Temer fica. O que temer?

Publicado em: 10/06/2017 às 12:01
 Foto: Pedro Ladeira/Folhapress
Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

Por Leandro Monerato.

Ontem terminou o julgamento da chapa Dilma-Temer pelo TSE com a sua absolvição. De forma surpreendente para muitos, o voto de Minerva veio do golpista Gilmar Mendes.

Disse ele ao apresentar seu voto: “Não se substitui um presidente da República a toda hora, ainda que se queira. Porque se prefere pagar o preço de um governo ruim e mal escolhido do que a instabilidade ou golpes na calada da noite. ‘Ah, mas o povo quer!’ Mas é assim que se destrói mandato?”.

Ora, se o golpe iniciou a derrubada de Temer, por que Gilmar não o fez? A dúvida faz sentido. Entre as opções existentes para a derrubada de Temer, a via TSE pareceria a mais tranquila, comparada à opção de um longo processo de impeachment via Congresso Nacional.

A resposta veio de uma declaração dada pelo prefeito almofadinha, João Doria. Disse ele antes do julgamento: “É preciso ter a compreensão do momento certo de atacar e saber quem é o inimigo. O nosso inimigo é o PT, o inimigo do Brasil.”

A derrubada do Temer nesse momento foi paralisada para impedir que a situação se desenvolva fortalecendo o lado petista; que logicamente se beneficia da luta entre as alas golpistas.

Mas o que explica isso? Para entender é preciso recuperar o processo em que esta batalha se insere.

O golpe de Estado organizado pelo imperialismo foi feito para satisfazer necessidades de banqueiros mundiais quanto ao nosso sangue e nossa riqueza. O golpe é o início de uma operação de guerra contra o Brasil levada à frente por brasileiros de nascimento que trabalham para os EUA, como é o caso do próprio Temer.

Essa necessidade, o conteúdo golpista, qual seja, a necessidade de destruir completamente a economia nacional e esmagar os trabalhadores, não encontrou ainda a forma para realizar este ataque com a coesão necessária a uma manobra agressiva como esta.

O regime político brasileiro, pela sua própria natureza contraditória, pela pulverização política que se desenrola há décadas, não consegue fazer o que o imperialismo quer. Mesmo o Congresso mais venal e direitista da nossa história torna-se um obstáculo aos golpistas, pois, em uma guerra, um princípio fundamental é o tempo. E o Congresso torna toda operação lenta a ponto de tornar a sua execução muito difícil.

Este problema vem tornando-se cada vez mais presente aos quadros golpistas. Isso porque os ataques às empreiteiras, à indústria da carne, a reforma da previdência tem encontrado relativa resistência de setores que haviam participado do golpe. Não por qualquer característica progressista dos setores nacionais; mas devido à fraqueza da ala PSDB-DEM em levar o ataque com a intensidade necessária. O que, por sua vez, se explica pela confusão que se abriu no interior dos EUA a partir da eleição de Trump; quer dizer, a divisão do imperialismo enfraqueceu a ala golpista no Brasil.

Nesse ínterim, o plano de liquidação do PT e Lula esbarrou num enorme movimento de massas que foi a Curitiba protestar contra o estado de exceção do preposto Sérgio Moro.O bloqueio desta iniciativa golpista pelo movimento operário aumentou a pressão no interior do golpe. O que precipitou a evacuação de Temer do Plano Central pela Globo. Algo que já estava inscrito na situação política desde o impeachment de Dilma.

Esta ofensiva encontrou resistência de Temer que, por sua vez, procurou adiantar-se e mobilizar ele mesmo o Exército, como quem diz: “querem um ditador, eis que estou aqui!”.

O bate-estaca da imprensa golpista contra Temer abriu um flanco aos movimentos de massas. Somado ao fato que a burguesia não tem conseguido mobilizar seu efetivo coxinha para confundir a situação nas ruas como fez em 2013, acabaria por fortalecer o PT como alternativa.

Recapitulando: o golpe iniciou a derrubada de Temer no momento de um equilíbrio negativo de forças (a incapacidade de um setor derrotar o outro); a parca resistência de Temer deu à operação um tempo maior do que seria permitido. Isto por sua vez resultou num aumento da confiança petista.

Eis o porque do recuo. Eis o porque do voto de Gilmar explicado por Doria. Antes de resolverem o problema interno entre as alas golpistas, é preciso liquidar a fatura com o PT. Pois enquanto o PT existir, toda luta, toda turbulência do golpe será capitalizada por ele. E assim, todo o golpe corre perigo.

A situação torna-se cada vez mais paradoxal. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

Assim, Temer vai ficando; vai se tornando ele mesmo o ditador bonapartista do golpe, usando o exército e se apoiando ora em um, ora em outro setor. Sempre utilizando a carta PT como justificativa para um ou para outro.

Eis que o golpe volta ao ponto de onde começou. A rota que estava na direção de Lula desviou-se para Temer. Mas tal como uma lei da natureza, o golpe mostra que não pode avançar enquanto o PT existir. A votação de ontem será o recomeço da cassada ao Lula e às organizações operárias.

O novo fôlego de Temer deverá ser seguido por uma intensificação da repressão e dos planos fascistóides de colocar toda a esquerda na ilegalidade. As conversas diárias com as Forças Armadas mostra a perspectiva que está colocada para o próximo período.

Fonte: O Homem Livre.

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