O leilão do lote 49, de Thomas Pynchon, e a paranoia José Figueiredo

O leilão do lote 49 é um romance difícil de definir. Primeiro, defini-lo como romance para muitos já parece um erro, sendo mais correto chamá-lo de novela.

Mas este não é o ponto.

Thomas Pynchon criou uma história delirante, cheia de mistérios, segredos, paranoias e teorias da conspiração. Se você acha que a internet foi a responsável por teorias absurdas e aleatórias, O leilão do lote 49 vai lhe apresentar uma outra perspectiva muito delirante e engraçada sobre o tema.

 

Afinal, qual é o enredo?

Em O leilão do lote 49, seguimos a protagonista Édipa Mass (sim, o nome dela é este). Ela é surpreendida ao ser designada inventariante de um riquíssimo ex-namorado. No entanto, ao se envolver nos negócios dele, Édipa se vê envolvida num grande complô internacional.

No entanto, que tipo de complô internacional é esse?

O leilão do lote 49 desenterra uma antiga briga entre duas companhias de correios. Isso mesmo, você não leu errado, uma briga entre empresas de correios. Uma delas, Thurn-und-Taxis, uma empresa verdadeira criada no século XVI, e Tristero, criação de Pynchon.

Tristero seria um serviço paralelo e secreto de correios que teria sido derrotado por Thurn-und-Taxis no século XVIII. No entanto, continua em atividade na época do livro, os anos 60.

Assim, Édipa se desloca pelo sul da Califórnia em busca de selos e provas da existência da Tristero. Seu símbolo, a trompa postal, é visto em toda parte pela protagonista. O que começa como várias coincidências termina se tornando uma obsessão para Édipa.

 

Parece estranho? Tem mais
Grafite da trompa postal que aparece em O leilão do lote 49

O leilão do lote 49 traz vários elementos famosos na obra de Thomas Pynchon e do pós-modernismo: paródia, deboche, paranoia e, consequentemente, teorias da conspiração.

Como deve ter ficado claro, os dois últimos pontos são centrais para que o enredo se desenvolva. A partir de várias coincidências, Édipa é impulsionada a partir em busca de uma empresa secreta e da história de séculos na qual ela opera e briga com seus concorrentes.

As pistas incertas alimentam o desejo da protagonista de querer saber se tudo não passa de uma impressão ou um grande complô internacional para esconder a empresa. A certa altura, a própria Édipa se questiona se tudo não passa de uma grande brincadeira do seu ex-namorado ou mesmo de paranoia.

 

Paranoia

E olhe, paranoia é o que não falta em O leilão do lote 49.

Estamos num romance que se passa no meio dos anos 60 na Califórnia. Dessa forma, você pode esperar encontrar de tudo: viciados em LSD (como o marido de Édipa), músicos à la Beatles, um psicólogo surtando. Nenhum dos personagens parece real, antes dão a impressão de estarem prestes a desmoronar e desaparecer – e de fato, alguns realmente passam por isso.

Pynchon cria todo um ambiente para que a paranoia seja o centro da história. Nada é certo na busca de Édipa. Logo, nada é certo ou parece real na nossa leitura. Os personagens, lugares e ações são um tanto quanto bizarros. Como em outros romances do autor, o mundo parece algo errado e sedutor pelas suas novas (e bizarras) possibilidades de interpretação.

 

Teoria da conspiração

A existência da Tristero é em si uma grandessíssima teoria da conspiração: uma empresa postal clandestina que opera há mais de duzentos anos. No entanto, a forma com que Édipa e o leitor criam essa teoria é algo fascinante.

Temos uma peça, selos, pistas e pichações aleatórias que fazem com que montemos o quebra-cabeça delirante e paranoico de Pynchon. As pistas normalmente seriam sinais ignorados por qualquer pessoa, menos por Édipa.

Se a trama parece estranha, os personagens que fazem a ligação dela e ajudam Édipa são ainda mais. O leilão do lote 49 agrupa um grupo seleto de pessoas paranoicas que acreditam estarem sendo ou perseguindo algo.

Dr. Hilário, por exemplo, é um psiquiatra que receita LSD para donas de casa e admite ser sido um médico nazista num campo de concentração quando finalmente fica louco. Dessa forma, quando surta no seu escritório, acha que os judeus estão vindo buscá-lo enquanto na verdade quem chega é a polícia.

(a lista é gigante, então leia O leilão do lote 49 para entender)

Thomas Pychon e 5 escritores reclusos | LiteratusTV #01
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Mesmo recluso, Thomas Pynchon é figura presente na cultura pop

 

Um romance contemporâneo

Thomas Pynchon publicou O leilão do lote 49 em 1966, mas poderia tê-lo publicado hoje. Cheio de referências pop e descrições urbanas, o que mais chama a atenção na trama, porém, é a sua incerteza.

Em tempos de Whatsapp e teorias de terra plana, O leilão do lote 49 nos lança diretamente num mundo paranoico, cheio de conspirações que, se cinquenta anos atrás pareciam loucura, hoje não deixam de ser – e também surgir.

***

Um romance belíssimo e divertidíssimo, O leilão do lote 49 é a obra mais curta de Thomas Pynchon. Uma boa porta de entrada para quem quer conhecer o autor, seus romances paranoicos e delirantes.

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