Pequeno diálogo entre o cego e seu cão

Por Désceo Machado, para Desacato.info.

“- Au, au”, latiu o ofegante cachorrinho. O homem cego com quem vivia chamou: “- Bilu, venha cá rapaz!” E, assim, ouviu-se as unhas nas lajotas do casebre, o homem estendeu a mão, sentiu o pelo e logo recolheu da boca do animal uma e outra penas para deduzir, com razão, que Bilu havia atacado a galinha poedeira. “- Mas como você me faz isso Bilu?” O homem desligou o rádio, recolheu a bengala e dirigiu-se até o pequeno terreiro, cercado com taquaras rachadas. A dois passos da porta deu com a galinha morta, a última poedeira.

“- Miserável, esse cachorro miserável. Miserável, eu e esse cachorro, agora sem meu ovo diário. Ele, que muitas vezes comia as claras, matou minha galinha pra lamber um pouco de sangue. Cachorro miserável.” O homem revoltado zuniu a bengala em direção onde pensava estar o cachorro, mas errou o alvo. Bilu sentiu o perigo e fugiu.

Tempos depois Bilu voltou. Latiu estridente no portão e enfiou-se sem cerimônias pela cerca apodrecida. Entrou pela porta dos fundos e viu seu antigo dono estirado no sofá. Abanando o rabo, balançou a mão do cego com seu focinho molhado. O homem ajeitou-se e ouviu atônito a fala do cachorro: “- Salve meu mestre, aqui estou eu de volta. Você me expulsou porque matei sua galinha, o mundo é cão, no mau tempo que passei levei pontapés e pedradas, agora estou aqui para garantir meu último prato.” A voz era de Bilu, uma voz animalesca, o bicho havia crescido. Segurando com firmes carícias sua bengala, o velho sentia a intenção do animal.

“- Por que você matou a poedeira, Bilu? Tanto fiz por ti.” Entre salivações e cliques de dentes o cego ouviu: “- Não pude e não posso contra minha natureza. Há em mim muito do lobo, preciso matar minha sede.” Em dois movimentos o homem estava no chão, pescoço quebrado e o cachorro lambendo com cuidado o sangue que escorria. Foi-se com o olhar canino, quase humano, arrependido, por entre a velha cerca de taquaras.

Imagem: reprodução da internet

Thiago de Castilho SoaresDésceo Machado é repórter em Florianópolis.

 

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