Secundaristas lutam contra ofensiva do setor privado na educação pública de Goiás

Por José Coutinho Júnior. Movimento já dura 60 dias. Estudantes ocuparam 27 escolas para protestar contra administração de escolas públicas por OSs.

Bruno Boaratti Machado tem 18 anos e está no terceiro ano do ensino médio. O estudante do colégio estadual Murilo Braga, de Goiânia (GO), pensava em cursar história, mas decidiu prestar ciências sociais. Ele explica o motivo: “depois das ocupações das escolas aqui no estado, inclusive na minha, acabei pensando melhor e me interessei mais por ciências sociais”.

As ocupações de 27 escolas em Goiás pelos estudantes secundarias iniciaram há 60 dias, e, apesar da desocupação forçada de muitas delas por parte do Governo Marconi Perillo (PSDB), o movimento permanece resistindo.

Os estudantes protestam contra a iniciativa do governo goiano de ceder a administração das escolas às organizações sociais (OSs) que, segundo eles, não visam uma educação de qualidade, e sim o lucro.

“Entendemos que as OSs nada mais são do que um empresário disfarçado. E um empresário só visa lucrar. O número de alunos por sala ia aumentar muito, a qualidade do ensino piora. Em relação à estrutura do colégio, nada impede que a administração use materiais baratos. Tudo isso para visar mais lucro”, analisa Machado.

Violência

Após ação da polícia em diversas instituições de ensino, o número de ocupações caiu para 16. Mariana Lopes, doutoranda em história e apoiadora do movimento, afirma que, além de violenta, muitas das ações foram ilegais.

“Na escola Ismael Silva de Jesus, não houve pedido de reintegração. O que me surpreende nesse caso específico foi a violência contra crianças e adolescentes que estavam dormindo na escola. De madrugada, policiais entraram na escola e bateram nos meninos. A truculência é uma coisa comum em Goiás. A resposta para toda e qualquer manifestação que existe aqui é violência”, afirmou.

Após receber o informe do que havia ocorrido no colégio, Mariana foi até lá prestar solidariedade, levar quem precisasse ao hospital e ao Ministério Público, para que denunciassem as agressões.

“Quando estávamos saindo da escola, fomos parados por policiais sem identificação, armados, que mandaram a gente descer do carro, ficar com a mão pra cima, e falaram que se a gente não fosse por bem para a delegacia, iríamos coercitivamente. A suspeita contra a gente era de furto e danos da escola que acabava de ser desocupada”, relatou.

A forma como a polícia tem lidado com os estudantes reflete a forma que o estado tem tratado a demanda dos estudantes, analisa Machado. “Quando tivemos uma audiência, a secretária de Educação simplesmente falou que quer buscar o diálogo, mas que as OSs vão continuar. Que não adiantava protestar, ocupar colégio; poderíamos conversar para melhorar as OSs, não barrar esse processo. O que a gente quer é o cancelamento desse edital e um plebiscito, onde a sociedade possa decidir se queremos as OSs ou não”, disse.

Solidariedade

Para os estudantes, apesar do tamanho de seu movimento, sem o apoio de parcelas da sociedade, a realidade da educação em Goiás não vai mudar. Por isso, os secundaristas querem um apoio maior dos professores e de movimentos populares. 

“É hora dos movimentos sociais, professores e sociedade entrarem na luta. Não é tirar o protagonismo dos alunos, e sim dar espaço para outras pessoas e organizações exporem suas ideias e nos apoiar”, reivindica Machado.

Por maiores que sejam a repressão e a negação do estado em atender as demandas dos estudantes, o processo das ocupações tem sido um aprendizado grande para os secundaristas.

Mariana, que coletou doações para as ocupações e deu oficinas sobre violência contra a mulher em todas as escolas ocupadas, acredita que os estudantes têm plena consciência do que estão fazendo e do que querem.

“É bonito de observar o quanto eles estão empenhado nessa luta, participando de tudo, eles têm consciência de tudo que estão fazendo. Não são massa de manobra como a mídia diz, e mostram nas ações que são protagonistas dessa luta. Eles cuidam da escola, fazem suas próprias refeições, se organizam em comissões e contam com professores e pessoas da sociedade que apoiam”.

Machado concorda. “No colégio não tinha grêmios ou qualquer tipo de movimentação política. Agora, com essas ocupações, tem uma consciência de classe e uma autoafirmação. Por exemplo, meninas negras que passavam a chapinha pra alisar o cabelo agora usam o cabelo black power. Quem tinha vergonha de falar que era negro ou pobre, agora tem orgulho de falar e sabe porque é pobre. As ocupações estão mudando a realidade dos alunos. É uma experiência gigante e enriquecedora”, conta.

Resposta

A reportagem entrou em contato com as secretarias de Educação e de Segurança Pública de Goiás, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria.

Foto: Reprodução/Brasil de Fato

Fonte: Brasil de Fato

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