Políticas de saúde sexual falham ao esbarrar no moralismo do governo

Mesmo no carnaval, campanhas desagradam especialistas por não retirarem o tabu presente em falar sobre sexo

Ministro da Saúde, Henrique Mandetta. Foto: Ministério da Saúde.

Por Giovanna Galvani.

O carnaval obriga os governos a correrem com campanhas de conscientização sobre o uso de camisinhas e a usarem, genericamente, frases de efeito para convencer os foliões a não transarem sem proteção. Em 2020, não foi diferente: o ministro Henrique Mandetta anunciou que 128,6 milhões de preservativos foram distribuídos para a festa deste ano. Um recorde, ele diz. O problema da campanha, porém, é o histórico do governo em que ele se encontra: do nada, é permitido falar sobre sexo?

A implementação de uma política pela abstinência sexual como método para prevenir a gravidez na adolescência, sugerida pela ministra Damares Alves antes mesmo do carnaval, desagradou não só a comunidade científica – desmerecida pelo governo por ser considerada um bando de “esquerdistas” pela ideologia de gênero” -, mas também repercutiu em uma instância mais técnica do Ministério da Saúde, encabeçada pelo ministro Mandetta. Quando foi liberada na primeira semana de fevereiro, a campanha já era outra.

Mesmo com tons mais amenos em relação ao peso moral-religioso, a campanha pelo adiamento do início da vida sexual contrasta com uma outra ação pela conscientização sobre ISTs (infecções sexualmente transmissíveis), feita por Mandetta em novembro de 2019. Até o momento, as duas iniciativas formam o portfólio de debates sobre sexualidade do governo Bolsonaro, além da clássica campanha das camisinhas. As duas principais, porém, desagradam especialistas por não retirarem o tabu presente em falar sobre sexo.

Para Luciana Brito, psicóloga e pesquisadora do Anis (Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero), é difícil combinar os esforços de uma campanha mais técnica e baseada em evidências quando há tantos negacionistas no governo federal.

“Eu acho que sempre é difícil separar propostas de governo, principalmente quando temos um que é marcado desde o começo por uma ideologia moral e religiosa no discurso. Essa campanha dos jovens com nojo das ISTs, por exemplo, marca uma compreensão equivocada sobre o que é uma IST. As infecções passam a ser enquadradas como um estereótipo de algo nojento e distante de nós, daqueles que assistem o vídeo”, analisa a pesquisadora.

Luciana fala sobre o mote principal da campanha de Mandetta, que apresenta o medo e o nojo como aliados ao combate das ISTs. “A campanha ficou instigante e o objetivo é fazer com que a população fique com receio de não usar o preservativo e saber a consequência desse ato”, disse o ministro no lançamento do projeto, cujo comercial principal é o vídeo abaixo.

De fato, o debate sobre outras doenças além da aids, causada pelo vírus HIV, é necessário pela escalada de doenças que tinham deixado de ser alarmantes no Brasil. Em 2017, foram notificados 53,1 casos de sífilis a cada 100 mil habitantes. Em 2018, a comparação foi para 75,8 para 100 mil – mais de 158 mil casos da doença foram identificados.

Para Luciana, porém, mais do que avisar que as ISTs existem e são perigosas, é necessário informar a população para reconhecer sintomas e realizar exames periódicos para aquelas doenças assintomáticas – como o HPV, que atinge mais de 50% dos brasileiros de 16 a 25 anos, segundo pesquisa do Ministério da Saúde de 2017.

Dentro de um contexto em que o sexo é visto como perigoso ou pecaminoso, o acesso a essas informações pode ser prejudicado, analisa a pesquisadora. “Não há somente a penetração peniana. Há outras formas de relação sexual, então essa é uma compreensão estereotipada do que seria sexo e IST”, explica.

Nas redes sociais, a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos diz sobre os adultos fazerem “o que quiserem” e para não mexerem com as crianças. Luciana e diversos especialistas na área são unânimes ao afirmarem que a educação sexual adequada para cada fase da vida é a melhor resposta aos desafios da sexualidade. Todos recebem uma sonora negativa do governo ao método que, segundo a pesquisadora, protege mais e melhor as crianças de serem expostas às intempéries no futuro.

“Se a gente pudesse discutir sobre o que é proteger crianças, seria dar educação sexual e de saúde reprodutiva nas escolas, discutir gênero, falar sobre proteção e sexualidade. Quando se discute de acordo com a faixa etária de cada criança, com a compreensão de cada assunto, você a protege de abusos e violências sexuais imaginando que a maior parte das violências contra crianças é dentro de casa. São os adultos, que deveriam protegê-las, que são os principais abusadores”, analisa Luciana.

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