Seminário discute impactos da mineração no Xingu

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Organizações populares em parceria com a Universidade Federal do Pará (UFPA) promovem discussão sobre “Mineração no Xingu: o que aprender com o crime no Rio Doce?”. Foto: MAB.

Aconteceu na tarde desta sexta-feira (11 de novembro) o seminário “Mineração no Xingu: o que aprender com o crime no Rio Doce?”, no auditório central da Universidade Federal do Pará (UFPA), campus de Altamira (PA). A atividade foi organizada pelos movimentos populares em parceria com a universidade. A região, já atingida pela barragem de Belo Monte, sofre com a ameaça do megaprojeto de extração de ouro a céu aberto Belo Sun, da canadense Belo Sun Mining, controlada por bancos privados do Canadá e EUA.

O projeto Belo Sun já possui licença prévia e pretende extrair ouro da região da Volta Grande do Xingu, trecho de 100 km do rio que teve sua vazão reduzida em mais de 80% com a construção da barragem de Belo Monte.

O seminário contou com a participação dos movimentos, acadêmicos, sindicalistas e moradores das comunidades ameaçadas pelo projeto, como a Vila da Ressaca e a aldeia indígena Muratu, da terra indígena Paquiçamba. Também estiveram presentes representantes da Defensoria Pública da União (PU), da secretaria do Estado que cuida da mineração (Sedema) e da Secretaria de Meio Ambiente de Brasil Novo.

A militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) Elisa Estronioli trouxe a experiência do MAB com os atingidos pelo crime cometido pela mineradora Samarco (Vale/BHP Billiton), que matou o Rio Doce, assassinou 19 pessoas e atingiu 1 milhão de moradores de 41 municípios. “Trazemos aqui o exemplo da Samarco não para fazer uma comparação técnica, mas para tentar compreender a lógica como a mineração é feita em nosso país. Trata-se de um modelo totalmente privatizado e que privilegia o lucro em detrimento da vida e do bem-estar do povo”, afirmou.

O engenheiro ambiental Emílio Soares trouxe alguns dados sobre o projeto Belo Sun. A empresa pretende construir uma barragem de rejeitos de 92 milhões de m³ de rejeitos, quase o dobro da capacidade da barragem de Fundão, da Samarco, que rompeu, e com a presença de cianeto, componente toxico utilizado na mineração de ouro. “As barragens de rejeitos do modo como são construídas, na lógica de cortar custos, são verdadeiras bombas-relógio. É preciso mudar a forma como se constrói essas estruturas no Brasil”, sentenciou.

Flávio da Casa de Educação Popular trouxe uma análise de conjuntura e falou da tendência predatória dos projetos de mineração no Brasil, em especial na Amazônia, após o golpe de Estado. “A tendência é acelerar esses projetos sob controle do capital transnacional, visando apenas o lucro. Ao povo, resta se organizar para resistir e lutar por direitos”.

Bel Juruna, indígena da Aldeia Muratu, vive a 9 km do projeto de Belo Sun e mesmo assim, a empresa ignorou os indígenas em seus estudos de impacto. Ela contou que os indígenas tomaram a iniciativa de construir um protocolo de consulta sobre o projeto, e estão sendo pressionados pela Funai para concluir o processo porque a Secretaria de Meio Ambiente do Pará quer liberar logo a licença de instalação de Belo Sun. “Temos que ter uma estratégia diferente para não deixar os impactos que aconteceram conosco por causa de Belo Monte acontecer agora com Belo Sun. A gente não quer Belo Sun enquanto não foi concluído o período de monitoramento do impacto de Belo Monte na Volta Grande [seis anos]”.

José Pereira da Cunha, garimpeiro e morador da Vila da Ressaca, conta que já existe impacto da Belo Sun no local, pois os garimpeiros estão impedidos de trabalhar e os agricultores já estão perdendo suas terras. O movimento na pequena vila também aumentou. “Hoje não ficamos mais sossegados, não podemos deixar as crianças brincarem mais na rua, chegamos em casa e trancamos a porta”, disse.

Essa foi a primeira iniciativa organizada pela sociedade civil para debater Belo Sun. Ao fim do seminário, os movimentos reafirmaram a necessidade de continuar discutindo esse projeto com a população para levar as informações e cobrar um posicionamento consequente do poder público.

Fonte: MAB.

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