Patrimônio de Treze Tílias ameaçado

Publicado em: 25/03/2011 às 23:18
Patrimônio de Treze Tílias ameaçado

Por Nilson Fraga.

VIAGEM PELO CONTESTADO 2011: PATRIMÔNIO EM TREZE TÍLIAS, SC.

Viajo pela Região do Contestado com meus alunos e com professores do estado do Paraná, desde 2001, mas sempre somos surpreendidos como algo novo e que merece destaque. É caso do nosso segundo dia de viagem, quando chegamos para pernoitar em Treze Tílias.

Essa viagem, de marco de 2011, foi feita com alunos de Mestrado e Doutorado do Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal do Paraná. Foram três dias desbravando aquelas terras seculares da maior guerra camponesa brasileira, entre os dias 18 e 20 de março de 2011, que passaram por um processo de formação diferente depois da Guerra, muitos lugares foram reocupados por colonos vindos de vários pontos da Europa e mesmo do interior Brasil.

Estavam comigo, no ônibus, 33 pessoas, entre homens e mulheres, estudantes da mais importante universidade do Paraná. Sendo alunos da pós-graduação, muitos são originários de diversos estados brasileiros, como Amazonas, Rondônia, São Paulo, Paraíba, Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e de outros lugares. Para a maioria deles, a viagem de estudos seria o primeiro contato com a Região do Contestado e as cidades que estão nesse trajeto de pesquisas de campo. Alguns nunca haviam estado em Treze Tílias, por exemplo.

Chegamos a Treze Tílias a noite, quando descíamos uma serrinha, vindo de Salto Veloso, então nos deparamos com uma bucólica cidadezinha localizada entre morros. Percorremos a cidade, cheia de prédios que buscam demonstrar a colonização austríaca ocorrida ali.

Quando chegamos à praça da igreja matriz, numa das esquinas, avistamos um belo edifício feito em madeira, com três pavimentos na parte frontal, com sacadas pintadas em marrom, sendo que o restante do edifício era branco. Nas mais de 20 janelas, havia jardineis com flores. Sem dúvidas, foi esse prédio que mais nos chamou a atenção quando lá chegamos.

Mas não tivemos tempo de parar para melhor avaliar a beleza do prédio.

Isso ficaria para o dia seguinte, quando ainda estaríamos por Treze Tílias.

Naquela mesma noite, ficamos sabendo que o dito edifício que nos chamou a atenção na chegada, era, na realidade, o famoso Hotel Áustria. Mas, ao mesmo tempo, ficamos sabendo de uma notícia triste, a de que o edifício do Hotel Áustria seria demolido para a construção de um prédio novo, mais moderno.

Ficamos arrasados: como poderia a tão famosa cidade catarinense de Treze Tílias demolir um monumento arquitetônico daqueles?

Durante o jantar, naquela noite, depois de muita discussão, resolvemos que na manhã seguinte, portanto no dia 20 de março de 2011, iríamos dar um abraço simbólico no Hotel Áustria, para depois enviar nossa foto ao poder público local, afinal, o Hotel Áustria, teria sido o primeiro empreendimento hoteleiro de Treze Tílias e descobrimos isso na internet, com uma foto histórica do hotel, num cartão postal do início dos anos de 1970.

Portanto, nenhum outro hotel na cidade possui maior significado e necessidade de ser preservado enquanto patrimônio histórico e arquitetônico.

Este edifício, que abraçamos simbolicamente, é a alma da cidade turística de Treze Tílias na atualidade.

Assim, acreditamos que Treze Tílias não pode destruir este magnífico edifício.

O Hotel Áustria é a alma de Treze Tílias e da colonização européia catarinense e brasileira.

Pedimos para a sociedade civil organizada, os representantes políticos regionais, estaduais e nacionais que impeçam a demolição do Hotel Áustria.

Treze Tílias, Santa Catarina e o Brasil não merecem isso!

Há outros lugares na cidade para a construção de novos hotéis.

Salvem o Hotel Áustria!

 

Nelson Fraga:

Geógrafo

Professor do Curso de Mestrado e Doutorado em Geografia da UFPR

Mestre em Geografia

Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento

www.nilsonfraga.com.br

[email protected]

 

6 Comentários para "Patrimônio de Treze Tílias ameaçado"

  1. Nilson Cesar Fraga   11/02/2012 at 13:08

    CARNAVAL DE FLORIANÓPOLIS: 100 ANOS DO CONTESTADO
    [email protected],
    no meu site postei maiores detalhes sobre o desfile e o tema deste Carnaval da Protegidos da Princesa e do Contestado! 100 ANOS DA INSURREIÇÃO XUCRA DO CONTESTADO.
    Desfilarei no carro alegórico “Oeste e Esperança”.
    Maiores informações:
    http://www.nilsonfraga.com.br/post.php?POS_RowID=69
    Continuamos na Luta pelo Patrimônio Material e Imaterial dos Caboclos e Caboclas do Contestado.

    Abraços!

    Responder
  2. Flavio Cesar   17/05/2011 at 14:00

    Hoje, 17 de maio de 2011, iniciou a demolição do prédio onde se instalava o antigo Hotel Áustria. Começaram pelos telhados. É dia de tristeza para à cidade, para o Estado, para o Brasil. Mais uma perda irreparável para o Patrimônio Público da Humanidade vem ao chão. É o começo do fim para o turismo trezetiliense.

    Responder
  3. Flavio Cesar   30/03/2011 at 08:06

    Parabéns Professor Nilson Fraga, pela defesa veemente que o senhor manifestou publicamente em defesa do patrimônio histórico não só da cidade de Treze Tílias, como também do Estado de Santa Catarina. Um povo que preserva o seu patrimônio histórico ensina às novas gerações a não depredá-lo. Parabéns ao Desacato pela matéria aqui apresentada.

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  4. Raul Longo   28/03/2011 at 15:39

    TURISMO DE SANTA CATARINA COM O PÉ NA AREIA MOVEDIÇA

    Por ocasião da Operação Moeda Verde que em 2007 levou à cadeia o Presidente da Câmara e o Secretário de Turismo da capital de Santa Catarina, um visivelmente alterado Luís Henrique da Silveira, hoje Senador mas então governador, declarou em entrevista à Vânio Bossie que as suspensões de empreendimentos turísticos por ele autorizados em praias de Florianópolis era uma decisão atrabiliária, pois “Meu Deus do céu! Turista quer mesmo é descer do hotel e pôr os pés na areia”.

    De fato, há turistas nesse estilo. O cara sai porta afora da recepção do hotel, senta-se na primeira mesa que encontra pela frente e ali passa o restante da manhã e boa parte da tarde tomando daiquiri, uísque ou o conhaque de preferência do ex-governador e, lá pelas tantas, chama dois garçons que o entregam aos funcionários da recepção para que o devolvam ao quarto do hotel. Algumas semanas depois, já de volta às suas origens, não conseguirá lembrar o nome do país onde esteve, tampouco qual o idioma ali falado, mas talvez se lembre do nome do garçom.

    “- President! Oh no! There no have Silva president. Silva is a good boy give me drink all day!”

    Conta-se, por exemplo, que certa vez embarcaram o escritor Truman Capote já embriagado lá em Paris e durante o voo bebeu muito mais até pousar, desacordado, no Aeroporto de Congonhas. O enfiaram numa limusine que o conduziu ao Hotel Othon na Rua Libero Badaró, centro de São Paulo, e da recepção o transladaram direto para a cama da suíte já reservada. Dia seguinte Capote acordou, olhou para os lados, entendeu estar num quarto de hotel, levantou o telefone do gancho e respondeu ao alô do outro lado da linha: “- My breakfast, plus!”

    Ao “- Yes, mister!” desligou o telefone, jogou as cobertas pro lado, pisou no macio tapete do hotel, espreguiçou-se e, num gesto brusco, correu as cortinas lado a lado. Dando de cara com a Praça do Patriarca e aquele monte de prédios feios e cinzas por trás, indignou-se: “- Who brought me to Chicago? I don’t like Chicago!”

    Chicago ou São Paulo? Cubatão ou Anitapólis? Florianópolis ou um dos paraísos turísticos do Caribe entre os citados pelo ex-governador ao Vânio Bossie naquela transmissão da TV Barriga Verde?

    Ou a Treze Tílias do Hotel Aústria comentado aí pelo Prof. Nilson Fraga como mais um antentado ao bom senso, a ser praticado em nosso estado.

    No final do ano passado outro professor, de oceanografia, numa reunião acadêmica entre cientistas que na UFSC discutiam os descalabros a serem promovidos por empreendimentos alheios à nossa cultura e nossa história, baseado em material de divulgação dos projetos do governo de LHS, desenvolveu um estudo da abrangência dos impactos dos empreendimentos anunciados como grandes conquistas daquela adiministração para o futuro da região litorânea do estado. O oceanógrafo da Univale demonstrou através de cálculos insofismáveis e por gráficos de projeções inquestionáveis que, em se concretizando todos aqueles empreendimentos já negociados pelo hoje senador eleito, antes do término de seu mandato parlamentar estaremos todos afundados numa única cloaca, desde Balneário Camboriú até Laguna.

    Por falar em Laguna, e o Farol de Santa Marta? Continua abandonado à erosão do descaso?

    Ao turista de Luís Henrique para que serve um farol? Se der para por o pé na areia já saindo do hotel, que o tragam com pouco gelo!

    Arquitetura típica, seja da Aústria ou dos Açores, é a mesma coisa! Afinal, barril de chopp combina até com mansão norte-americana do Jurerê e pra tomar cerveja não é preciso se sentir na Germânia.

    Não é pelo conhaque do Aznar, amigo de Bornhausen, que LHS vai se meter a toureiro! Verdade que conhaque e praia não combinam muito, tampouco Treze Tílias tem alguma coisa a ver com tudo isso, mas o que interessa é o negócio! E o turismo etílico é um grande negócio, ao ver do ex-governador, correligionário do atual.

    Acontece que nem todos são como os turistas de LHS que os Catarinenses elegeram ao Senado.

    Um ex-jogador da seleção Argentina de rugby, para meu espanto, me garantiu que nunca mais voltaria a um dos paraísos do Caribe balbuciados naquele espantoso atropelo de palavras do monólogo ao Vânio em 2007. Segundo o argentino, nesses paraísos tudo o que se tem é a faixa de areia e mar em frente ao hotel, pois se sair um metro pro lado ninguém se responsabiliza por sua vida. E tamanha a miséria da mão de obra não aproveitada nos hotéis e casinos que não há cultura, monumentos históricos, artesanato, música, coisa alguma além da areia onde se põe os pés.

    Daí só resta mesmo se afundar numa bebedeira movediça, daquelas que faz o sujeito patinar num único falho raciocínio, sem o menor senso de ridículo e repetindo dezenas de vezes as mesmas palavras. Como por exemplo: “Meus Deus do Céu! Turista quer mesmo descer do hotel e por os pés na areia”.

    E assim prosseguiu aquela notável entrevista como o areal vai se estendo Santa Catarina adentro, até a Treze Tílias comentada aí pelo Professor Nilson Fraga da Universidade Federal do Paraná.

    Como se vê pelo link, nosso estado inteiro vem sendo engolido pelas areias do deserto de bom senso.

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  5. Nilson Cesar Fraga   26/03/2011 at 08:54

    Muito obrigado por divulgar, no Desacato, essa singela mensagem que visa salvar um patrimônio catarinense ameaçado.

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  6. Márcia   26/03/2011 at 08:51

    Vamos salvar ! Patrimônio Nosso …

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