Os embalos de sábado de manhã

 Por Mara Narciso*.

            Como um forte estrondo e poucos segundos de tremor e terror podem mudar a vida de uma cidade? Pessoas que dormiam nuas estão vestindo-se antes de se recolher. Os quartos antes trancados agora passam a noite abertos. Numa imaginária rota de fuga, muita gente altera seus hábitos. Um bater de portas de carro, meninos chutando a bola de futebol contra o muro, um retumbar de carro de som, um caminhão caçamba que cai num buraco ou até um coro de cães latindo serve de alerta, afinal os cães ouvem um som que gente não escuta, e pressentem que algo irá ocorrer. Galinhas enlouquecidas ficaram gritando durante vários minutos depois do acontecido. Surpreende por ser um animal tido como pouco inteligente.

            Amamos essa terra com uma força descomunal, mas não esperávamos uma recíproca tão verdadeira e ao contrário. A terra não sabe que existe, e nós, os 361 mil insignificantes habitantes, contados em 2010, sabemos dela e fomos sacudidos feito pulgas. Felizes foram os tempos em que os compêndios diziam que não existiam vulcões, ciclones e terremotos no Brasil. Essa verdade mudou. O epicentro dos sismos está a 16 km de Montes Claros, a 418 km de Belo Horizonte.

Sábado, dia 19 de maio, lua crescente, às 10h43min aconteceu um estrondo refletindo o desprendimento de uma energia de muitos megatons vindo de dentro da terra. O chão rugiu e fugiu levemente dos pés, as janelas trepidaram freneticamente como se um helicóptero passasse sobre a casa, o lustre se desprendeu do teto e se espatifou. As crianças da casa vizinha berraram aterrorizadas. O sismo durou poucos segundos. Corremos para o jardim, e quando entendemos ser um tremor de terra, já tinha acabado. Foi o mais forte terremoto até aqui registrado, alcançando 4,5 pontos na escala Richter.

Casas apresentaram rachaduras, telhados de varandas desabaram, portas de guarda-roupas se abriram, panelas caíram de armários, garrafas pularam das prateleiras, quadros saltaram das paredes, televisores caíram, vidraças se romperam, e outras avarias. Poucos indivíduos tiveram ferimentos leves. Estamos temerosos, pois, de acordo com a Defesa Civil, seis casas foram condenadas e duas interditadas, sendo que 18 pessoas estão desabrigadas e 10 desalojadas. Se vivêssemos no tempo das vitrolas, a agulha teria deslizado sobre o disco.

No centro da cidade, no Shopping Popular, as câmeras de segurança filmaram correria imediata. Lembrava ratos fugindo de um navio indo a pique. Havia cerca de 1500 pessoas no local. Durante o barulho do supertrovão, as pessoas correram para a rua, e outros locais também registraram a mesma atitude. Pessoas tentavam explicar o barulho como batida de trens, de carros ou alguma outra situação de estrondo.

Têm acontecido abalos sísmicos por aqui há algum tempo, estando registrados 15 tremores desde 2008, variando entre dois e três graus. Como curiosidade, a magnitude de um terremoto é uma escala logarítmica, e para cada ponto existe um multiplicador de 10, ou seja, um terremoto de 8.0 é dez vezes mais forte do que um de 7.0. Quando a minha mãe era jovem, aconteceu num município vizinho, atual Alto Belo, um evento parecido ao nosso de agora. Em 9 de dezembro de 2007, no distrito de Caraíbas no município de Itacarambi, norte de Minas, morreu Jessequele Oliveira Silva, de 5 anos, vítima da queda da sua casa após um terremoto de 4.9 graus.

A geofísica e presidente-interina do Observatório Sismológico da Universidade de Brasília Mônica Von Huelsen falou que a cidade de Montes Claros está numa área de atividade sismológica devido a uma falha geológica na região, e novos tremores acontecerão. Afirmou que esperava que os próximos terremotos fossem menores. Desejar tremores mais fracos ou nenhum a população leiga também está querendo, o que não deveria ser prerrogativa de especialista. Depois do maior, já aconteceram outros cinco tremores. O último foi no dia 22 de maio.

Pouca graça e muito medo percorrem a cidade. Quem perdeu o terremoto de ontem, poderá pegar o próximo (?). Requentar tema sombrio deixa no ar um gosto amargo de café velho. O chacoalhão, como meu filho denominou o tremor, traz insegurança, e está vívido na memória de cada um. Montes Claros, o antigo Arraial das Formigas está neste solo gentil há cerca de 250 anos. É preciso mudar conceitos, afinal o que significa “firme como uma rocha?”

*Mara Narciso é médica e jornalista diplomada – 25 de maio de 2012

Imagem tomada de jornal.us

 

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