Pé na estrada

Foto: Juliana Kroeger.

 

Por Fernando Evangelista.

Minha vó Rosa, de 100 anos, costuma dizer que “tudo tem dois lados, um bom e um ruim, com exceção dos discos do Cauby Peixoto, que só têm lado ruim”. Para mim, qualidades e defeitos se misturam e se completam, mas não discuto com a centenária porque ela sabe das coisas e não gosta de ser contrariada.

Domingo passado, durante um almoço de família, ela retomou o argumento: “Viajar, por exemplo, é uma mistura de algumas coisas chatas com uma porção de outras coisas boas”. Ela tem razão.

Para um viajante-mochileiro, a parte ruim de uma viagem é caminhar à procura do hotel ou da estação de trem com uma tralha de roupas nas costas, um mapa numa das mãos e na outra uma sacola com livros e tênis que não couberam onde deveriam caber.

A parte ruim é quando você coloca, sem se dar conta, o mapa de ponta-cabeça e entra na rua errada, no desvio errado, no fim do mundo errado. É ruim pegar o trem na hora do rush e ir esbarrando com a mochila na cara dos nativos e ouvir aquele rosnar indignado e ameaçador.

A parte ruim é sair da estação à procura de um ônibus que não está lá e, quando está, descobrir que ele não vai para o hotel em que você fez a reserva. É ruim quando você, viajante autointitulado experiente, é obrigado a se render a um taxista desonesto e, no fim das contas e da corrida, pagar cinco vezes mais do que deveria.

Obviamente, como lembra a minha vó, também há muitas coisas boas. Talvez a melhor delas seja a “desabituação do olhar”. A viagem estimula a nossa capacidade, abafada pela rotina, de observar o mundo, com curiosidade e encanto, como fazem as crianças. Viajar é redescobrir a percepção.

Com esse olhar, pouco importa o destino ou a razão da viagem. Na verdade, para o viajante-mochileiro, caminho e destino são uma coisa só. Viajar é aceitar o improviso, os atalhos e a escuridão.

Todos os caminhos são válidos para um viajante e cada um deve descobrir o seu. O meu caminho ideal tem mais verde e menos concreto, mais fantasia e menos protocolos, mais praças e menos muros, muitas sorveterias e poucas academias de ginástica. Viajar é se surpreender.

Neste caminho ideal, quando se está com fome, há sempre perto um restaurante caseiro, sem filas e sem televisão. E nesse restaurante passado de pai para filho durante muitas gerações, você pede um prato típico e fica tipicamente boquiaberto com o sabor, com aquela dorzinha no lado da boca, a dorzinha de quem não acredita no que prova. Viajar é reinventar os sabores.

Neste caminho ideal, não há shoppings nem parlamentos, ninguém usa terno ou gravata, quase todos andam de sandálias ou descalços, não há ostentação nem celebridades porque todos sabem que posses e poses são inúteis e passageiras. Viajar é alimentar a alma, se alma existir.

Neste caminho ideal, os homens tiram os chapéus de aba larga para cumprimentar as senhoras e as senhoras aceitam o tempo como uma bênção e não como uma ameaça. Viajar é passear no tempo.

Neste caminho ideal, mulheres e homens moram em casas com um terreno espaçoso, onde se plantam árvores e se cultivam ervas sagradas. Neste caminho ideal, caminho cheio de bichos, não há gaiolas, nem correntes, nem chicotes. Viajar é entregar-se à liberdade de escolha e de consciência.

Neste caminho ideal, a vida não passa nem lenta, nem corrida, passa por passar, assim como o viajante, que pertence a todos e a nenhum lugar. Viajar, como disse minha vó certa vez, “é uma possibilidade para o infinito”.

Depois dos primeiros dias, o viajante descobre que mapas, bússolas e sacolas de roupas são inúteis. E então ele joga tudo fora, fica completamente leve e vazio, para que o mundo o preencha outra vez.

Fernando Evangelista é jornalista, diretor da Doc Dois Filmes. Mantém a coluna Revoltas Cotidianas, publicada toda terça-feira.

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