Quem é realmente o meu próximo?

Por Míriam Santini de Abreu, para Desacato.info.

Na bela história bíblica do bom samaritano, Jesus é questionado sobre como fazer o bem e herdar a vida eterna. E aparece a pergunta: quem é realmente o meu próximo?
 
Às vésperas da Páscoa, lembrei-me desta história ao ler uma notícia na BBC Brasil sobre um morador de Montes Claros (MG) que estava a ponto de perder todos os sucos e salgados que naquela tarde vendia na praça central da cidade. Polícia Militar, Receita Federal e Estadual – uma verdadeira força-tarefa – estavam a ponto de recolher tudo, até o carrinho de ferro do vendedor. De repente, um homem ignorou todos eles e estendeu uma nota de 2 reais para comprar um suco. Foi o que bastou. Quem estava em volta passou também a comprar ou estender dinheiro ao vendedor sem levar nada, tudo para impedir a perda dos produtos, aos gritos de “deixem ele trabalhar”.
 
O fato singular ocorrido na cidade mineira, tão bem narrado pela BBC, faz emergir a realidade cada vez mais crua da classe trabalhadora. Sem emprego formal, impedida de exercer o informal, incapaz de pagar a água, a luz, o gás, tendo na possibilidade mesma de habitar a concretização de um privilégio. No trecho final do texto, o vendedor diz: “Eles sempre dizem que vão pegar minhas mercadorias. Esse é um dos motivos que me fazem pensar se eu volto a trabalhar. Hoje, eu sentei na cama e fiquei chorando porque não sei o que fazer. Tenho medo de voltar lá e passar esse constrangimento de novo. Eu não trabalho como ambulante por opção. Eu trabalho porque não tenho o que fazer. Com certeza, trocaria por qualquer outro emprego”.
 
Reconhecer-se neste desespero explica a atitude de dezenas de pessoas que naquele dia compraram as mercadorias do vendedor para impedir a apreensão pela polícia E talvez possa explicar algo maior, de mais ampla escala, de efeitos mais duradouros.
 
O filósofo francês Henri Lefebvre definia o Momento como “a tentativa de alcançar a realização total de uma possibilidade”. Nesses tempos em que a alegria nos escapa, que essas tentativas possam frutificar no sentido de cada um e cada uma reconhecerem como seu próximo todo o ser capaz de sofrer. Porque naquele dia, em Montes Claros, as pessoas desafiaram todas as representações dos Poderes para garantir num momento a sobrevivência de um homem. Que outra possibilidade aí se pode vislumbrar em sua realização total?
 
A notícia pode ser lida aqui.

 

Míriam Santini de AbreuMíriam Santini de Abreu é jornalista em Florianópolis.

 

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