O Egito real

Por Elaine Tavares.

01.02.2012 – A terra dos faraós sempre foi muito forte no meu imaginário. Desde bem pequena as histórias de deuses e reis daquele distante lugar na África habitavam em mim por conta de uma “estranha” mania do meu pai, que era a de comprar livros de todos os vendedores que batiam às portas de casa. Naqueles livros vinham as mais loucas narrações dos mundos mais distantes, com seus mitos e belezas. Então, era essa terra que eu tinha na cabeça quando desembarquei no Cairo, três dias antes do aniversário da chamada “revolução” que depôs Hosni Mubarak depois de 30 anos de governo. Muito do que vivia em mim foi fortalecido e outras tantas coisas se agregaram, misteriosas e fortes. O que ficou de saldo foi a certeza de que esse país milenário tem uma gente brava, corajosa, crédula e apaixonada. Nas ruas, homens e mulheres reais falam sobre seus sonhos, suas esperanças, seus medos e seus mais secretos desejos de amor. O grande território de Misr (nome original do Egito), de mais de um milhão de quilômetros quadrados, é um espaço de esperanças, mas sem ilusões. As gentes sabem que nada está dado. Há ainda muita coisa para conquistar.

O que antes não se fazia

A leva de turistas que esperava na entrada do Vale dos Reis, em Luxor, se via diante de uma novidade. O serviço de visitas estava parado. Os trabalhadores que dirigem os carrinhos que levam os visitantes até bem perto das tumbas faziam uma greve exigindo aumento no salário. Havia uma intensa algaravia, como se brigassem entre si, mas, que nada, é o jeito egípcio de protestar, falando alto e forte. Vinte homens fazem o serviço de carregar turistas durante todo o dia em carrinhos a motor, ganhando menos de 20 dólares ao mês, enquanto o estado arrecada um dólar por turista. A considerar que o número de visitantes pode chegar a cinco mil pessoas ao dia, eles entendem que é hora de levar uma fatia maior do quinhão. “Isso aí era impensável antes da revolução. Agora os trabalhadores sentem que têm direito de protestar e lutar por coisa melhor. A cada hora estoura uma greve no Egito”, comenta Abdelaziz, que trabalha como guia. Mesmo a juventude que vive de vender postais, lenços e lembrancinhas – no trabalho informal – começou a fazer exigências.

A região do Vale dos Reis é o mundo dos artesãos. Era assim no tempo dos faraós, quando dali saiam os mestres que deixaram ao mundo a beleza gravada nas pedras dos templos, e é assim agora. Cada uma das casinhas simples que se vê na paisagem arenosa é uma fábrica e a mesma arte das pirâmides segue sendo produzida dia após dia. A diferença é que antes faziam seu trabalho para os deuses, agora disputam os dólares dos turistas. Naquele lugar a vida parece congelada, como se nada tivesse mudado, mas isso é só aparente. Enquanto talham pedras e fazem desenhos, os egípcios da região de Luxor buscam vida melhor. Foi assim com Karim, de 31 anos, que tão logo explodiu a luta no Cairo, em janeiro de 2011, deixou tudo para trás e se foi a protestar. “Havia um sentimento nacional contra Mubarak, a morte do blogueiro em Alexandria no mês de dezembro de 2010 foi o estopim. A mudança já estava em curso e toda a gente queria participar”. Agora, passado um ano o que parece é que o Egito ainda está alerta. “Nada está acabado. Vamos ter de esperar para ver o que fazem os irmãos muçulmanos e ainda há que ver Mubarak numa prisão de verdade”.

O sentimento de que se pode falar e dizer não ao sistema se expressa até nos lugares mais sagrados. Zizo, morador de um pequeno povoado da região norte, conta que outro dia, na mesquita, quando o imã (sacerdote muçulmano) falava mal dos jovens que haviam morrido nos dias de luta de janeiro de 2011, um rapaz que estava rezando se levantou e gritou: “ `não fale de política no púlpito. Limite-se às coisas de Alá´. Isso é coisa que nunca aconteceu, interpelar um imã. Agora acontece. Se pode falar”. Nos dias duros da revolução 84 pessoas foram assassinadas pelas forças de repressão. São mártires e ai daquele que ousar dizer que isso não é verdade.

Nada para celebrar

O dia 25 de janeiro é um feriado nacional no Egito bem antes da vitória da revolução – celebra-se o dia da vitória das tropas egípcias contra o exército britânico em 1952 – mas, hoje, o que era uma festa da polícia virou hora da ação popular. Daí que por todo o país se armaram protestos e aglomerações. As marchas começaram nesse dia e encerraram no dia 27, sexta-feira, que é dia de descanso para os muçulmanos, o que permite que todos possam sair às praças para protestar. No Cairo milhões de pessoas foram às ruas, mas a movimentação podia ser vista em cada cidadezinha do país. As coisas ainda estão inacabadas e os motivos pelos quais morreram pessoas ainda não se cumpriram.

Muhamad M. tem 33 anos e há 12 anos trabalha no comércio de Luxor. É formado em história, mas a carreira de professor no Egito é bastante amarga e ele decidiu atuar no turismo. Nos dias de convulsão do janeiro passado também fechou seu negócio e se foi ao Cairo. “Aqui no Egito existe um dado histórico bem interessante. A cada 100 anos fazemos uma revolução. A última foi em 1922, contra os ingleses, então era certo que algo haveria de passar agora”. Ele conta que quando Mubarak assumiu o poder em 1981 o povo do Egito acreditava na sua proposta. As gentes ainda viviam em estado de guerra, por conta dos conflitos contra Israel (primeiro com Nasser, derrotado e depois com Al Sadat, vitorioso), muitos haviam morrido e tudo o que se queria era paz. E foi isso que Mubarak prometeu. “O fato é que os primeiros dez anos de governo foram bons. A guerra acabou, havia paz, ele começou a reestruturar o turismo, o dinheiro começou a entrar, havia contato com o povo, os professores, os jornalistas. Isso foi importante para nós”. De qualquer forma todo esse desenvolvimento era promovido pelas instituições financeiras estadunidenses e também a dívida externa cresceu muito. Também havia o forte apoio político dos EUA uma vez que tendo Mubarak como aliado era fortalecida a política de ocupação estratégica da porta oriental.

Em 1990, quando o Iraque atacou o Kuwait, os Estados Unidos cobraram a fatura e pediram ajuda ao então presidente. Ele imediatamente se colocou contra a invasão e mandou soldados para lutar com o Kuwait. De repente Mubarak se viu procurado por vários chefes de estado, o Egito era um espaço estratégico na proposta de destruição do Iraque encampada pelos Estados Unidos, e começou a achar que era como um faraó, filho de deus. Nesse período a dívida externa de sete bilhões de dólares foi perdoada e ele se entregou totalmente aos interesses dos Estados Unidos. “Foi nessa época que ele começou a agir como dono do Egito e já aí começaram os protestos. A coisa começou a esquentar mesmo foi no ano 2000 quando Mubarak anunciou que estava preparando seu filho, Gamal Mubarak, para assumir a presidência. Ninguém queria isso, Gamal era muito jovem, sem experiência e havia outras pessoas no Egito mais capacitadas para o cargo. Foi desde aí que começou a se gestar a revolução.”

Ibrahim Y., 44 anos, é ativista político e está na luta contra Mubarak desde o final dos anos 90. Segundo ele, os protestos e as manifestações que eram feitas até janeiro de 2011 eram pequenas e restritas aos militantes socialistas ou ligados a movimentos mais radicais como a irmandade muçulmana – que hoje controla a Assembléia do Povo. “Nos anos 90 houve ataques radicais, muita violência do estado, e depois de 2000 já fazíamos protestos nas praças, mas éramos quatro ou cinco”. Foi só depois de 2005 (ano da quinta eleição consecutiva de Mubarak) que, com a expansão da internet, uma juventude conectada começou a divulgar nos blogs e nas redes sociais as falcatruas do governo egípcio, tornando as informações que antes circulavam em ambientes restritos, internacionalizadas.

Mubarak colocou em ação as forças de inteligência e de repressão até que, em dezembro de 2010, os militares invadiram um café onde estava um jovem blogueiro- Khaled Saaed, 28 anos – conhecido nacionalmente por seus escritos críticos, e o golpearam até a morte. Foi o estopim que detonou o processo revolucionário. Milhares de pessoas saíram às ruas em protesto contra a violência das forças do governo. “No começo foi um movimento de pura raiva. As pessoas saíam às ruas exigindo justiça pelo assassinato de Khaled. Depois, com a força que ia se formando na rua, o movimento começou a se politizar. O povo foi vendo que dava para exigir mais. Mubarak era um ladrão, estava esgotando o Egito. Desde aquele momento, os egípcios entendiam que era hora de ele deixar o poder”.

A revolução ainda não se cumpriu
O que se viu no Egito no mês de janeiro de 2011 o mundo todo acompanhou. Milhões nas ruas, acampamentos gigantescos, revide violento da ordem, até que em fevereiro, depois de muitas mortes, feridos e presos, a força popular logrou depor o homem que governara por 30 anos e que preparava seu filho mais velho para outra fase da “dinastia”.   Desde aí o país foi se preparando para uma nova fase, com eleições diretas, escolha de uma Assembleia do Povo e preparação de nova Constituição. Mas, o que aparecia como uma grande vitória popular foi tendo outras feições. Uma junta de governo provisória foi formada por militares, coisa que não agradou ninguém. Por conta disso os protestos voltaram a acontecer. Além disso, familiares dos jovens mortos durante o conflito seguem acampados na Praça Tahrir exigindo julgamento e condenação do ex-presidente. Mubarak, que já tem mais de 80 anos, foi preso, mas, como dizem os egípcios, está num “cárcere de ouro”, com todas as regalias.

O processo de eleição dos membros da Assembleia do Povo foi demorado e só terminou neste janeiro com a instalação oficial. O Egito é dividido em 27 províncias e em cada uma delas as eleições aconteceram separadamente em várias etapas. A eleição presidencial só virá em junho, embora haja muita manifestação pela antecipação do processo. Os egípcios não querem mais saber de ser governados por militares.

Por outro lado, coisas muito sutis foram acontecendo durante o ano que passou. Por ser um partido bem mais organizado e com vida anterior muito presente na vida nacional, a Irmandade Muçulmana logrou maioria (71%) nas cadeiras da nova Assembléia do Povo que tem 508 membros, dos quais apenas dez são mulheres. Desse número, 100 serão escolhidos para preparar a nova Constituição e isso promete novos embates. Com a vitória avassaladora dos muçulmanos nas eleições e sua consequente hegemonia há o risco de o país entranhar na vida política nacional os pressupostos religiosos. Tanto que no dia da instalação da Assembleia, Mamdouh Ismail, membro do partido salafista Al-Asala fez o seu juramento dizendo: a Assembleia do Povo construirá uma nova constituição que será respeitada, desde que não se coloque contra o Corão (livro sagrado dos muçulmanos). Houve tumultos, gritarias, confusões e protestos dos liberais (que detêm 17% das cadeiras), o que mostra que esse não será um embate fácil. Comenta-se que os muçulmanos teriam feito um acordo tácito com a junta militar garantindo que o parlamento vai interferir sobre os assuntos do exército e em contrapartida que o exército não interferiria na redação da nova Constituição. Isso não é desconhecido de boa parte dos militantes sociais, mas a maioria da população não tem acesso a essas “filigranas” do poder. Muita água vai passar por baixo dessa ponte.

Entre os que estiveram nas ruas para depor Mubarak o sentimento é de esperança e esses “detalhes” não parecem importar, até porque as gentes são muito religiosas e não veem mal nenhum que o Corão comande a vida. “Nós já experimentamos o comunismo (Nasser), não deu certo. Al Sadat não deu certo. Depois tentamos Mubarak, também não deu. Agora vamos dar uma chance aos muçulmanos. Se eles não fizerem o que tem de ser feito a gente tira eles”, diz Muhamad.

Já entre os militantes de organizações sociais mais antigas o ceticismo é bem explícito. “O povo votou nos muçulmanos porque não teve como conhecer a ideia dos demais grupos. No Egito, o candidato precisa de muito dinheiro para fazer uma campanha política. Nossos grupos não tiveram como bancar. Como os muçulmanos estavam mais solidamente organizados, tiveram mais recursos. Foi a vitória do dinheiro”, diz Mustafa H. Além disso, os muçulmanos fizeram uma campanha vinculando-se a uma oposição ferrenha a Mubarak, coisa que não é bem verdade, conta Mustafa. “Durante o governo de Mubarak a irmandade fez muitos acordos, não é tão oposição assim. Mas, vamos ver o que vai dar. Aguardaremos vigilantes, prontos para atuar”.

De certa forma esse ceticismo se expressou muito claro nas manifestações do aniversário da revolução. No dia 27, quando a Praça Tahrir estava tomada por mais de quatro milhões de pessoas foi possível observar três grupos bem determinados. O dos muçulmanos, o dos civis/liberais e os socialistas. Sem sombra de dúvidas os dois últimos formavam maioria. Quando os líderes muçulmanos tentaram discursar falando em “celebração”, as vozes se ergueram. Não há celebração. Nada se cumpriu. Mubarak não foi condenado, não teve eleição presidencial, não tem Constituição. “O que há é o processo em curso”, insiste Ibrahim. “Nós não queremos cortar cabeças, nem o terror. Nós queremos paz, mas queremos que os responsáveis pelos massacres do povo sejam julgados e condenados. Há muitos generais de Mubarak ainda por aí, dentro do exército”.

De fato, boa parte dos ministros e estado maior de Mubarak está encarcerado, mas muitos conseguir fugir para os Estados Unidos ou outros países. Um dos mais odiados é Zahy Hawas, que durante 15 anos dirigiu o Museu do Cairo, e que está abrigado nos EUA. “Esse homem roubou muitas riquezas do nosso povo, é o rei dos ladrões. Nos dias de conflito na Praça Tahrir foram seus homens que atearam fogo no museu e foram eles que roubaram objetos valiosos. O que desapareceu do museu foram obras bem específicas, muito cotadas, coisa que só ele poderia saber. Ele fugiu para os Estados Unidos, o grande ladrão ocidental. Foram os homens de Mubarak que saquearam e incendiaram. Não foi o povo”.

Isso é o que conta Neder Y, de 43 anos. Segundo ele, nos dias de conflito Mubarak mandou soltar da prisão centenas de criminosos, os armou e os mandou atuar contra o povo. “Naqueles dias a gente montava barricadas em frente aos monumentos para protegê-los, os trabalhadores protegiam os hotéis, os turistas. O povo foi quem protegeu as riquezas do Egito. Os saqueadores foram os homens de Mubarak, inclusive foram eles que incendiaram a biblioteca. Tem provas. Nós aqui amamos nossa história, respeitamos o patrimônio cultural”. Essa proteção também foi organizada nesse janeiro de 2012 quando a Biblioteca de Alexandria e o Museu do Cairo estiveram fechados, guardados pelos guias de turismo e gente do povo, visando impedir qualquer ato de vandalismo pelas forças aliadas a Mubarak.

A história seguirá seu curso

O Egito é um gigante de riquezas e belezas. Sua cultura remonta há mais de cinco mil anos, tem um milhão de quilômetros quadrados de território bastante cobiçado, está numa posição estratégica, na entrada do mundo oriental. Detém o canal de Suez, tem saídas para dois mares, o Mediterrâneo e o Vermelho, é o quinto no mundo em produção de gás, tem bastante petróleo, possui centenas de minas de ouro, produz o melhor algodão do mundo, movimenta um fluxo de 14 milhões de turistas ao ano. Dentro do país está o rio mais longo do mundo, o Nilo, detém a quarta maior represa e o maior lago artificial do planeta, o Nasser, com 500 quilômetros de largura. Dos seus 85 milhões de habitantes, 67% estão na faixa etária de 18 a 40 anos. É feito de gente jovem e ávida de mudanças. “Nós vamos dar uma chance aos muçulmanos. Vamos esperar dois anos. Ver o que fazem. Não vamos tolerar alianças com os Estados Unidos, eles roubam nossas riquezas e nos deixam dívidas. Nós queremos trabalhar, produzir, desenvolver o país. Queremos uma vida melhor para nossos filhos e netos. Esse é o desejo dos egípcios. Simples assim”.

Para os que ainda seguem vigilantes nos protestos, nas praças, nas ruas, é fato de que o Egito está vivendo uma nova fase, apesar de todas as incógnitas. “Nós mudamos tudo, tiramos os políticos, os jornalistas, os professores. Começamos uma nova época. Estamos ensinando nossas crianças a partir de novos pressupostos, vamos recomeçar, vamos fundar a Segunda República”, diz Ibrahim. Ele mostra que conhece a política internacional e diz gostar muito de Lula (ex-presidente brasileiro). “A nós, falta um líder como Lula, que unisse o país. Mas, ainda assim, se houvesse um, não permitiríamos que cometesse o erro que Lula cometeu. Lula deu dinheiro para os pobres (bolsa-família), e isso não é certo. Não somos animais para só comer. Precisamos é de oportunidade, trabalho. Garanta o trabalho e nós seguimos em frente”.

E assim segue o Egito, cheio de esperanças e contradições. Junho já está às portas, muitos são os pré-candidatos à presidência, mas a lógica eleitoral é bastante viciada. Como é o dinheiro quem dá as cartas parece quase certo que aqueles que comandaram o processo de mudança, inclusive dando as vidas, não serão os que hegemonizarão o poder. O que virá será uma nova experiência que os egípcios enfrentarão com a valentia de quem acredita no “maktub” (destino).  Embora nas ruas se possa perceber claramente que existe uma juventude disposta a fazer o destino acontecer com as próprias mãos.

Imagem tomada de: sergyovitro.blogspot.com

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