Precisamos falar da fé de Leonardo

Leonardo Martins da Silva, de 46 anos, é preto. Ele é o pai de Leonardo Junior, um dos mortos no Dia da Consciência Negra, na Cidade de Deus. Leonardo, o pai, ao saber da possibilidade de o filho estar morto, saiu em busca do corpo, em uma área de mata na Cidade de Deus.

Foto: Fernando Frazão

Por Nilza Valeria Zacarias.

No dia em que deve ser celebrada a consciência negra, a consciência de um povo que foi escravizado e liberto, no dia para celebrar a resistência de um povo que era marcado para o trabalho e a morte, ocorreu a morte de sete jovens. Todos negros. As mortes aconteceram em 2016, na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro. No mesmo dia houve a queda de um helicóptero da Polícia Militar, deixando quatro policiais mortos. Os laudos concluíram que a aeronave caiu por falta de manutenção. Mas a morte dos meninos não foi um acidente. Eles morreram como morrem meninos negros, 23 a cada dia. Praticamente um por hora, de ponta a ponta do país.

Leonardo Martins da Silva, de 46 anos, é preto. Ele é o pai de Leonardo Junior, um dos mortos no Dia da Consciência Negra, na Cidade de Deus. Leonardo, o pai, ao saber da possibilidade de o filho estar morto, saiu em busca do corpo, em uma área de mata na Cidade de Deus. Enfrentou o policial que guardava a região e entrou – junto com outros pais e parentes de outros jovens – para recuperar o corpo de Leonardo, o filho, de 22 anos. Leonardo, o pai, tem a cor e a condição social dos evangélicos brasileiros. É preto, é pobre, é crente.

Os dados do IBGE (do Censo realizado em 2010) apontam que 30% dos brasileiros se declaram evangélicos. Desse percentual, pouco mais de 60% são evangélicos pretos e pardos. Pesquisas recentes, como as realizadas pelo Datafolha, sinalizam que esse número segue aumentando, sendo esse o segmento religioso com o maior crescimento no Brasil. E os sinais desse crescimento se notam em todo lugar: a música evangélica toca nas rádios, os cantores dessa música são tratados como celebridades, vendedores ambulantes vendem Bíblias em áreas de comércio popular, expressões religiosas típicas desse movimento caíram na boca do povo, influenciando e moldando a cultura e o modo de vida dos brasileiros. Até no Congresso Nacional a bancada evangélica é considerada essencial para criar, apoiar e votar leis que alteram drasticamente a realidade do país.

Foi no mês de novembro de 2016, o mesmo da morte dos sete jovens da Cidade de Deus, que a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito se consolidou como um movimento, reunindo cerca de 2 mil pessoas por meio de adesão virtual. Gente crente, das mais diversas Igrejas evangélicas, e inconformada com os rumos que o país tomava naquele momento, após a votação do impeachment confirmando o golpe que levou Michel Temer à Presidência da República. Crentes que não se reconheciam nos representantes eleitos que formam as bancadas evangélicas nas câmaras municipais, nas assembleias legislativas e no Congresso Nacional.

Saindo da virtualidade

Com as adesões crescentes, os organizadores da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito resolveram reunir os interessados em algumas cidades. A primeira reunião foi em São Paulo. Entre os participantes, uma chamava atenção: Antônia, uma crente da Assembleia de Deus, o maior grupo de evangélicos no Brasil. Nascida e criada na Igreja, Toninha, como é chamada, reconheceu na fé que carrega a motivação para entrar na luta por moradia. A liderança que assume nas ocupações que organiza, em prédios abandonados na capital paulista, não a impede de viver a crença em Cristo. Ao contrário, é na leitura bíblica que encontra a validação para a luta, o direito à moradia, o direito à terra, o direito à vida digna.

A cidade seguinte a reunir crentes interessados em participar da frente e dispostos a falar de justiça e do estado de direito foi o Rio de Janeiro. Em uma tarde de sábado, quase cem pessoas se reuniram em uma sala na zona sul da cidade para entender como falar de justiça social. E de fé. Na reunião, assim como em São Paulo, foram levantadas muitas possibilidades de ação, todas voltadas para a defesa do estado de direito, todas contra a violência, contra as reformas que se anunciavam: da previdência e do trabalho. Contra o desmonte, contra a quebra da soberania nacional.

Poucos dias depois da reunião de organização da frente no Rio foi que aconteceu a execução dos sete jovens na Cidade de Deus. O pastor Leonardo, o pai do jovem morto, foi descoberto por um membro da frente nas páginas dos jornais. Assim, a Frente de Evangélicos chegou à Cidade de Deus. Uns dias após o enterro de Leonardo, o filho, deu-se o encontro de uma comitiva de crentes da Frente de Evangélicos com aquele homem, que dizia palavras descoordenadas, aglutinadas pela dor de ter enterrado o filho mais velho, ao que tudo indica morto – sem defesa – por ação dos policiais do Bope.

Com o grupo, Leonardo falou da sua fé, do trabalho de evangelização que sempre gostou de fazer, de evangelizar traficantes de madrugada, de sair de casa com a Bíblia na mão, após ter orado. E fala do quanto é necessário orar. Diz que escuta programas evangélicos no rádio. Diz que visitou presídios. Diz o quanto gosta de falar de Jesus. Não há revolta em nenhuma de suas falas, não contra Deus. A revolta é destinada à política de segurança pública, à inexistente política de segurança, que transforma a guerra às drogas em uma guerra contra pretos e pobres: “Sabe quem pagou o coturno do policial que matou meu filho? Eu. Sabe quem pagou a farda do policial? Eu. Sabe quem pagou a bala e a arma que mataram meu filho? Eu”. Essas palavras de Leonardo foram ditas quando o choro deu uma trégua e ele conseguiu arrumar o pensamento. Conseguiu compreender a cidadania que possui, sua dignidade e seu lugar na sociedade. Tudo misturado com a fé que herdou de sua mãe. A fé dos crentes em Cristo. A fé que cresce entre os brasileiros.

A Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito apoiou, no dia 20 de novembro de 2017, a realização do Culto Celebrando a Consciência Negra, no qual se falou de resistência, racismo e fé, na Igreja Batista Memorial da Tijuca, no Rio. Lá estava Leonardo, um ano depois da morte do filho. Ele estava no lugar dele, entre irmãos de fé, em um culto em que se denunciou o genocídio da população negra. Graças a Leonardo, outros pastores e crentes da Cidade de Deus compreenderam que, para ser relevante na comunidade, conhecida pela alta vulnerabilidade, é preciso falar de Bíblia, de cidadania, de direitos. A frente está falando sobre isso na Cidade de Deus, está falando sobre isso no Rio de Janeiro, está falando sobre isso na Bahia, em Pernambuco, no Rio Grande do Norte, no Ceará, em Minas Gerais, no Espírito Santo. Onde tem crente e surge espaço, a frente está denunciando o retrocesso que tomou conta do país. E a frente fala disso no Pará, onde conflitos por terra matam dezenas por ano, inclusive posseiros crentes, muitos da Assembleia de Deus, como Leonardo.

É o povo de fé, os crentes, juntos com todos os outros brasileiros, que será afetado pelas novas regras de contratação para o mercado de trabalho. Crentes são pretos, são pobres. Pretos, inclusive, estão sempre em desvantagem no mercado de trabalho. Dos 13 milhões de desempregados no país neste momento, mais de 8 milhões são pretos e pardos. No sistema carcerário, mais de 60% dos presos são pretos e pardos.

Em um ano, a Frente de Evangélicos cresceu mais de 100%. Quase 5 mil adesões virtuais – um número significativo para a iniciativa, nascida para levar aos senadores, em Brasília, um manifesto de evangélicos contra o impeachment. Na trajetória após o golpe, a frente marcou presença em manifestações, todas em defesa da garantia de direitos e do processo democrático. Passou a integrar as frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, levando um olhar da perspectiva do segmento evangélico, dos pretos e pobres, para construções de projetos de país que sejam bons para todos.

Estado laico e outras pautas

A frente carrega em sua essência a defesa do Estado laico. Que todas as religiões sejam protegidas e isso garanta o direito de cada pessoa expressar a fé que escolher. A frente se fez presente na Caminhada pela Liberdade Religiosa, promovida pelas religiões de matriz africana, em defesa da tolerância. Realizou ato público em defesa do funcionalismo público e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Promove audiências populares, como a realizada em São Paulo, em junho de 2017, para falar sobre a Cracolândia e as ações higienistas do prefeito João Doria. Participa de audiências públicas, como a realizada no Congresso, em defesa do SUS.

Quando a Guarda Municipal de Niterói quis se armar, a frente se uniu a outros grupos, e juntos promoveram um debate sobre o tema, que resultou na suspensão da pauta. A frente integra o Pernambuco pela Paz, movimento que denuncia os números absurdos da violência urbana. A frente tem posicionamentos contra o Escola Sem Partido, contra a reforma trabalhista, contra a redução da idade penal. Contra a violência que afeta a mulher. Promove conversas sobre Bíblia, cidadania e direitos humanos. A voz da frente são as vozes de crentes que, animados pela fé, estão envolvidos nos temas que afetam o cotidiano de todos. A mesma fé que sustenta Leonardo.

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