‘Perdi a condução, mas descobri os grupos de WhatsApp de ônibus’

Foto: Lourrane Ribeiro

Havia saído de casa adiantado para o encontro do meu clube do livro porque não conhecia bem o caminho do Engenho Novo, na zona norte do Rio de Janeiro, para o Barra Shopping, zona oeste. Abri o Google Maps, meu fiel escudeiro na arte de me locomover de ônibus, tracei a rota, descobri que precisaria pegar o 693 (Méier x Alvorada) e fui. Nunca tinha ouvido falar dessa linha antes, mas, nesses aplicativos de ônibus, eu acredito. Não deveria, até porque já me deixaram na mão diversas vezes, mas a gente trabalha com o que tem.

Fiquei 50 minutos ou 50 anos, difícil dizer agora, no ponto esperando o 693 e nada do ônibus aparecer. Foi impressionante que eu cheguei num ponto de ônibus cheio de gente e me vi sozinho em questão de minutos. Passavam muitas linhas por ali, mas eu era o único azarado esperando o ônibus mais atrasado do Rio. Não havia me ajudado em nada ter saído com antecedência de casa, os minutos que ganhei já tinham escoado junto com a minha paciência.

Comecei a duvidar da existência do 693. Talvez tenha sido um delírio meu no momento que olhei no Google Maps, pensei. De vez em quando acontece de uma linha ter mudado de nome ou de número ou, pior ainda, trocado de rota, e os aplicativos demoram a perceber. Se não apelarmos para o boca a boca, podemos esperar sentados por um ônibus que jamais virá.

Perguntei para um senhor no ponto comigo se ali realmente passava o 693. Ele riu. “Passar até passa, mas só quando quer”, disse. Eu não tinha como ficar à mercê de um ônibus com vontade própria, então cancelei meu compromisso.

Saí do ponto bastante chateado, olhei no Google Maps para saber como voltar para casa (a gente não aprende) e caminhei até uma outra quadra para esperar de novo por um ônibus. Adivinha quem vi passando ao longe assim que cheguei no outro ponto? Ele mesmo, o 693 Méier x Alvorada, provavelmente dando uma gargalhada gostosa e me chamando de otário.

Depois de um tempo, contei essa história para a amiga que divide a casa comigo no Engenho Novo.

– Esse ônibus é um inferno mesmo – ela disse. – Você tinha que ter olhado no grupo antes de ir para o ponto.
– Que grupo?
– O grupo, ué. Pra saber onde que o 693 estava.
– Do que você está falando?
– Felipe, o grupo de quem pega o 693. Todos os passageiros e tal.

Foi aí que fui apresentado ao conceito de grupo do WhatsApp do ônibus. Isso mesmo que você acabou de ler. Acho que todo mundo faz parte de um grupo da família, dos amigos e do trabalho, mas fiquei bastante intrigado com esse novo tipo. Sim, era exatamente isso: um grupo com todas as pessoas que pegam o 693, em todos os horários, incluindo alguns motoristas e cobradores.

A utilidade do grupo, minha amiga Lourrane me explicou, são na verdade várias: 1) os usuários perguntam onde o ônibus está e quem está nele responde – mandam localização e dá até para se programar antes de sair de casa, 2) os passageiros informam se o ônibus está cheio, se tem lugar pra sentar, quem é o motorista, 3) pessoas atrasadas podem implorar para o motorista ir mais devagar para dar tempo dela embarcar – às vezes cola pois estamos no Rio de Janeiro, né? Terra onde tudo é possível. E essa é uma função que nenhum aplicativo de mobilidade urbana oferece.

Lourrane me contou que num dia, como eu, ficou mofando no ponto à espera do 693 e, ao reclamar, um homem desconhecido avisou que o ônibus já estava chegando. Ele era vidente? Talvez, mas não por isso. Estava no grupo do 693! Foi assim que ela entrou pra família do ônibus e nunca mais perdeu tempo. É quase como uma sociedade secreta, só que qualquer um pode entrar. O grande teste de iniciação é você conseguir descobrir que o grupo existe.

Não aguentei e tive que comentar com todo mundo. Com minha família, no trabalho, na internet, falei para os meus outros amigos e, para minha surpresa, não foi novidade para muita gente. Aparentemente, grupos de ônibus no Rio não são uma nova tendência, muitos já existem há anos. O mais triste é saber que nunca fui adicionado em um – além do 693, várias outras linhas têm grupos informais operando diariamente.

Uma amiga curitibana me informou que, na capital paranaense, isso jamais aconteceria porque falta o molejo carioca. Mas descobri que o pessoal de outros estados já dá seus passinhos. Não me surpreenderei quando surgir um em Curitiba. As histórias envolvendo grupos são muitas: desde o motorista que para na padaria para os passageiros comprarem pão até festas juninas, chás de bebês e outras comemorações organizadas pelos membros.

Parece que os grupos de WhatsApp de ônibus vieram para ficar e, quando você menos suspeita, a condução que você pega todo dia tem um e você está por fora. É complicado pensar que as pessoas precisam se virar para facilitar a experiência de pegar ônibus – algo corriqueiro que deveria funcionar bem, mas que pode se tornar um transtorno.

Atrasos, vias precárias, sucateamento dos veículos, superlotação e falta de segurança são problemas que deveriam ter mais atenção do poder público, mas que infelizmente acabam sobrando para os cidadãos comuns. A sorte do brasileiro é que ele sabe se adaptar. Para os cariocas, isso é uma necessidade.

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