Pandemia de coronavírus: e os artistas, como ficam?

Coluna trata a respeito do fechamento dos teatros e as saídas que artistas têm buscado para não fechar as portas de vez durante a pandemia de Coronavírus.

Foto: Festival Música em casa /Reprodução “A Escotilha”

Por. Bruno Zambelli

Os tempos andam estranhos. Lá fora, nas ruas vazias, o vento penteia a juba das palmeiras imperiais da praça, uiva se espremendo pelas frestas da janela e se perde no meio do nada que tomou conta da cidade. Tudo está em desordem e tudo está fechado: bares, escolas, comércios, teatros. O futuro é incerto mas promete ser duro. Até quando a loucura dura?  Ninguém sabe. Certo é que as dificuldades estão apenas começando e que a única forma de enfrentarmos o troço dá-se de maneira exclusivamente coletiva.

Irresponsavelmente, alguns diriam até que de maneira criminosa, é possível pedir uma licença poética a Rimbaud e transformar um de seus versos mais conhecidos: eu é, de fato, o outro, e o outro talvez seja a saída, hoje e sempre. Precisamos acreditar mais no outro, confiar mais no outro, cuidar mais do outro; e isso mais do que nunca. Por isso a palavra união abriu a reunião virtual de amigos, artistas profissionais e amadores que tentam, no olho do furacão, buscar respostas e cultivar laços para enfrentar a borrasca que cavalga na ventania que se aproxima.

Muito foi dito por todos. Apesar do medo do vírus e, principalmente, do assombro econômico, os artistas estão dispostos a construir pontes, mesmo que virtualmente, ao invés de ficarem parados, estáticos, entrincheirados numa cômoda condição de vítima. Sim, por enquanto a única certeza que temos é a de que estamos jogados à nossa própria sorte. É evidente que todos fomos pegos de surpresa e que as medidas ainda estão sendo tomadas, mas os presentes à reunião, todos eles, não têm dúvidas de que é absurdo, quase ingênuo, esperar alguma medida do atual governo, inimigo declarado dos artistas.

O pessimismo é compreensível em se tratando do governo Bolsonaro, não apenas omisso mas também criminoso em relação às artes. No entanto, um governo não pode se dar ao criminoso luxo da escolha. É preciso pensar em todos e não apenas em momentos críticos, por isso uma pressão dos trabalhadores da cultura se faz necessária desde já, aliada e apoiada, evidentemente, por uma pressão popular. Direitos, na maioria das vezes, são conquistados de punhos cerrados. Uma das questões que mais tem causado “vucovuco” e tremor em todas as rodas surge da seguinte dúvida: o que será de nossos espaços?

Existem milhares de espaços culturais Brasil afora. A maioria deles trava uma batalha diária e inglória para manter as portas abertas e as contas em dia. Quase sempre é impossível. Na cidade de São Paulo, por exemplo, a especulação imobiliária estrangula teatros e casas de cultura. É barra! Um espaço para criar é o sonho de dez entre dez artistas, no entanto a maioria deles morrerá sem ter a oportunidade de conseguir esse espaço e muitos dos que conseguem percebem rapidamente que esse sonho tem também um lado obscuro que pode o transformar em pesadelo.

Se o fantasma da falta de grana e a impossibilidade de trabalhar paralisa, também podem servir para que a gente comece a se mexer em direção a um caminho que leve, pasmem (!!!!), mais uma vez ao outro.

Administrar um espaço artístico no Brasil é enfrentar no dente uma alcateia de leões famintos, com água na boca e as garras a mostra. Por isso, uma grande preocupação, e creio que essa talvez tenha sido a questão mais discutida na reunião, é a manutenção desses espaços nesse período crítico, evitando o fechamento em massa deles. Foram muitas ideias. Algumas mostraram-se tão bonitas quanto utópicas e, como sabemos, em momentos de crise é preciso ter os pés no chão. Acredito, porém, que algumas ideias me soaram excelentes e práticas. A isenção de tributos é uma delas. Exigir que, ao menos por ora, estejam eles livres dessa contribuição é exigir o direito de existência desses focos de resistência.

A solidariedade também é levada em conta e muitos dos presentes sugeriram que abram-se contas para doação, no que foram condenados por outros que se negam a, em suas palavras, “mendigar publicamente para trabalhar”. Se por um lado sabemos que é sempre possível contar com a ajuda e compreensão do público e do povo, por outro sabemos que um trabalhador da cultura merece viver de seus ganhos e não de caridade. A internet também é uma grande aliada nesse momento e proporciona algumas soluções das mais simples: bingos, rifas, sorteios; tudo on-line: da escolha dos nomes ao pagamento. A verdade é que o famoso “se vira nos trinta” deve virar rotina pra essa gente de teatro nos próximos tempos e é preciso desde já defender nossos espaços com unhas e dentes. Evidentemente que propostas devem ser feitas oficialmente, por representantes da classe artística, através de seus mecanismos, mas somos nós os representados e também é nossa a voz que ecoa quando dizemos juntos: vamos defender nossos teatros e casas de cultura a todo custo.

Se esse trágico estado em que estamos agora nos ensina alguma coisa logo de cara é que precisamos estar juntos e organizados sempre. Devemos sempre pensar de maneira coletiva, e já não fazíamos isso há muito tempo. Precisamos defendermos uns aos outros ou não teremos quem nos defenda. E, acima de tudo, é preciso buscar os meios legais e justos de resistir. O caos e as incertezas demonstram que temos que repensar nossos sindicatos, refundar nossos direitos e admitirmos, de uma vez por todas, que o artista é um trabalhador como outro qualquer e não um ser iluminado disposto a sacrifícios e abdicações para elevar a áurea humana. Se o fantasma da falta de grana e a impossibilidade de trabalhar paralisa, também podem servir para que a gente comece a se mexer em direção a um caminho que leve, pasmem (!!!!), mais uma vez ao outro.

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