Partiu nosso amigo Totori, o homem dos passarinhos

Geraldo Alkmin, ou Totori, como foi nomeado pelos Yanomami, equilibrava a utopia e o amor incondicional pela causa indígena com sua enorme capacidade de transmutar dor e sofrimento em esperança

À direita, Geraldo – ou Totori – junto a amigos e amigas, em frente à casa que servia como escola e na qual ele dava aulas aos indígenas, na Missão Xitei, interior da TI Yanomami, em 2005. Foto: Adriana Huber/Cimi Norte 1
Por Renato Santana, da Assessoria de Comunicação do Cimi. 

Quando ainda era da equipe do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) entre os Yanomami, nas missões Catrimani e Xitei, Geraldo Augusto Alkmin ganhou um nome do povo: Totori. Aquele jeito mineiro de quem tá sempre com saudade, a fala pausada e o olhar longo, que fitava por trás das grossas lentes de seus óculos, serviram de inspiração aos indígenas para ver em Geraldinho, como a gente o chamava, um jabuti, significado em português da palavra Yanomami. O que parece uma típica galhofa afetuosa dos indígenas com seus aliados mais próximos guarda a observação principal deles: o jabuti carrega grande sabedoria.

Totori, como ele sempre contava, saiu de Roraima apenas para levar um cheque à equipe do Cimi em Campo Grande (MS) e junto aos Guarani Kaiowá e Terena ficou até a morte prematura, aos 56 anos, nesta quinta-feira (17). A maior parte do tempo Totori viveu em Dourados, trabalhando de forma mais constante no tekoha – lugar onde se é – Panambizinho. Para lá ele se dirigia todas as terças-feiras, pelas manhãs, com uma bicicleta barra forte, num percurso de mais de 20 quilômetros, onde desenvolvia trabalhos variados com os Guarani Kaiowá, sobretudo relacionados ao cultivo de alimentos e floresta. Atuava também na educação escolar indígena diferenciada – desde os Yanomami. Deu aulas para os professores e professoras indígenas Guarani Kaiowá e Terena, ajudando na formação de um corpo docente que hoje já está na pós-graduação de universidades.

Todas as manhãs, em Dourados, ele punha a mesa aos visitantes da casa onde morava a equipe do Cimi. Comprava pães, margarina, mel (que ele dizia partilhar com as formigas, por mais que evitasse), cueca virada (uma espécie de pão doce), frutas e os pães de queijo que, como bom mineiro de Itajubá, não vivia sem. Fazia uma garrafa de café e preparava o mate. Aos poucos chegavam os Guarani Kaiowá, missionários e missionárias do Cimi e quem mais quisesse aparecer para comer, tomar mate e prosear.

Os anciãos Guarani Kaiowá eram os mais assíduos frequentadores deste banquete platônico. Totori mantinha esse hábito, mesmo na cidade, mas que faz referência à vida na aldeia: portas abertas, partilha e prosa. Quem morou com Totori atesta: isso acontecia todas as manhãs, um ritual programado, uma prática humana e missionária singela, mas definitiva na relação com os povos indígenas. Por esses tempos estava em Campo Grande. Quando faltavam passarinhos na janela, colocava um cd com cantos de pássaros para ouvir.

Nosso amigo Totori era também professor, formado em filosofia, e costumava ler o canto dos pássaros. Os ouvia e dali parecia tirar a leveza para encarar o dia a dia de um estado que trata de forma cruel os povos indígenas que nele habitam. Tal realidade gestou um sofrimento particular em Totori, mesmo não perceptível facilmente, dada a leveza de seu estado de espírito. A isso estão submetidos os missionários e missionárias do Cimi porque convivem intimamente, nas regiões, com os dramas destes povos. Totori vivenciou dezenas de mortes, muitas delas de indígenas com quem convivia e mantinha profunda amizade. Testemunhou e combateu a fome entre os Guarani Kaiowá. Em Dourados, esteve sempre submetido a todo tipo de ameaça pelo apoio incondicional ao retorno dos Guarani Kaiowá aos seus territórios tradicionais.

Totori tinha um universo interior denso e o que se via a olho nu eram estrelas intensamente brilhantes de alegria

Boneco feito por indígenas para representar Geraldo: o bigode - segundo ele, homenagem a Chico Mendes - e a disposição para rir de si eram traços inconfundíveis de sua personalidade. Foto: arquivo pessoal

Boneco feito por indígenas para representar Geraldo: o bigode – segundo ele, homenagem a Chico Mendes – e a disposição para rir de si eram traços inconfundíveis de sua personalidade. Foto: arquivo pessoal

Essa leveza do Totori não era do tipo que se vende hoje por gurus de redes sociais ou por ecologistas que fazem jardinagem, como dizia Chico Mendes, para quem Totori dedicava seu bigode. A leveza do Totori era filosófica e simples, assentada na melancolia, resultado de um amor muito profundo pela causa que defendia e por tudo o que passou na vida. Totori tinha um universo interior denso e o que se via a olho nu eram estrelas intensamente brilhantes de alegria. Era enorme a capacidade dele de transmutar dor e sofrimento em esperança. Animava os ambientes, sorria e brincava com toda a gente. Contava piadas de mineiro e ria de si mesmo. Sua alma levitava, confrontando a gravidade do corpo, a cada gargalhada rasgada. Era titereiro: dava oficinas de como fazer e manipular bonecos, inclusive para os indígenas. Ensinou o ofício para não indígenas também.

Totori, com essa sabedoria, resiliência e alegria, foi fundamental para que o trabalho do Cimi no Mato Grosso do Sul voltasse a ser forte, nos primeiros anos deste início de século. Para haver mestres como Pedro Casaldáliga e Tomás Balduíno, é preciso ter Geraldos. Literalmente ele capinou uma região que até hoje impõe desafios extremos a qualquer indigenista que lá se instale para trabalhar com os Guarani Kaiowá. Dourados é um lugar onde você não pode dizer o que faz em qualquer lugar. Nessa condição o Totori viveu por quase duas décadas, discreto e intenso ao o que se propunha. Vaidade é uma característica que ele não fazia questão. Um verdadeiro jabuti: sábio, dedicado, devagar e avante, de grande resistência, sem nunca deixar de viver um dia de cada vez. No lugar em que muitos não aguentaram ficar, Totori permanece.

Geraldo, em foto recente no Mato Grosso do Sul. Foto: Cimi Regional Mato Grosso do Sul

Geraldo, em foto recente no Mato Grosso do Sul. Foto: Cimi Regional Mato Grosso do Sul

Sua congregação, a Sagrado Coração de Maria, o havia enviado aos Yanomami para trabalhar no Cimi e na Missão Catrimani, e depois o viu partir (para levar um cheque, como ele enfatizava aos risos) ao Mato Grosso do Sul. Recentemente Totori era coordenador do escritório regional do Cimi, em Campo Grande. Costumava nos convidar, em tom de galhofa, ao Mato Grosso do Sul para tirar umas férias: “olha, aqui é uma paz. Tudo sempre tranquilo, nunca tem problema. Por isso os Guarani não saem daqui”. Nas videoconferências do Conselho Nacional do Cimi, motivadas pela pandemia, Totori colocava a todos e todas para ouvir os sons dos passarinhos. Um convite à leitura e à contemplação do fundamental.

Você fará uma falta tremenda, Totori. Trazia consigo a síntese do Cimi, a abnegação, o amor incondicional pelos povos indígenas e por suas causas, a utopia de ver estes povos vivendo de maneira farta e livre nas terras pelas quais lutam, os Guarani Kaiowá libertos da fome, da violência, do desterro. Da terra Yanomami livre dos invasores, dos garimpos e do teu sonho de um dia poder voltar até ela, para talvez uma despedida dos teus amigos que lá ficaram te esperando. Num ano de tantas perdas pela covid-19, de tantos mortos, de tantos indígenas que não resistiram, vítimas do descaso governamental, você partir, Totori, é como se fosse um último e definitivo gesto de solidariedade, de apoio extremo a uma causa invencível, como dizia Pedro Casaldáliga, que é a causa dos povos indígenas. Vá com teus pássaros, voa pra luz.

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