O ninho da serpente

Publicado em: 06/11/2010 às 11:44
O ninho da serpente


Por Raul Longo

Distribui, tal como a recebi, a publicação britânica da notícia sobre as manifestações de racismo contra nordestinos pelos eleitores de José Serra. Foi um erro, pois não percebi que no campo assunto quem me enviou escreveu ou manteve o que originalmente foi escrito: “O ODIENDO PRECONCEITO PAULISTA NA WEB/BRASIL JÁ BATEU EM LONDRES (SERÁ QUE A EDITORA ABRIL A CONTRATARÁ PARA POSAR NUA NA PLAYBOY?)”

É sintomático isso de cogitar a contratação pela Playboy da estudante que primeiro descarregou a frustração da derrota de seu candidato nos nordestinos, apesar do escrutínio regional demonstrar que Serra perderia mesmo sem os votos do nordeste. E, também, que teve eleitores no nordeste. Mas ainda sem perceber a existência dessa frase no campo assunto, inscrevi a guisa de cabeçalho, sintetizando o conteúdo da matéria para os que não leiam em inglês: “Para pensar (trata-se do sucesso internacional dos eleitores de José Serra divulgando a imagem do Brasil para o mundo)”

Mas, racistas pensam? Muitos, por certo, sequer imaginaram os prejuízos para nossa imagem no exterior, talvez até orgulhosos de nos demonstrarmos, hoje, iguaizinhos ao que foram no passado. Já em outros, a reação foi imediata.

Alguns me mandaram argumentos diversos de própria e alheia lavra, procurando provar que nem todos os paulistas e nem todos os eleitores de José Serra são racistas, reafirmando aquilo que todos sabemos: talvez sejamos o povo mais racista do mundo, embora os mais eloquentes em negar o que os demais assumem.

E racistas não são apenas os paulistas (daí meu erro em manter o inscrito no campo assunto). A exceção da região norte, vivi em todas as demais do Brasil e me foi impossível definir onde se é mais ou menos racista. Portanto não creio que se trate de localizar o ninho da serpente do racismo geograficamente, mas é preciso eliminá-lo para evitar que envenene as futuras gerações, provocando atrofias ao passado do qual já se libertaram tantos europeus, norte-americanos e boêres sul africanos.

Sabemos que do passado é o ovo dessa serpente, mas não interessa agora retrocedermos na história e, sim, destruirmos esses ninhos no presente para que a peçonha não se prolifere, como nas tantas mensagens de twitter em apoio ao fascismo da estudante – pasmem – de Direito.

Fosse ela a única, não seria o caso de dedicar tempo à manifestação doentia, mas foram tantas (não contei, mas no mínimo umas 20 mensagens em apoio à futura advogada, em exposições circulando pela internet) que tomo aqui emprestado os contra argumentos com os quais, mais uma vez, tentam esconder o ninho destas serpentes que amiúde se entrelaçam entre as mentes brasileiras.

Dizem que as serpentes se reconhece pela cabeça e vamos logo à uma delas, reproduzindo o comentário de um desses meus correspondentes: “O simples fato dessa desvairada ser paulista não significa que ela é o protótipo do eleitor de Serra, pois bem sabemos existir entre os eleitores de Dilma desvairados desse matiz e outros tão ou mais desprezíveis, como os mensaleiros e outros “artistas” menos citados.”

Vejam só! Aí está meu erro em não ter reparado na errônea indicação de regionalização do preconceito no campo assunto da mensagem repassada. Portanto, não posso nem devo culpar o correspondente por ter entendido que tenha relacionado os eleitores de Serra aos paulistas, mas na verdade, não foi minha intenção. Até porque muitos paulistas não votaram em Serra e, na região sudeste onde aquele estado se infere, se não me falha a memória Dilma Rousseff foi a mais votada. Além disso, mesmo que poucos eleitores de José Serra há em toda parte, não tem sentido especificá-los regionalmente. Mas aqui o correspondente já nos oferece uma excelente pista, se referindo ao  “protótipo do eleitor de Serra”.

Há um protótipo do eleitor de Serra? Interessante! E qual é esse protótipo? Bom… Se há o protótipo, também há aquele eleitor do José Serra que não é assim tão típico, tão padrão. Ou, talvez, há os eleitores de Serra que embora eleitores, não sejam tão puros, tão dignos e genuínos.

O que é o “protótipo do eleitor” de José Serra? Talvez seja aquela mulher que nunca tenha cometido aborto nem imolado criancinhas como a Dilma Rousseff, conforme denuncia de Mônica Serra incluindo a opositora do marido entre os indignos de Deus, da Igreja e dos Cristãos.

Ou será que o protótipo do eleitor de José Serra é aquele que comete harakiri ou qualquer autoimolação quando um seu funcionário de confiança se torna suspeito de prevaricação?

O depoimento das ex-alunas de Mônica Serra e o episódio do Paulo Preto comprovam que apesar da grande capacidade mimética das serpentes, de fato se tentou desenvolver um prototípico eleitoral do candidato. Mas poderemos aceitar protótipos de eleitores do José Serra, sem cair naquele mesmo caso dos cristãos que consideravam natural escravizar, matar ou torturar índios e negros porque não teriam alma?

E de se considerar. Reparem que o correspondente admite que entre escravistas ou torturadores seiscentistas se incluem desvairados  “desse matiz e outros tão ou mais desprezíveis, como os mensaleiros e outros “artistas” menos citados.” Muito interessante isso de “tão ou mais desprezíveis” Também seria admissível o inverso? Por exemplo, haver entre os correligionários de José Serra, mensaleiros mais desprezíveis do que entre os acusados pelo Roberto Jefferson. Talvez o próprio Roberto Jefferson mesmo, que confessou ter roubado o partido a que pertencia e acusou outros de terem feito o mesmo para, ao menos, ter companhia na montagem da ópera bufa?

Esses outros ainda não foram julgados pelo Poder Judiciário, francamente opositor do Poder Executivo deste governo Lula, mas o mesmo Judiciário já concluiu, em conformidade com as investigações, que não havia qualquer relação entre os pagamentos do caixa 2 montado por Delúbio Soares com as votações parlamentares. Até porque as datas desses pagamentos em nenhuma ocasião coincidiram com as reuniões parlamentares para aprovação de projetos do Executivo.

Roberto Jefferson inclusive foi penalizado pelo executivo por este falso testemunho. Alguns anos atrás não o seria. Pelo contrário, seria motivo de orgulho tal o que fazia Sérgio Motta , ministro de FHC, jactar-se à imprensa por ter comprado os votos que aprovaram a emenda constitucional que permitiu a reeleição daquele governo.

Mas, vá lá que nos conceitos do correspondente isso seja menos desprezível do que pagamento de dívidas de campanha, mas seria interessante saber em que conceito enquadra os mesmos valores e agentes quando movimentados para o pagamento da campanha de Eduardo Azeredo ao estado de Minas Gerais? Será que ao correspondente o que se difere é o fato de Azeredo ter operado em função de um único estado, enquanto os acusados por Jefferson o fizeram em função de diversos municípios de todo o país? Ou porque Azeredo foi condenado por não ter honrado os empréstimos, ao contrário do PT que não só vinha pagando regularmente, ainda sob a tesouraria de Delúbio, como quitou a dívida sem necessidade de se recorrer a justiça?

Serpenteantes meandros que dificultam a compreensão das referências do correspondente, ainda mais quando não define quais ou quem serão os outros desprezíveis artistas. Mais artísticos ou mais desprezíveis do que Geraldo Brindeiro, o internacionalmente conhecido Engavetador Geral da República do Brasil? Aquele que no Guiness mereceria destaque por ter arquivado nada menos do que 600 processos contra o governo tucano? Grande mago o Geraldo! Digno daqueles espetáculos de engolidor de cobras!

No entanto, a imprensa brasileira escamoteia ou omite tais fatos e é aí onde realmente poderemos encontrar a trilha que vai ao ninho da serpente, detectada por Jean Paul Sartre quando acusava na origem do racismo uma inveja dos brancos por certas particularidades vantajosas no biótipo do negro, e vice-versa. Mas não concordo totalmente com Sartre. Não no que se refere a se prezar mais as ancas das negras em relação às das brancas, que mais se realçam é no imagético de origem caucasiana. Tampouco no imitar os cabelos lisos das brancas que mais se valorizam na suspeita atração a tudo que de si difere, como ocorre nas mulheres negras.

Mas o de mais belo nas mulheres é mesmo esse reinventar-se, essa possibilidade de se aproximar a todos os estilos, sejam éticos, culturais ou sociais; mantendo sempre a si quando não necrosada pelos preconceitos da moça estudante, coitada, tão jovem e até bonita, mas já caquética e mentalmente em decomposição.

De forma que embora reconheça diferenças de proporções tanto em ancas e cabelos, quanto em ilícitos de grupos políticos, percebo um soar de guizos quando escuto expressões como “quão ou mais desprezíveis”. Algo parecendo com “por pior que seja minha facção, a sua ainda é mais”. Nessa fricção de mantras facciosos podemos reconhecer os guizos que denunciam o ninho construído, ou amoldado.

Não pelo correspondente ou pelos eleitores de Serra, claro! Natural que eleitores busquem construir argumentos que justifiquem suas preferências por este ou aquele candidato, este ou aquele partido. Mas quando as forças partidárias ou as que compõem um modelo político começam a juntar elementos estranhos à questão política, tais como religião, aborto, documentos falsos, montagens, responsabilização dos contrários por atos de própria responsabilidade, evocações vazias à ética, emprego de moralismos, etc., aí cuidado!

E lembre-se: não há mais falsa coral do que aquela coral que se diz “do bem”. Pois está incluso no se dizer ser do bem, o dizer que o outro é do mal. E nessa classificação já se começa a destilar o veneno do faccioso. Daquele que nada tem a apresentar além do agitar dos guizos a camuflar as presas.

Constata-se ter sido exatamente ocorrido na campanha de José Serra, ao longo da qual o candidato em momento algum apresentou programa de governo. Promessas muitas, mas programa: nada! Governaria sabe Deus como!

Promessas até que são naturais a todos os candidatos, mas transcorrer dois turnos sem apresentar qualquer documento que oficialize e abalize uma plataforma, uma proposta de governo, resulta nisso que aí se vê e se verá sempre que um “Il Duce” ou um “Der Führer” pretender criar um protótipo para condicionar seus eleitores a preconceitos sobre cristãos e anticristãos, escolhidos e não escolhidos, os do bem e os do mal, entre outros maniqueísmos pouco artísticos para os de melhor gosto.

No entanto, este correspondente agregou um texto interessante de José Barbosa Junior, onde o autor elenca nomes de talentos nordestinos que, em diversas áreas, contribuíram decisivamente para o país como um todo e a São Paulo em particular. Acabou esquecendo de muitos exemplos extremamente significativos, principalmente nas ciências, mas seria impossível relacionar todos as contribuições de personalidades masculinas ou femininas do nordeste do Brasil, sem cometer tais deslizes. A se lamentar mesmo é que ao final de seu texto José Barbosa se permitiu, se deixou atrair pelo poder hipnótico das serpentes, desenvolvendo comparações entre as qualidades nordestinas e sofríveis expressões de outras regiões, reportando a um tal de sertanejo universitário (que nem imagino o que seja) do centro oeste, aos torpes refrãos dos bailes funks do Rio de Janeiro e a falta de criatividade e talento dos pagodes dos condomínios da periferia paulistana.

Cuidado! Muito cuidado! É preciso lembrar da natureza vampiresca da serpente. Na mitologia, o malefício sofrido pelas vítimas dos vampiros é o de se tornarem igualmente vampiros! Convém notar, como exemplo, a similaridade entre os atos e métodos empregados contra os palestinos pelos sionistas e os empregados contra os judeus nos tempos do nazismo.

Assim como tivemos e temos grandes brasileiros no nordeste, também os temos e tivemos em todas as demais regiões desse país. Não pense José Barbosa que não haja interesses comerciais que transformam a tão rica cultura nordestina em horríveis axés e outros subprodutos massificados aos jovens de lá. Os meios de comunicação voltados ao condicionamento de massas é um ninho de serpentes que se distribui por cada estado brasileiro e não especificamente nesta ou naquela região.

Já no que se refere à política, basta lembrar que Sérgio Guerra, Efraim Morais, Agripino Maia e outros que tanto sibilaram contra o tal mensalão de Roberto Jefferson que ainda comove o correspondente, estão todos sob investigação de corrupção. E são nordestinos. Isso, para não lembrar da desfaçatez de um dos maiores corruptos políticos da história do Brasil que sempre transferiu este título para os adversários, e era baiano.

Por falar em desfaçatez, também exemplar é o envio por outra correspondente de dois textos de um jornalista que ainda não vou revelar o nome, para não perder a graça. No primeiro texto o jornalista reproduz a imagem de um portal intitulado “Blog da Dilma” e, sob a reprodução da página, já inicia seu texto com este parágrafo: “Esse blog nunca foi admitido como parte da rede oficial pró-Dilma, mas existe desde  que Lula deixou claro que ela seria a candidata. Tinha até uma janela destinada à arrecadação de recursos. Não contasse, no mínimo, com o assentimento da campanha, teria saído do ar.”

Eu soube que o comitê de Dilma andou entrando na justiça para recolher algumas peças de campanha, tanto da internet como por outros veículos, que utilizaram o nome da candidata indevidamente e nitidamente com o intuito de promover anti propaganda e incriminá-la à ideias que não lhe são próprias. Não sei se o citado, mas houve, sim, uma acusação de arrecadação não autorizada.

Só para citar um exemplo, em Campinas, interior de São Paulo, foram fotografados automóveis com adesivos onde se lia “DILMA45”. Até mesmo em uma produção do programa eleitoral pela TV, Serra se anunciou de viva voz como o candidato da continuidade! O primeiro opositor da história eleitoral que sequestra o continuísmo da situação! Só mesmo no Brasil!

Afora estes e muitos outros fatos, já desde quando se anunciou que seria candidata à sucessão de Lula, surgiram inúmeros registros de domínios da web com o nome de Dilma. Alguns até bastante sugestivos e que geraram reclamações dos que lamentaram terem de exercitar a criatividade para desenvolver algum título de domínio que já não houvesse sido registrado. Se pesquisou e detectou de onde partira a iniciativa dos registros que nitidamente visavam estorvar o empenho da militância pró Dilma. Adivinhem de onde, de que ninho?

Não vou aqui perder tempo tentando detectar se este é comportamento característico dos ofídicos, até porque mais exemplar é a cabal decisão do dito jornalista (aguardem que vão morrer de rir!) ao reconhecer que “nunca foi admitido como parte da rede oficial pró-Dilma, mas é”.

Por que é? Se crio um blog com o nome: “Filhos de Dilma”, que poder Dilma terá para retirar meu blog do ar? Por usar a foto de sua figura que é pública?

Como são dissimuladas as serpentes, não? Não é a toa que entraram para a história do pecado original.

Os eleitores de Serra que me desculpem, mas isso de pecado original é coisa de que gosto muito, no entanto no momento o assunto não vem ao caso, pois o mais interessante é o que revelo agora. Preparem-se! E avaliem o título encabeçando a página do blog da Dilma que Dilma não reconhece como dela, mas o jornalista decidiu que é: “ZÉ PEDÁGIO PENSA QUE NORDESTINOS SÃO BESTAS COMO PAULISTAS”.

Não perceberam??!!! Passaram em cima do ninho da cobra e não o perceberam!!!? Gente! Vamos ter mais atenção e pensar um pouco: qual o maior colégio eleitoral do Brasil? Por que um portal de um candidato haverá de chamar de besta o maior colégio eleitoral do país, às vésperas de uma eleição?

Dhãhãhãhãhãhãããããã….

Se continuarem tão desatentos e incapazes de perceber os movimentos das cobras, não haverá soro antiofídico que dê pro gasto! Terão de andar com um Butantã às costas!

Curiosos para saber qual foi a sagaz serpente que deu esse bote na distraída correspondente? Vou dar uma dica para ver se matam a charada: lembram das capas de um dos maiores serpentários do país: a Revista Veja, identificando – inclusive pela foto de uma pessoa negra – o perfil tipicamente nordestino de quem elegeria o presidente em próximo sufrágio universal? Pois leiam essa frase recolhida entre outras sibilos da língua bigúmea: “Não há nada mais atrasado, estúpido, ridículo mesmo, do que esse confronto entre regiões ou estados.”

Apesar dos inúmeros processos por difamação movidos contra a Revista Veja e seus colaboradores (alguns com condenação já expedida) a correspondente insistiu em me enviar outro texto do mesmo jornalista, onde chega a afirmar em seu estilo tão típico e característico: “E, como todos sabem, defendo as leis.” Mas o mais divertido (vocês vão cair na gargalhada quando revelar de quem se trata) é o histérico esforço, parágrafo a parágrafo, para provar que a tal estudante racista não é sua criatura nem responsabilidade. O homem chega a espumar para provar que não é racista. Pode se admitir hidrófobo, mas, racista jamais!

Ainda assim não se o pode acusar de negligência ou abandono de incapaz, pois para defender a cria, num determinado momento chega até a comparar “afogar nordestino em favor de São Paulo”, com “os loiros de olhos azuis” que construíram a crise mundial.

Bem… Vai aí alguma lógica, pois se por um lado não foram negros de cabelo pixaim os responsáveis pela crise financeira internacional, sem dúvida São Paulo foi mesmo construída pelos nordestinos. Mas afora essa mixórdia, essa quimérica mistureba sem pé nem cabeça como as cobras cegas, não há coisa alguma haver com outra. Nem Lula incitou alguém ao crime por afirmar o óbvio, nem mesmo os loiros de azuis se incomodaram pelo evidente. Até porque não houve na afirmação nenhuma conotação mais pejorativa do que as imagens que se refletem nos espelhos dos plutocratas mundiais. Certo?

Errado. Errado porque ainda não revelei quem é o autor da matéria, depois que o fizer vão compreender direitinho. Mas antes tenho de fazer uma ressalva onde ele tem razão, numa reprodução que faz de uma resposta da ex Ministra da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, em entrevista à BBC Brasil. Sei que é difícil reconhecer onde começa e onde termina uma serpente enroscada em si mesma e todos também sabemos quanto são ávidas e experientes em recortar e remontar declarações, compondo insídias com as quais envolvem os incautos desde Adão e Eva. Mas caso desta vez não o tenha feito e a ex Ministra de fato tenha exposto as razões do racismo do negro contra o branco como ali se transcreve, cometeu grave deslize em dizer que o encara como natural.

Embora o seja, não há dúvida, pois qualquer ser espancado alimentará ódio ao seu espancador. A única vez que minha cadela mordeu alguém, foi um senhor de boné. Aquilo me indignou e espantou, até me lembrar de que diariamente minha amiga era molestada por um garoto sempre de boné. Depois o fiz concordar de que ele deveria ser mais inteligente do que a cachorra, mas quando entrou o senhor a bichinha só reconheceu o boné, e como os negros marginalizados pelos brancos, expeliu seu ódio natural. Mas mesmo sendo natural enquanto reação animal ou humana, os capacitados de discernimento e raciocínio não podem considerar como natural que os nordestinos venham a ter preconceitos dos paulistas. Não podemos nem devemos nos permitir a isso. Mas não pelas superficiais razões apresentadas pelo tal jornalista que, ao longo de sua lamentável carreira, tem primado pelo contrário do que afirma; e sim porque o preconceito do negro contra o branco ou do nordestino contra o sulista, todos são resultados da inoculação do mesmo veneno.

É preciso deixar claro que o negro não seria racista, se não houvesse sofrido racismo. O nordestino não seria racista, se não o condenassem ao afogamento em nome da cidade que ele construiu em todas suas extensões verticais e horizontais. Mas também é preciso repetir à exaustão o ensinamento de Agostinho Neto, embora tão óbvio: “Não importa a cor e a origem do opressor. Todo opressor é o mesmo opressor, seja branco ou negro”. Seja paulista, nordestino, gaúcho ou mato grossense, a serpente é a serpente

Faz até lembrar a anedota do garoto negro que querendo entender porque os brancos são racistas, se encheu de alvaiade. A mãe chegou e deu bronca: “- Mas que porcaria menino! Pra quê isso?” “- É que eu quis ficar branco pra…” A mãe não deixou nem explicar: “- O quê? Tá negando a raça seu moleque?” – e tome um cocorote. Nisso chegou o pai, a mãe indignada explicou o acontecido, e o pai, revoltado com o filho: tome mais cascudo. Choramingando o menino saiu pra rua onde encontrou um coleguinha que perguntou: “- E aí? Descobriu por que branco é racista?” “- Acho que sim. Fiquei branco só por dez minutos e já tô com raiva de dois pretos.”

Mas a piada maior mesmo, para quem ainda se lembra quem seja, é o nome do autor dos dois últimos textos comentados: Reinaldo Azevedo.

Podem rir a vontade, mas quem não sabe distinguir uma muçurana de uma urutu cruzeiro que não se meta a criar cobra achando que vão se comer entre si. Esse negócio de querer ver cobra comendo cobra é perigoso! Não alimentem! Melhor mesmo é acabar com o ninho.

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