O retorno do Herói e seu novo (velho) amigo

Foto: Pexels

Por Guigo Ribeiro, para Desacato.info. 

Havia uma mosca voando num monte de bosta. Solitária, se sentia feliz com a imensa oportunidade de ter aquele monte de bosta só pra ela. Voava de um lado pro outro. Pousava, vazia festa. Era feliz com tudo aquilo só pra ela. Até porque a bosta não era pouca. Era muita. Num futuro próximo haverá carniça também, mas pelo agora se deleitava com a entrada, o prato do início. Bosta! Bosta! Bosta! A bosta que era aquela corja de canalhas trabalhando arduamente pra intensificar os projetos em interesse próprio. A mosca não ligava pra isso. Era feliz com o tanto disponível só pra ela. Rompendo com a alegria, ouviu um barulho e precisou se esconder do produto químico que a mataria. Se prostrou embaixo de uma mesa e ouviu atentamente o papo. Era o Herói, aquele que salvava domingos, conversando com o então presidente eleito, aqui denominado Fake Man. A mosca tinha certa dificuldade em entende-lo visto o quão tenebrosa era sua dicção. Mas fez grande esforço.

Fake Man – … vai ser genial, Herói! Maravilhoso! Vamos fazer uma oração?

Herói – Calma! Depois a gente reza! Agora estou com fome. Você pode não me deixar esquecer de orar em rede nacional pro povo? Assim eles não se ligam que quero que eles se lasquem!

Fake Man – Rapaz… eu mal lembro quem eu sou! Além… claro… de presidente. Presidente, tá ok? Vou pedir pros meninos anotarem!

Herói – Faça isso, presidente! Faça isso! Olha… faz um tempão que tô pra te falar. Me desculpa aquela vez no aeroporto que você me bateu continência e eu saí apressado, tá? As pessoas filmam tudo e viram. Nem sei como não perceberam que estamos juntos faz tempo.

Fake Man – Tá desculpado, Herói! Tá desculpado! O mais importante é tê-lo aqui, comigo. Vem aqui! Quero te falar de uns projetos pro Brasil.

Herói – Deixa eu comer primeiro?

Fake Man – Por favorzinho? Não quero que se sinta pressionado, tá ok? Sabe que estou muito emocionado por estar aqui. Vamos gravar um vídeo dessa emoção? Conseguiremos muitos likes. Eu…

Herói – Conta logo, Fake Man.

Fake Man – Vamos derrotar Cuba! Tramei um plano! Essa guerra acaba agora!

Herói – Guerra? – curioso.

Fake Man – Guerra! Guerra, tá ok? Vamos derrotar eles tirando eles do país. Vamos acabar com o Mais Médicos. Vai ser Menos Médicos (em riso ridículo). Eles vão voltar pra Cuba, não terão o que comer e vão morrer de fome. Quando os médicos morrem, a população não tem com quem cuidar. Assim o país também morre. Morre! Tá ok? O que acha?

Herói – Acho que vai gerar repercussão! Não vai ser bom.

Fake Man – Por que?

Herói – Porque o povo gosta deles. Vamos fazer assim! A gente inventa outro motivo, tá?

Fake Man – Você é maravilhoso, Herói! Sempre melhora minhas ideias!

Herói – Não é difícil… – falando baixinho

Fake Man – O quê? Não ouvi. Tenho dificuldades de escutar.

Herói – É difícil ser melhor que você. Mas tento ajudar!

Fake Man – Maravilhoso! Vem cá! Fiz o projeto dos que quero comigo no governo. Eles seguiram seu exemplo, Herói. Se desculparam e eu desculpei! Vão trabalhar e não vamos mais errar.

Herói – O Senhor é um MESSIAS!

Fake Man – E você meu camisa 10! Escuta…

Neste momento o Herói pegava qualquer coisa da geladeira e comia em pé mesmo. Com o tanto de compromissos e acordos por fazer, era difícil parar. A mosca seguia escutando.

Fake Man – Eu tenho projetos ambiciosos pro Brasil! Só preciso que o Moscão cale a boca. É surpresa! Bicho burro! Ele é aquele cara que chega na festa surpresa falando o sabor do bolo.

Herói – Projetos? Quais? – de boca cheia.

Fake Man – Vamos conversar com empreiteiras, gente das máquinas e vamos separar o Brasil do resto do continente. Amarraremos as praias e navios fortes e vamos colar o país na parte de trás do USA. USA, tá ok? Chega de ser terceiro mundo. Estarei com meu ídolo por lá. Ele vai deixar eu ser presidente também. E limpar seus sapatos.

Herói – COMO ASSIM? – engasgando

Fake Man – Ora… é simples! 154 % dos brasileiros querem isso. E a economia também. A gente cola na parte de trás do USA. Aqui, oh. Bem aqui! – indicando.

Herói – No cu?

Fake Man – No traseiro! Meu marqueteiro me faz falar melhor, Herói. No traseiro.

Herói – Quanta merda! – baixinho.

Fake Man – O quê? Não ouvi. Tenho dificuldades de escutar.

Herói – Quanta “certa”, eu disse. Quanta coisa você acerta! Bom… falemos sobre isso quando me der o cargo, tá?

Fake Man – O quê? Não providenciaram ainda? Ah, não! Caralho! – pegando o telefone.

Herói – Calma! Essas coisas demoram tempo e… – interrompido.

Fake Man – OH MOÇA DO TELEFONE! CARALHO! SUA BURRA! EU TE COLOQUEI PRA FALAR QUE APOIO MULHER NO GOVERNO E VOCÊ AINDA NÃO FEZ A DOCUMENTAÇÃO DO HERÓI? BURRA! BURRA! – gritando.

Herói – Calma, presidente! Calma!

Fake Man – PORRA! É PRA ONTEM! VAI LOGO! VAI! A GENTE VAI PERDER APOIO DO POVO, BURRA! VAI LOGO! Vem, Herói! Vamos seguindo!

Herói – Mas tô comendo…

Fake Man – Larga isso aí! Te pago um almoço! Vem! – pegando Herói pelo braço e saindo.

A mosca sentiu que estava tudo bem e voltou pra sua refeição. Agora com mais uma opção. O pão mordido pelo Herói.

Guigo Ribeiro é ator, músico e escritor, autor do livro “O Dia e o Dia Que o Mundo Acabou”, disponível em Clube de Autores.

 

 

 

A opinião do/a autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

Guigo Ribeiro é ator, músico e escritor, autor do livro “O Dia e o Dia Que o Mundo Acabou”, disponível em Clube de Autores.

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