O que se pode aprender com o maior estudo já feito sobre estupro

Publicado em: 14/04/2014 às 06:30
O que se pode aprender com o maior estudo já feito sobre estupro

1 a 1 a a a a onu sombraPor Lola Aronovich.

Enquanto escrevia um dos vários posts sobre os resultados da pesquisa do Ipea, me deparei com este artigo do ano passado, escrito por Tara Culp-Ressler.

Pedi pra querida Elis traduzi-lo, e ei-lo. É assustador.

Pesquisadores das Nações Unidas acabam de publicar um extenso estudo sobre as raízes da violência sexual, cobrindo seis países e com duração de dois anos. A pesquisa que, segundo a organização, representa o maior projeto científico sobre o tema até o momento, teve como objetivo investigar a “sub-pesquisada” área do estupro perpetrado por homens. Em média, cerca de um em cada quatro homens que participaram do estudo afirmou que já havia estuprado alguém em algum momento de sua vida. Um em cada dez havia estuprado alguém que não era sua parceira romântica.

O estudo da ONU entrevistou mais de 10.000 homens de Bangladesh, China, Camboja, Indonésia, Papua-Nova Guiné e Sri Lanka. Os pesquisadores alertam para o fato de que alguns comportamentos regionais relativos à sexualidade no sudeste da Ásia podem contribuir para os resultados coletados nos seis países. Ainda assim, no entanto, há pontos muito importantes nos resultados. Vejamos o que a nova pesquisa pode nos dizer sobre o panorama geral da violência sexual:

Muitas pessoas têm a ideia errada quanto ao que realmente constitui “estupro”. Os pesquisadores, intencionalmente, não utilizaram a palavra “estupro” em nenhum de seus questionários sobre o histórico sexual dos homens asiáticos. Em vez disso, perguntaram aos homens se eles já haviam “forçado uma mulher que não fosse sua esposa ou namorada no momento a fazer sexo”, ou se já haviam “feito sexo com uma mulher que estava bêbada ou drogada demais para consentir com o ato”.

Provavelmente, essa abordagem ajudou os pesquisadores a reunirem informações mais precisas sobre atos sexuais não consentidos nos quais os homens haviam tomado parte.

Como muitas pessoas não compreendem os limites do consentimento, muitos adultos ativos sexualmente não entendem quando estão violando alguém — e podem não acreditar que, de fato, estupraram alguém. “O estupro não envolve apenas alguém que aponta uma arma para a cabeça de uma mulher”, destacou Michele Decker, a professora de saúde pública que é coautora do comentário que acompanhou o novo estudo, à CBS News. “As pessoas tendem a pensar no estupro como algo que outra pessoa faria.”

Estupros também ocorrem dentro do casamento. De forma semelhante, muitas pessoas pensam no estupro como algo que ocorre entre desconhecidos, quando mulheres são abordadas por criminosos em becos escuros. Mas não é essa a realidade da violência sexual. A pesquisa da ONU descobriu que estupros entre parceiros casados são mais comuns que estupros entre pessoas que não estão em um relacionamento romântico.

Estudos realizados nos Estados Unidos revelaram resultados semelhantes sobre a prevalência de violência entre parceiros íntimos no país. Quando se trata de educar as pessoas sobre a violência sexual, é importante enfatizar que o consentimento não é infinito – ou seja, mesmo quando falamos em cônjuges que fizeram sexo consentido muitas vezes no passado, nenhum dos dois consentiu em fazer sexo em todas as ocasiões em que o parceiro o exigir no futuro.

Os níveis de repetição do crime são muito altos entre estupradores. Quase metade dos entrevistados que afirmaram ter estuprado pelo menos uma vez acabaram, mais tarde, estuprando diversas vítimas. Quase 23% afirmaram ter estuprado de duas a três pessoas, 12% afirmaram ter estuprado de quatro a dez pessoas, e cerca de 4% afirmaram ter estuprado mais de dez pessoas.

Nos Estados Unidos, algumas pesquisas chegaram a conclusões semelhantes sobre estupradores que repetem o ato no nível da faculdade. Um estudo da Universidade de Harvard descobriu que os jovens que estupram na faculdade têm probabilidade de se tornarem estupradores em série –- e muitos deles o fazem, uma vez que as políticas brandas relativas à violência sexual na faculdade frequentemente permitem que eles não sofram punições.

Comportamentos negativos relativos à sexualidade têm raízes na juventude. Mais da metade dos entrevistados que admitiram ter violado alguém eram adolescentes na primeira vez em que estupraram. A maioria dos crimes sexuais registrados pelo estudo ocorreu quando os homens tinham entre 15 e 19 anos de idade. Os autores destacam que este fato “reforça a necessidade da prevenção ao estupro entre pessoas jovens”.

Defensores da prevenção contra a violência sexual nos EUA afirmam que esse tipo de educação por ter início com uma educação sexual abrangente. Ensinar as crianças sobre seus corpos quando são jovens ajuda a lhes conferir um senso de autoconfiança e propriedade sobre o próprio corpo. Dessa forma, elas teriam maior probabilidade de evitar violar o consentimento de alguém e estariam mais dispostas a se expressar quando alguém tentasse violar seu consentimento.

Os homens estupram porque foram ensinados que têm o direito de reivindicar para si os corpos das mulheres. Um dos conceitos fundamentais no núcleo da cultura do estupro é a ideia de que o estupro é inevitável, os homens não conseguem se controlar e, portanto, as mulheres devem se esforçar para se protegerem. No contexto da cultura do estupro, a ideia de que os homens têm direto a experiências sexuais é profundamente enraizada.

Os pesquisadores da ONU descobriram que este comportamento é amplamente difundido entre os estupradores entrevistados. Entre os homens que reconheceram ter praticado violência sexual contra alguém, mais de 70% afirmaram que o fizeram devido ao seu “direito sexual”. Além disso, 40% afirmaram que estavam com raiva ou queriam punir a mulher. Cerca de metade dos homens afirmaram que não se sentiam culpados.

Normalmente, não há punição pelo estupro no sudeste da Ásia. Apenas 23% dos homens que afirmaram ter estuprado alguém haviam, de fato, sido presos por seus crimes. Essa tendência é verdadeira em países de fora do sudeste da Ásia que foram incluídos no estudo.

A RAINN (Rape, Abuse, and Incest National Network, Rede Nacional doa EUA de Assistência a Vítimas de Estupro, Abuso e Incesto) estima que, após levar em consideração o número extremamente alto de casos de estupro que não são denunciados à polícia, cerca de 3% dos estupradores dos EUA acabam na prisão. Este tem sido, ultimamente, um tema bastante conflituoso em campi universitários, onde muitos estupradores recebem punições extremamente leves, como ter que escrever redações e ser colocado em liberdade vigiada, em vez de serem expulsos.

“Está claro que a violência contra as mulheres é muito mais difundida no público geral do que imaginávamos”, afirmou Rachel Jewkes, membro do Conselho de Pesquisa Médica da África do Sul e líder do novo estudo, em uma declaração sobre os resultados. Pesquisas anteriores também supervisionadas por Jewkes descobriram que uma em cada três mulheres no mundo inteiro sofreu algum tipo de violência perpetrada pelo parceiro íntimo, levando a Organização Mundial de Saúde a declarar tal violência um problema de saúde global “epidêmico”.

Jewkes e seus colegas pesquisadores esperam que o novo estudo -– um dos primeiros a se concentrar nos homens que perpetram a violência sexual, e não nas mulheres vítimas -– ajude a incentivar mudanças concretas em políticas para reverter as dinâmicas que contribuem para a cultura do estupro. “A prevenção do estupro é essencial”, concluem eles. “As intervenções devem ter como foco a infância e a adolescência, e devem lidar com relações de poder e socialização do sexo masculino profundamente enraizadas, com abusos na infância e com a pobreza.”

Fonte: Escreva Lola Escreva.

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