‘O banquete’: os arquétipos da alta sociedade brasileira em tempos de ebulição política

Imagem: Reprodução.

Lançado logo após o polêmico Vazante (2017), longa que trouxe à baila a discussão sobre a representação racial e do escravismo na sociedade brasileira e que causou discussão por expor feridas a partir do olhar de uma diretora branca, Daniela Thomas dá um salto na história do Brasil e contempla em O banquete (2018) o país em tempos políticos conturbados do governo do ex-presidente Fernando Collor de Mello, no início dos anos 1990 – e que, talvez não por coincidência, muito se assemelha à situação política do país na contemporaneidade.

Sem coincidências mesmo. A diretora, que já escalou na direção cinematográfica inclusive com Walter Salles no renomado Terra estrangeira (1995), escrevia o roteiro de O banquete há vinte anos. Decidiu colocar as mãos na massa apenas nos últimos anos, quando os escândalos político-midiáticos no Brasil viraram quase que rotina. O filme, que teria sua estreia no Festival de Gramado de 2018, acabou não sendo lançado devido ao falecimento do diretor de redação da Folha de São Paulo, Otávio Frias Filho, que esteve envolvido nas denúncias de Collor por meio de uma carta aberta do jornal, fato que é basicamente o pano de fundo do longa-metragem.

‘O banquete’ é uma bela representação dos imbróglios existenciais da elite intelectual brasileira dos anos 90.

A trama se passa num jantar entre oito amigos – todos ligados de alguma forma a uma revista de alcance nacional – em um jantar de comemoração ao aniversário de dez anos de casamento do jornalista Mauro (Rodrigo Bolzan) e a famosa atriz Bia (Mariana Lima) na casa do casal de anfitriões Nora (Drica Moraes)  e Plinio (Caco Ciocler). Com exceção do garçom que serve o jantar, interpretado por Chay Suede, sempre à espreita assistindo os dramas pessoais de cada um dos personagens se entrelaçando, todos os outros personagens são filmados como se estivessem em uma vertiginosa conversa em pingue-pongue.

São advogados, um colunista, atrizes, jornalistas, todos pertencentes à casta bem-favorecida da burguesia e da intelectualidade brasileira, que entre um vinho italiano caro e humor ácido, assistem em silêncio à derrocada do amigo jornalista que está prestes a ser preso devido a ter escrito uma carta aberta contra um presidente corrupto – o verdadeiro elefante branco da sala de jantar. Com uma óbvia referência à obra de Platão no nome, há uma vibrante dialética entre os personagens, especialmente relacionada a questões morais e éticas diante dos defeitos e qualidades de cada um deles. A escolha de uma mise-en-scène quase que claustrofóbica certamente contribui para ampliar essa sensação.

O filme de Daniela Thomas poderia muito bem cair no clichê de filmes estereotipados, trabalhando com arquétipos rasos e unilaterais, como acontece em muitos filmes de Sérgio Bianchi, por exemplo. Ao invés disso, a diretora prefere investir em diálogos quase que teatrais e cortes certeiros, demonstrando tremenda habilidade não apenas como diretora, mas também no planejamento do elenco.

Apesar de entrar no escalão de filmes políticos que fazem parte do rico cenário cinematográfico brasileiro dos últimos anos, O banquete, no fundo, se enquadra mais como bela representação dos imbróglios existenciais da elite intelectual brasileira dos anos 90 – em muito inspirada na obra Entre quatro paredes, de Jean-Paul Sartre. Com uma estética afinada, que remonta os icônicos filmes de Walter Hugo Khouri, como Noite vazia (1964), longe de engajamento político de representações sociais de minorias, o filme parte para outro extremo. E mostra que o inferno realmente são os outros.

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