O fracasso do democratismo vulgar

Por Maurício Mulinari, para Desacato.info.

Algo desabou no Brasil após as grandes manifestações de junho de 2013. O grande evento político anunciou o colapso do sistema político brasileiro, que viria a naufragar de vez após o “estelionato eleitoral” promovido por Dilma em 2015 e o impeachment conduzido pela camarilha de corruptos de Temer em 2016. Ninguém mais acredita na política oficial. O povo, já há bastante tempo brutalizado pelas relações de trabalho autoritárias, pela pobreza e pela violência, não tem ideia do que seja o tão propagado Estado democrático de direito. O liberalismo está sepultado pela guerra de classes.É chegada a hora decisiva de constituirmos um novo radicalismo político dentro da esquerda, sob risco de vermos o bonde passar e sermos devorados pelo radicalismo de direita.

Marx, ao analisar os eventos que conduziram ao golpe de Luis Bonaparte na França em 1851, apontava o papel cumprido pelo partido democrático ao desarmar a classe trabalhadora para os eventos que se desdobravam. Dizia que “em vez de ganhar forças com o apoio do proletariado, o partido democrático infetará o proletariado com sua própria fraqueza e, como costuma acontecer com os grandes feitos democratas, os dirigentes tiveram a satisfação de acusar o “povo” de deserção, e o povo a satisfação de acusar seus dirigentes de o terem iludido”.

No Brasil isto aparece ao notarmos a insistência do liberalismo de esquerda em não assumir e submeter à crítica a derrota fragorosa que sofreu no impeachment de Dilma. Esquecem que o dito golpe parlamentar foi apoiado por uma parte expressiva da população, que simplesmente cansou da democracia restringida que vivemos no país desde o fim da ditadura.

Os liberais acusam o povo com os mais variados termos depreciativos. Destaca-se a frase dita exaustivamente em ambientes sindicais e partidários:“os pobres de direita merecem o que lhes está acontecendo”. Não entendem que a insatisfação profunda do povo não é com a esquerda em abstrato. Ao contrário do que pensam, não existe onda conservadora. O que está em curso é o ódio popular que emerge da guerra de classes travada pela classe dominante contra os trabalhadores, onde o aparelho de Estado atua a mando dos grandes monopólios para destruir as condições de vida da população.

Neste contexto, qualquer liderança política que assuma o papel de representante deste aparelho, que administre a guerra de classes diante do povo, é triturada rapidamente nas pesquisas de opinião. Aconteceu com Dilma e com o petismo para, logo em seguida, ocorrer com Temer, Dória e Crivella.

Neste contexto, só é possível crescer politicamente na agitação não em defesa do sistema democrático que experimentamos após 1988, mas sim contra este sistema. O sistema político apodreceu, está morrendo e não tem possibilidade de ser salvo. Dentro do sistema, apenas mais do mesmo. Reeleição das velhas raposas e continuidade da guerra contra o povo em ciclos cada vez mais radicalizados de agressão. Desta conclusão, rapidamente os representantes do democratismo vulgar saem a acusar a tese de antidemocrática e fruto de “autoritarismo populista”. Ledo engano, a única forma de preservar o ideal da democracia, o sufrágio universal, é rompendo com o caráter burguês da democracia atual. Esta não passa de uma plutocracia atuando única e exclusivamente no sentido de expropriar permanente a classe trabalhadora para manutenção das elevadas taxas de lucro, tudo isso mascarado por um fajuto véu democrático que desde 2013 está completamente desacreditado.

Romper com o velho sistema e criar um novo passam a ser necessidade histórica de primeira ordem para aqueles que militam seriamente. Não se trata aqui de horizontalismos vulgares, temperados na onda pós-moderna que inundou as universidades brasileiras. Trata-se de constituir quadros políticos com capacidade de traduzir e liderar um novo processo político comandado pela consigna da ruptura. É miopia política grave acreditar que as massas irão se mobilizar em nome das palavras de ordem democráticas orientadas pela defesa de um abstrato e ilusório “Estado democrático de direito”. A verdadeira democracia está na radicalização de seus princípios, na verdadeira democratização do poder político que só pode ocorrer com o fim da propriedade privada dos meios de produção e do monopólio da força, só pode ocorrer dentro de um novo mundo socialista.

Imagem de capa: Comunidadpiedrasvivas.

Maurício MulinariMaurício Mulinari é economista no Dieese de Santa Catarina.

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