Sangue, saudades e solidões

Por Luciane Recieri, para Desacato.info.

Acordou várias vezes durante a noite, se esticava pra achar a dor, companheira desde novembro passado. As mãos ainda formigavam, e ela pensou ah, você! Mas mudando a posição, sentia o sangue tomar seu lugar e as formigas deixarem, numa carreira só, as galerias.

Sonhou com sua cachorrinha que morrera fazia quase cinco anos. Ontem, percorrendo os cantos da casa, afetara-lhe uma saudade mais funda,  no sonho, a cachorrinha explicara o que era a morte, sabia que sonhava, porque cachorros não falam com palavras pra não perderem a doçura.

Ainda vamos ter que adivinhá-los pra seguir aprendendo. Ela dizia das tantas vezes que morrera, deixando a vida nos cantos, como quem deixa roupa por lavar, a palavra pra isso era preguiça. Disse que quem morre de amor são os mais patéticos, lembrou-a da lista dos envenenados e dos sócios da Gillette. Ela dizia, apontando o sol, o céu, o pequeno jardim – seu reino.

Nada mais doía, salvo o tornozelo que se acostumou com o triplo do tamanho ainda pinçava um pouco.

Levantou-se e, descalça foi pra rua, ninguém respondia ao seu bom dia… Nem as empregadas domésticas que tanto se afeiçoaram a ela nesses anos que passara por ali, nem o guarda-noturno, que já tendo  apagado a noite, voltava sem ruído pra casa.
A vida era um vazio só.

Luciane RecieriLuciane Recieri é cientista social e escritora, em Jacareí /SP

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