O latifúndio e o eucalipto no Baixo Parnaíba maranhense

Por Mayron Régis.

Além do fato óbvio de paralisar as atividades da Suzano no Baixo Parnaíba maranhense, a liminar que a Justiça Federal promoveu a pedido do Ministério Público Federal permite uma melhor compreensão da parte da sociedade civil sobre como se comporta da Suzano Papel e Celulose no estado do Maranhão.

Costumam dizer para quem quiser ouvir que o agronegócio do eucalipto é um dos mais modernos da economia brasileira. Com certeza, ele se beneficiou, assim como a soja, das inúmeras pesquisas realizadas nas últimas décadas patrocinadas pelo Estado e pela iniciativa privada. O resultado desse investimento em pesquisa é o avanço despudorado dos plantios de eucalipto pelo Brasil. Quando a pesquisa e o discurso laudatório não resolvem as contradições, entram as oligarquias. Para contornar as adversidades sociais a um empreendimento como o que pretende implantar em boa parte do Estado, a Suzano Papel e Celulose, muito prontamente, aliou-se aos setores mais conservadores da política e da economia maranhenses. Essa afirmação se refere, é claro, à família Sarney, mas ela se dilacera para além dos portões do palácio Henrique de La Roque.

No município de São Bernardo, o ex-prefeito Coriolano chantageou os vereadores para derrubarem a lei do ex-vereador Gilvan Alves que proibia os plantios de eucalipto.

No município de Chapadinha, as oligarquias locais (Bacelar e Lyra) que, por tanto tempo, esfalfaram-se em cima dos recursos provenientes dos bancos oficiais para desmatarem áreas de Chapada e de Baixão para plantarem capim e criarem gado, venderiam fácil as suas propriedades para a Suzano Papel e Celulose em vez de repassa-las ao Incra que regularizaria as famílias de posseiros que habitam por séculos essas áreas. Pelo que se sabe, o Incra paga bem melhor que a Suzano e os proprietários de Chapadinha que assinaram contratos com a empresa até hoje não receberam nada.

O preconceito das elites com relação à agricultura familiar e à reforma agrária, que dificulta as ações do Incra com vistas à desapropriação de áreas para ou assentar ou regularizar famílias, enfeita parte do trajeto histórico socioeconômico dessas elites que por décadas apenas cumpriram um papel secundário ou de secundarista na formação política do Baixo Parnaíba maranhense. Elas nunca tiveram luz própria, diferente do quis fazer crer a família Lyra quando atacou os assentamentos de reforma agrária no município de Chapadinha através de um pau mandado durante reunião no povoado Mangueira. Ao menor sinal de mudança política, essas elites mudavam de mala e cuia para o grupo vencedor.

A Suzano Papel e Celulose, em todo o Maranhão, propôs comprar tudo que houvesse de propriedades com documentação factível. Aos olhos desse pessoal, os projetos mirabolantes da Suzano Papel e Celulose para o Estado mudavam os cenários que desabonavam suas existências perante outros grupos políticos. É só pensar na resposta dada pela ‘Scarlett Ohara’ do Maranhão, a governadora Roseana Sarney, para o deputado Magno Bacelar em Grajau: “Eu já estou levando um projeto de bilhões para Chapadinha e você quer mais”. O projeto em questão é o da Suzano.

Com a luz e o cenário novos da Suzano, os holofotes que antes iluminavam as elites em seus afazeres políticos e de negócios iluminam outros grupos em ascensão. Não dá para dizer que grupos são esses que o eucalipto eleva a categorias antes inimagináveis no contexto do Baixo Parnaíba maranhense. Verifica-se que as questões da agricultura familiar e do extrativismo persistem nesse contexto. Antes os agricultores e suas representações como sindicatos e associações pouco ofereciam de resistência a essas elites e aos representantes do agronegócio. O que se vê, atualmente, são comunidades por todo o Baixo Parnaíba reclamando seus direitos.

Mayron Régis é jornalista do Fórum Carajás.

Fonte: Adital

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