da segurança do Baixo Juba. Pior ainda: em janeiro de 2013, quando Madobe pediu ajuda para “limpar” o interior até Gedo, o Exército queniano foi roubado, o que colocou em dúvida suas capacidades de enfrentar o Al-Shabab.

Ao longo de 2012, o grupo islâmico perdeu várias das grandes cidades somalis que havia tomado, permitindo a introdução de uma nova Constituição e de um novo governo. A eleição do presidente Hassan Sheikh Mohamud, em 10 de setembro de 2012, concluiu o processo de transição iniciado em 2004 sob a autoridade da ONU.

Também seria equivocado interpretar o ataque em Nairóbi como evidência de um poder estratégico renovado dos grupos islâmicos. Ainda que se trate realmente de uma projeção da guerra civil somali no Quênia, o ataque de Westgate é resultado do conflito interno que dividiu o Al-Shabab entre abril e julho. Esses confrontos seguem-se às derrotas militares infligidas pela Amison. Ahmed Godane, um dos principais líderes do movimento, colocou-se violentamente contrário a muitos de seus subordinados. Alguns pagaram com a vida, e o mais importante deles, Hassan Dawer Aweys, líder histórico do movimento islâmico somali, acabou se entregando ao governo federal e sobrevive precariamente em Mogadíscio, sob a proteção de tropas internacionais.

É difícil saber se o comando que atacou Westgate era do grupo de Godane ou de seus adversários. Mas parece certo que sua ação pretendia impressionar a mídia, que já quase não se arrisca na Somália, e atrair dinheiro da Al-Qaeda, que não gozaria de boa saúde financeira e estaria medindo despesas. Assim Godane alcançou o posto de “estrela” do terrorismo islâmico mundial, num palco já lotado pela Al-Qaeda no Magrebe Islâmico (AQMI), a Al-Qaeda na Península Arábica (AQAP), o Jama’a Islamiya indonésio, o Boko Haram da Nigéria e os diversos movimentos sírios.

Obviamente, a exportação do fenômeno não significa que ele não tenha mais base na Somália. O Al-Shabab ainda controla cerca de metade do território. Ele tenta se reposicionar perante o governo federal, organizando nas áreas ocupadas obras de infraestrutura, assembleias populares e até festas infantis! Embora o terrorismo seja sua principal atividade, ele não é a única carta de um movimento cujo principal trunfo é representar pequenos clãs. Estes se sentem vítimas do “imperialismo” dos grandes clãs, em primeiro lugar os do grupo Hawiye, super-representado no GFS. O governo federal frequentemente precisa negociar acordos tortuosos com o Al-Shabab, o qual combate em vários lugares, como na região do Juba, onde empreende uma luta silenciosa contra Madobe. Quanto a este, todos se perguntam se é o homem dos quenianos ou, ao contrário, se serve deles.

País muito pouco militarizado,3 o Quênia passa por uma profunda instabilidade política. Desde a eleição presidencial de 2007, tensões étnicas que remontam à independência, agravadas pelo regime de Daniel Arap Moi (1978-2002), levaram a atos de violência que fizeram 1.300 mortos. Trezentas mil pessoas foram se refugiar no território de sua etnia de origem, buscando escapar dos ataques das outras. Muitas ainda não voltaram para seu lugar de residência anterior. Milícias tribais se formaram, sendo as mais brutais as dos quicuios e dos kalenjins.4 Após os massacres, o Tribunal Penal Internacional (TPI) ordenou uma investigação e acusou um dos principais políticos quicuios, Uhuru Kenyatta, filho do ex-presidente Jomo Kenyatta, e um líder kalenjin que ele combatera em 2007, William Ruto.

Sob intensa pressão judicial e internacional, os dois réus fizeram uma aliança eleitoral antinatural, mas eficaz, conseguindo que um se tornasse presidente, e o outro, vice. Na verdade, eles ganharam a eleição de março de 2013 por um triz, no primeiro turno, com 8.400 votos de diferença, ou seja, com 50,07% dos 12,3 milhões de eleitores (para 14,4 milhões registrados). Quase não eleitos, suspeitos de crimes contra a humanidade, obrigados a comparecer perante o TPI, os dois homens estavam contra a parede. O ataque de Westgate veio como uma tábua de salvação.

Ruto já estava em Haia, diante do tribunal, no momento do ataque de 21 de setembro, e o presidente Kenyatta deveria apresentar-se em novembro. Menos de 24 horas após o início do julgamento, o TPI aceitou que o vice-presidente voltasse a Nairóbi “para garantir a urgência do exercício de suas funções”. A partir de então, Kenyatta e Ruto não são mais réus na defensiva, mas garantidores do direito internacional contra a “ameaça terrorista”. Pouco importa que as forças de segurança tenham lidado de maneira lamentável com a situação – elas explodiram o estacionamento situado no teto do shopping, enterrando muitas pessoas sob os escombros; os soldados saquearam lojas e bares, ficando tão bêbados que começaram a atirar cegamente. Pouco importa que a polícia não tenha conseguido uma planta do edifício nem se preocupado em vigiar os esgotos, por onde os membros da unidade conseguiram escapar. Pouco importa que, já no primeiro dia, o Exército, chamado em reforço, tenha matado por engano o chefe de polícia. Pouco importa que as autoridades encarregadas de resolver a crise, o general Julio Karangi e o inspetor-geral de polícia David Kimaiyo, tenham brigado publicamente e confundido seus homens com ordens contraditórias, enquanto o ministro do Interior mentia atribuindo o incêndio do shopping aos terroristas – algo em que o público não acreditou nem por um instante.

Um clube de ditadores?

Os dois réus quenianos receberam o fervoroso apoio do presidente nigeriano Goodluck Jonathan, do ministro dos Assuntos Estrangeiros etíope Tewodros Adhanom e da grande maioria dos países-membros da União Africana, que se reuniram em Adis-Abeba no dia 12 de outubro de 2013. Somente o ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan, ainda atormentado pelas lembranças de Ruanda e Darfur, declarou: “Eu ainda não ouvi os dirigentes falarem de justiça para os milhares e milhares de africanos que perderam a vida ou foram forçados a abandonar suas casas. Onde está a justiça para eles?”. O blogueiro sudanês Mohamed Hafiz, defensor dos direitos humanos, escreveu um postcom o título “A União Africana é uma união de povos ou um clube de ditadores?”.5

Nada está resolvido no Quênia, onde o fato de Kenyatta e Ruto estarem ao abrigo de perseguições internacionais não melhorou em nada a instabilidade política. Os deputados, aos quais o presidente Kenyatta pediu, em plena crise financeira, que demonstrassem moderação em suas escolhas, também aproveitaram para votar em setembro um aumento salarial que, com cerca de US$ 12 mil por mês, os coloca na linha de frente entre os legisladores mais bem pagos do mundo…

Ilustração: Siegfried Modola / Reuters

1 Ler Jean-Christophe Servant, “As bases sociais da explosão queniana”, Le Monde Diplomatique Brasil, fev. 2008.

2 Ler “Le Somaliland, une exception africaine” [Somalilândia, uma exceção africana], Le Monde Diplomatique, out. 2010.

3 A Kenya Defence Force (KDF) não teve nenhuma experiência de combate desde a independência do país, em 1963. E suas “operações de manutenção da ordem” frequentemente acabaram em excessos sangrentos, como o massacre de 3 mil civis em Waggala, em 1984.

4 Jomo Kenyatta, o primeiro presidente do Quênia independente, era quicuio. Seu sucessor, Daniel Arap Moi, era kalenjin.

5 Hafiz Mohamed, “The AU is it People Union or Dictators Club”, 14 out. 2013. Disponível em: <http://sudantribune.com>.

Fonte: http://diplomatique.org.br/artigo.php?id=1557

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