Quanto vale um tuíte? No Brasil, vale uma operação da Polícia Federal

Publicado em: 20/04/2017 às 09:09

Por Fábio de Oliveira Ribeiro.

Hoje fui surpreendido no meu escritório por uma Delegada e três agentes da Polícia Federal. Ela me entregou o mandado abaixo e pediu para eu acompanhá-la até minha residência onde os materiais indicados na ordem judicial deveriam ser apreendidos.

Li o mandato e pesquisei na internet: surpresa, surpresa, eu estou sendo investigado por crime de terrorismo. Maroto, disse ao policial próximo de mim para tomar cuidado porque eu era um terrorista perigoso. Ele me olhou sério como quem estava pronto para me algemar e perguntou “Você é perigoso?”. Disse-lhe que todo advogado é perigoso com uma caneta nas mãos.

A diligência em minha casa foi tranquila. A Delegada me perguntou se eu tinha armas de fogo e eu apontei o fogão dizendo que aquela era minha única arma de fogo, quatro bocas e um forno. Ela me perguntou se eu tinha materiais explosivos em casa, disse-lhe que o gás enganado era explosivo. Ela me perguntou se eu sabia utilizar e armar explosivos, disse-lhe que não, mas que poderia aprender isto na internet.

Os policiais foram muito gentis. Mostrei-lhes o conteúdo de gavetas e minha coleção de filmes. A Delegada ficou olhando detidamente meus livros, perguntei-lhe se eles seriam apreendidos. Ela disse que não. Uffa…

Alguns objetos meus foram apreendidos: um notebook, vários pen-drives, meu telefone celular. A apreensão dos objetos foi formalizada. Então a Delegada me perguntou se eu poderia prestar depoimento hoje ou amanhã. Disse-lhe que prestaria depoimento hoje mesmo e fui conduzido à sede da PF. No caminho notei que o motorista rodou vários quilômetros pelo acostamento da Rod. Anhanguera. Mas ele não foi multado.

Na sede da PF fui levado ao setor de inteligência, no 9º andar. Fiquei sozinho no corredor durante uns 10 minutos. Ninguém sequer se preocupou em me revistar para ver se eu estava armado. Se estivessem lidando com alguém realmente perigoso… Quando começava a cochilar fui chamado a prestar depoimento numa sala equipada com computador e câmera de TV. Meu depoimento foi gravado. Assim que for liberado posterei o mesmo no Facebook, pois nada tenho a esconder.

A Delegada então me apresentou um Inquérito com três volumes contendo dezenas de folhas com posts meus no Facebook e no Twitter. Confirmei que o material era de minha autoria.

Então fui questionado por causa da invasão da Embaixada dos EUA que não ocorreu a não ser como piada de mau gosto no Facebook (a comunidade criada durante o golpe de 2016 nem existe mais). Também fui interrogado sobre a contagem regressiva deste evento virtual no Twitter. Contagem regressiva que foi interrompida uns 25 dias antes da invasão da Embaixada Americana não ocorrer.

A Delegada me fez perguntas sobre 4 perfis que sigo no Facebook e/ou no Twitter. Sobre dois deles forneci alguns detalhes: um pacífico dentista indiano piadista que gosta de escrever contos e de fazer charges ridicularizando a política externa norte-americana e que detesta o fundamentalismo religioso (inclusive na Índia) e que atende por Jihadi Colin e; uma adolescente norte-americana muito inteligente que se chama Bethany Koval e que atende pelo apelido Benny. Os outros dois não conheço, nem quero conhecer.

Fui inquirido sobre vídeos feitos em inglês há um ano, quando o golpe de estado mediante Impedimento fraudulento estava em curso. Disse que fiz os mesmos para informar meus amigos europeus, norte-americanos e asiáticos sobre o que estava ocorrendo no Brasil. Expliquei que ninguém fora do Brasil usa a língua portuguesa e que o inglês era a única forma que eu tinha de me comunicar com meus amigos estrangeiros. Nos vídeos expressei minha opinião política sobre o que estava ocorrendo no país. Se ter opinião política era crime então eu era um criminoso e deveria ser condenado e teria que cumprir pena.

Fui então interrogado se alguém já tentou me recrutar para terrorismo dentro e fora do Brasil. Disse que não. Também foi me perguntado o motivo de eu dizer que colocaria explosivos na porta do meu escritório (Twitter antigo). Expliquei que alguém havia invadido meu escritório e que eu já havia recebido ameaças de morte por publicar textos exigindo a punição de policiais e militares que cometeram crimes durante a Ditadura. Esclareci que usei o mesmo tipo de linguagem que as pessoas costumavam usar para me ameaçar e para me ofender por causa dos referidos textos. Certa feita eles publicaram a foto da rua onde moro feita a partir da câmera de segurança de uma padaria no bairro. Uma bravata, entende…

Porque você não procurou a polícia? Por que a polícia paulista não é capaz nem de investigar e solucionar a maioria dos homicídios que ocorrem. Se eu fosse importunar a polícia toda vez que sou ofendido ou ameaçado os policiais me tratariam como se eu fosse um louco. Além disso, sou advogado e já fui ameaçado várias vezes. Posso conviver com isso, mas não vou deixar de fazer o que é necessário para me defender. Eles me ameaçam, eu os ameaço. E se alguém me matar, paciência. Talvez peguem o assassino…

Ela me mostrou textos que eu havia publicado durante o golpe de estado de 2016 se referindo a Temer como presidente do Brasil. Os vídeos que eu fiz na época estavam gravados num DVD anexado ao processo. Disse-lhe que Temer era um usurpador e que estava impondo ao país um programa de governo não aprovado nas eleições. Também lhe disse que, segundo notícias veiculadas pela imprensa, ele havia participado de reuniões na Embaixada dos EUA antes de chegar ao poder através do Impedimento mediante fraude. Após assumir o poder ele estava cumprindo o que provavelmente havia prometido aos norte-americanos em troca do apoio para o golpe: a entrega do nosso petróleo. Estas são minhas opiniões políticas, se elas constituem crime então terei que ser condenado – repeti.

A Delegada me perguntou se eu usaria violência para depor Temer. Disse-lhe que nunca estive em Brasília, que não tenho nenhum grupo ou partido político. Também lhe disse que, se tivesse oportunidade, daria um chute na bunda do usurpador. Esta minha ambição foi reproduzida no depoimento escrito.

Fui inquirido sobre supostas relações com terroristas que não tenho. E que não quero ter porque deploro o fundamentalismo religioso. Disse-lhe também que não gosto de policiais e de militares, mas admitia a necessidade deles existirem.

Só no final do depoimento a Delegada sacou a mensagem que havia justificado a operação dela na minha casa: o tuíte abaixo.

Expliquei que existe um abismo entre as palavras e as ações. Ela disse que eu deveria moderar minha linguagem, disse-lhe que não tinha muitos seguidores e que nenhum europeu, norte-americano ou indiano presta atenção no que eu escrevo em português. Séria, ela afirmou que minha mensagem poderia ser interpretada como incentivo à violência política.

Eu lhe disse que eu não era telejornalista como aquela mocinha que incentivou linchamentos na TV, provocando vários linchamentos nas ruas. Minha importância é nula. Minha influência é inexistente, pois tenho poucos seguidores. De fato, eu uso a internet para desabafar. Se isto é crime eu terei que ser condenado e serei obrigado a cumprir a pena, pois não sou imune e impune como os políticos criminosos que deram um golpe de estado em 2016.*

A Delegada me perguntou se eu pretendo cumprir a ameaça. Disse-lhe que não tenho uma arma de fogo e que não pretendo comprar uma. Ela voltou à moça Benny Koval: mas ela é uma adolescente? (notei uma certa repreensão de natureza moral no comentário). Respondi que sim, que ela era uma adolescente e que eu me aproximei dela porque Benny sofreu a mesma coisa que eu em razão de criticar a brutalidade de Israel nas áreas palestinas. Disse-lhe que a menina estava encrencada e que dei conselhos a ela: processar aqueles que a perseguem e recorrer a OEA. Também desaconselhei a norte-americana de usar armas de fogo assim que ela postou fotos e vídeos utilizando-as.

Durante todo o depoimento fui bem tratado. Senti sede, a policial me deu água. Numa conversa informal, a escrivã disse-me que havia feito duas faculdades. Parabéns… Por fim disse a Delegada que eu não perdôo e não vou perdoar os militares e policiais que cometeram crimes durante a Ditadura e que eu provavelmente morreria sem os ver punidos. Eles podem me ameaçar e me ofender, mas ao contrário deles eu não sou criminoso. Eles sequestraram, torturaram e mataram pessoas. Os únicos crimes que eu havia cometido quando eles invadiram minha casa em 1967 (quando eu tinha 3 anos de idade) foi mijar num comunista (meu pai) e jogar a chupeta longe (porque eu não gostava de chupeta).

Ao final dei os parabéns à Delegada pelo profissionalismo dela. Ela ficou intrigada. Eu também fiquei intrigado, sob o governo do usurpador a PF foi transformada em Polícia Política cuja função é censurar as atividades on line dos cidadãos que acreditam que o país está no caminho errado e que um governante golpista não tem direito de impor à população um programa de governo que foi rejeitado durante as eleições. Como disse à Delegada, estou convencido de que a exclusão social promovida por Michel Temer causará no Brasil o mesmo fenômeno que tem provocado no Oriente Médio: violência criminosa e política.

Se meu crime é ter opinião política sou um criminoso e devo ser condenado e preso. Mas como eu disse à Delegada: eu não vou me calar e a sociedade não tem o direito de me obrigar a cometer um suicídio porque eu não consigo não ver o que está sendo feito e não consigo ficar quieto. Um detalhe: o prédio da PF em São Paulo é bonito, mas eu não sei qual foi a construtora que realizou a obra, nem se a mesma foi superfaturada.

*Ao chegar no escritório notei que o tuíte criminoso havia sido curtido e reproduzido por uma pessoa. Como vocês podem ver meu poder nas redes sociais é imenso. Sou realmente uma pessoa capaz de comandar as massas armadas em direção ao Palácio do Jaburu. 

Fonte: Jornal GGN.

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