O jeito é fazer piquete para ninguém entrar

corazonPor Luciane Recieri.

Hoje ninguém é tão interessante pra chegar de um mês a outro, bom, então guardo umas historietas na manga. Vou te contar do amor que tive. Eu era assim como você. Já tive a sua idade e não a sorte de ter um cabelo assim como o seu. Pra ficar, tinha que passar sabonete seco. Não havia dinheiro pra nada, nem pra Guerra de Guerrilhas, isso a gente juntava entre os irmãos e primos uns trocados. Eles trabalhavam numa fabriqueta e mexiam com ácido. Eram todos menores e nem pagavam insalubridade. Um dia a gente inventou uma greve, porque fomos picados pelo cinema político italiano e o dono da fábrica chamou meu pai e meu pai falou do que era aquilo e ajudou no piquete. No fim do mês ia buscar o livro votado na única livraria da cidade, isso pra continuar o que comecei lá em cima. Faço isso Helena, guardo na manga umas coisas pra parecer que sou um pouco interessante, hoje ninguém é tão interessante pra chegar de um mês a outro, bom, então guardo umas historietas na manga. E o livro era partilhado e não sobrava pro cabelo, não Helena, não tive a sorte de nascer como o vocalista do The Cure. Então, hoje se fosse fazer um cabelo como o seu, nem ia dar, porque não uso L’Oréal, sabe… a gente tem dificuldade até em comprar produtos de beleza. Eles esfolam os animais e essa dor cabe na gente e vamos andando comuns, com o cabelo que dá. Mas eu tive um amor que me calou. E amor que cala não é legal. Assim como você, desaprendi, mas no meu caso, a falar. Ficava tanto tempo sem falar que esquecia como se criava um fonema. E passava uns dias com os olhos numa distância lunar. E passava. Como não percebiam a minha mudez? Te digo porque nem com o espelho ando falando. Hoje cedo, enquanto me arrumava, não me dei nem bom dia. Ah, que não me leiam os otimistas. Gente otimista me irrita um bocado, Helena. E sabe como meu pavio é longo, não sabe? Fico tão longe da mão, Helena… A paciência voando alto e minha vontade de explodir ali na mão. Minha paciência é feita de papel de seda laranja com azul pijama. E me dão linha e como me distancio… Mas um tempo tentei ter um black power (que não me leia o menino da Filosofia que tem o cabelo mais bonito do mundo. É um dente-de-leão gigante Helena!) E te contei, não? Eu estava falando com a Fernanda e ele vinha lá de dentro. Uns quinze metros entre mim e ele, acho. E eu falei com todas as letras: – Q U E C A B E L O M A I S B O N I T O ! E ele passando por mim, passou os dedos entre uns fios meus e disse: – O seu também. Ainda bem que falei isso. Só falo o que me encanta, Helena. O que não gosto, enterro. Isso faz parte da minha alma de cachorro. Mas eu tentei ter um black power e não consegui e minha mãe diz que isso que tenho na cabeça nem é cabelo, é penugem. Bom, uma coisa é certa, eu nunca liguei pro que disse a minha mãe. Ela disse coisas legais ao longo desse tempo que me cuidou, mas disse coisas ruins também. E sabe? Das ruins só lembro dessa, do cabelo de penugem. Não levo muito a sério a oposição. Bom, sei dizer que mesmo sem black power e sendo essa coisa gris que conhece, o menino da Filosofia me achou num dia de abandono total e disse sem prévias: – Você é a mulher mais linda do campus. E nem estava mentindo, pois chamou um amigo e disse “é dela que te falo” e tive que acreditar, sei que tem muita gente bonita lá, beleza eu enxergo, mas tem quase-mentira tão boa que não custa caro acreditar. E foi bom, acho que o dia que o menino da Filosofia falou aquilo, era o pior dia do ano até agora. Por isso que te falo tanta coisa e entre tanta coisa, te peço pra acreditar. Sempre nos momentos de mudez, aparece alguém que te lê e diz: Diz sim, Helena. Te lê a boca. Te adivinha. E te salva. Mesmo não sendo, você é. Mesmo que isso não alcance de um mês ao outro, feito salário. O amor não paga insalubridade, você adoece. O jeito é fazer piquete pra ninguém entrar. Mas se entrar…

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