No fim do mundo de Alice Juruna tem Peppa Pig

Impactados por Belo Monte, ameaçados por Belo Sun, os indígenas da Volta Grande do Xingu acordam a cada dia com o temor de que a catástrofe final chegará no próximo segundo

No fim do mundo de Alice Juruna tem Peppa Pig

É difícil explicar o que é etnocídio.  Morte cultural de um povo.  Parece sempre abstrato, coisa de antropólogo.  Mas Luane Alice pode nos contar como um jeito de ser e de estar no mundo morre.  E contar também que é bem menos abstrato do que parece.  Há menos de dois anos, em setembro de 2015, a canoa onde eu navegava na Volta Grande do Xingu alcançou Muratu, a aldeia dos Juruna.  Crianças indígenas saltavam do barranco para o rio, numa alegria que há muito eu não via em crianças urbanas.  De fato, talvez nunca tenha visto em crianças urbanas.  Por alguns instantes, elas voavam.  Foi num ponto deste voo que o fotógrafo Lilo Clareto congelou a imagem de Alice, a mais animada delas.  Hoje, a imagem segue existindo como arte.  E como documento.  Mas a vida já não existe.

Alice Juruna, em fotografia de 2015, salta para mergulhar no rio Xingu. LILO CLARETO

Em 24 de março, reencontrei Alice, agora com nove anos.  Ela e os irmãos estão proibidos de se aproximar do Xingu.  “Nunca mais que nos banhamos neste rio”, diz Alice.  Eu pergunto o porquê.  “Não sei”, responde zangada.  É sua irmã, Juliana, 12 anos, que responde: “Não pode mais ir pro rio porque tá dando doença.  Antes a gente brincava na cachoeira grande que tinha, brincava com os meninos, nós ficava tudo junto.  Agora não tem rio, então a gente só fica em casa”.  Juliana conta também que a água mudou, ficou suja, e agora dá coceira.  E conta do medo: “A gente tem medo do rio, porque a qualquer hora a barragem pode estourar”.  Morrer, tragado por uma onda gigante, como aconteceu em Mariana, no rompimento da barragem do Fundão, é o pesadelo que os Juruna e os ribeirinhos da Volta Grande do Xingu vivem acordados desde que a Usina Hidrelétrica de Belo Monte começou a operar.

A paisagem das crianças da aldeia Muratu hoje é uma tela de TV.  Quando não estão na escola, os pequenos indígenas passam a maior parte do dia assistindo a desenhos.  Me contaram que gostam de Peppa, a porquinha cor de rosa, de Masha e o Urso, de Elena de Avalor, de Bob Esponja, de Jovens Titãs, de Camp Lakebottom.  Quando não estão vendo TV, brincam de amarelinha na varanda da casa.  Às vezes jogam lama uns nos outros.  A TV, que antes era um lazer acessório, tornou-se o centro da infância de meninos e meninas indígenas que vivem na floresta amazônica, à beira do Xingu.  A fotografia deste momento, a que conta da vida como a vida é, hoje, para as crianças da Aldeia Muratu, é esta.

Em foto de 24 de março de 2017, Alice (sentada) assiste a desenhos na TV, hoje principal lazer das crianças indígenas, proibidas de se aproximar do rio. LILO CLARETO

O acontecimento entre uma fotografia e outra foi a operação da usina de Belo Monte. Em novembro de 2015, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis deu a licença de operação da usina. O Ibama deu a permissão apesar de parte das medidas de proteção, que garantiriam a manutenção e a reprodução da vida na região de impacto, não terem sido cumpridas. E a existência na Volta Grande do Xingu tornou-se incerta.

Alice, seus irmãos e primos não compreendem o gigantismo da obra, os cifrões dos interesses envolvidos, as mais de 20 ações movidas pelo Ministério Público Federal contra Belo Monte e o Estado, as suspeitas de corrupção na construção da usina investigadas pela Operação Lava Jato, a criminosa omissão de órgãos do governo que deveriam proteger a eles e à Amazônia. Não. Para eles havia o Xingu. E agora há Peppa Pig.

Sem peixe e sem rio, mas com miojo

É nesta troca de paisagem que a morte de uma forma de vida pode ser melhor compreendida. As crianças Juruna vivem no coração da floresta amazônica, à beira de um dos rios mais fabulosos do Brasil, ocupado comprovadamente por seus antepassados há séculos. Mas não têm acesso à água, porque o rio mudou, os peixes apodrecem, quem ali se banha tem coceira no corpo. E vivem apavoradas pelo rompimento da barragem. E não têm acesso à floresta porque o sistema de proteção não funciona e a terra indígena é seguidamente invadida. Os pequenos Juruna não têm rio, não têm floresta, não têm peixe e há grandes chances de não terem futuro. Mas as crianças Juruna têm Peppa Pig.

E têm Miojo. A “sopinha”, como alguns chamam o macarrão instantâneo na aldeia, é com frequência a refeição de vários dias numa mesma semana. Um monitoramento feito numa parceria dos Juruna com o Instituto Socioambiental e a Universidade Federal do Pará mostrou que, em 2013, o peixe representava 57% da alimentação na aldeia e alimentos da cidade (carne bovina e de frango, enlatados etc) respondiam por 23%. Em 2016, o peixe caiu para 36% na composição alimentar dos indígenas, e os alimentos da cidade passaram a representar 52%. É uma mudança drástica num curto espaço de tempo, e os efeitos sobre a saúde recém começam a aparecer. Em 2017, é possível que a presença do peixe nas refeições se reduza ainda mais, já que a pesca está cada vez mais comprometida na Volta Grande do Xingu.

Durante três anos, entre outubro de 2013 e setembro de 2016, os Juruna pescaram 8.629,486 quilos de peixe. Mas, em apenas oito meses, entre novembro de 2015 e junho de 2016, morreram mais do que o dobro desta quantidade somente na região de Bela Vista, Pimental, Belo Monte e Canal: 19.971,63 quilos de peixe. A construção de Belo Monte e a alteração do rio provocaram uma repentina desorganização no modo de vida ancestral dos indígenas e, como consequência, uma situação de insegurança alimentar.

Em 21 de março, a procuradora da República em Altamira, Thais Santi, promoveu uma audiência pública para debater a garantia de vida na Volta Grande do Xingu. A Norte Energia, empresa concessionária da hidrelétrica, não compareceu para discutir os impactos e responder às perguntas. Permaneceu a cadeira vazia, como símbolo desta ausência.

Bel Juruna, a nova voz feminina do Xingu

Alice, a menina que saltava no rio e agora vê desenhos na TV, é uma entre quatro filhos de Bel Juruna, 29 anos, uma liderança ascendente na região do Médio Xingu. Quando Bel pega o microfone nas reuniões e audiências públicas, costuma ser ovacionada. As mulheres levaram preocupações novas à denúncia dos impactos promovidos pelos grandes empreendimentos na Amazônia. E estas novas preocupações, como a mudança da alimentação e o adoecimento, alteraram a dinâmica da luta. “Eu fui criada pelo meu pai comendo peixe com farinha. E estava criando meus filhos assim. A gente não precisava de muito dinheiro. Agora, que não tem mais peixe, a gente precisa de dinheiro. E as crianças estão comendo carne de boi e frango que a gente compra na cidade, enlatados, salsichinhas e miojo, que é o que mais tem por aqui. E estão adoecendo”, diz. Bel, que é agente de saúde e estuda para ser técnica em enfermagem, conta que aumentaram os casos de hipertensão, diabetes, “caroços” (cálculos no rim) e já surgiu um caso de obesidade na aldeia.

Como agente de saúde, ela conversa com as famílias para reduzir o consumo de refrigerantes e outros produtos industrializados. Mas não é apenas uma questão de escolha. Hoje, o pacu, principal peixe da alimentação tradicional dos Juruna, quase sumiu. E aqueles exemplares que são pescados estão muito magros. O peixe mais presente na aldeia, neste momento, é sardinha em lata.

Quando peço para Bel abrir os armários da cozinha de sua casa, encontramos ali pilhas de latas de sardinha e de pacotes de miojo, assim como caixinhas de creme de leite e pudim instantâneo. No freezer, não há um único peixe. Apenas frango e carne de gado. Nada isso existia há bem poucos anos atrás. “Estou tentando ensinar minha filha mais velha a cozinhar outras coisas, já que ela só sabia preparar peixe”, conta. “Mas, como tenho que ir a muitas reuniões, por conta dos empreendimentos, meus filhos comem miojo. Se vou a reuniões três dias seguidos, são três dias seguidos de miojo.”

Antes de Belo Monte, a roça dos Juruna era pequena, apenas para produzir a farinha para comer com o peixe. Agora, como o peixe está escasso, os Juruna confrontam-se com a imposição de plantar roças maiores. Eles, que por séculos foram pescadores, têm que se tornar agricultores na marra. Mudanças que levariam gerações são impostas num período curtíssimo. Mas o que são obrigados a ser não é o que são. Como avaliar um impacto desta enormidade sobre um povo tradicional?

O extermínio do modo de vida penetra nas frestas do cotidiano. O filho mais novo de Bel, Maykawa, tem três anos. Ele deveria estar aprendendo a pescar. Mas o rio, neste momento, é vetado para ele. E não há nenhuma segurança sobre o futuro do Xingu na Volta Grande. Deitado no chão da sala, o menino assiste à TV com Alice.

Na época da seca, a alteração do meio ambiente produzida por Belo Monte provocou uma infestação de carapanãs, uma espécie de mosquito, como já aconteceu após barragens como Balbina e Tucuruí. Adultos e crianças tiveram que se trancar em casa. Até mesmo o futebol foi suspenso, porque ninguém aguentava ficar do lado de fora. Para se proteger, os indígenas usaram inseticidas dentro das casas fechadas, correndo o risco de intoxicações. Agora, é época da cheia, e a água avançou para muito além do que estava previsto. Tudo o que os Juruna sabiam, pelo conhecimento transmitido de uma geração a outra ao longo de séculos habitando a Volta Grande do Xingu, está suspenso, o que também tem sido um elemento de desintegração da vida.

É sobre essa região, alterada por um impacto cuja dimensão só será conhecida nos próximos anos, que avança outro projeto gigantesco, este também já questionado na Justiça: a mineração da empresa canadense Belo Sun, com a extração de toneladas de ouro e a produção de rejeitos tóxicos. Se Belo Sun avançar, será um impacto sobre outro impacto. É a vida do pequeno Maykawa, sim, o que já seria suficiente. Mas não é só a vida de Maykawa. Qualquer impacto na região amazônica ecoa no Brasil e no planeta. Uma verdade que, por falta de conexão e educação, os brasileiros parecem se recusar a perceber. Por que não se escuta o que o conhecimento produz e parte da imprensa denuncia? Como na música de Cartola, ao se omitir diante da destruição sistemática da floresta amazônica, justamente no tempo da mudança climática, os brasileiros cavam o abismo com seus pés.

A Muratu, aldeia com 21 famílias, 71 habitantes, nasceu no processo de divisão dos indígenas provocado pela implantação de Belo Monte. Os Juruna ocupavam a mesma aldeia na Terra Indígena Paquiçamba, na Volta Grande do Xingu. Mas a família de Bel Juruna discordou da condução das negociações com a Norte Energia e, em 2011, decidiu abrir uma nova aldeia no mesmo território. Em regime de mutirão, derrubaram o mato, abriram a clareira e ergueram as primeiras casas.

Ao fazerem o parto da aldeia lado a lado com os homens, as mulheres conquistaram um novo lugar simbólico. “Aqui nesta aldeia a gente já teve o empoderamento das mulheres”, diz Bel Juruna, que ao participar de encontros de mulheres no Brasil e na América Latina para debater a Amazônia, adotou jargões do feminismo. Pergunto a ela se busca inspiração em alguma mulher que admira, ela responde: “Me inspiro em mim mesma, na minha própria vida”. Depois, conta que se aconselha também com Antonia Melo, coordenadora do movimento Xingu Vivo Para Sempre e uma das maiores lideranças populares do Médio Xingu. Evangélica, Bel diz que permanecerá na igreja enquanto for respeitada naquilo que é: “Eu acredito em Deus, mas a religião que eu sigo não vai me tirar do povo que eu sou”.

No Carnaval, Bel Juruna foi uma das lideranças que desfilou a convite da Imperatriz Leopoldinense, escola de samba que denunciou no sambódromo a destruição do Xingu e de seus povos, provocando uma reação truculenta de setores do agronegócio. “Eu nem gosto muito de dançar, mas fiquei feliz com o convite, porque fortalece a nossa luta”, diz Bel. “A luta dos povos indígenas é muito mais ampla do que aqui, agora, porque todos precisam da Amazônia e quem preserva a floresta somos nós. Se um dia tirarem essas terras indígenas, acho que o mundo vai se acabar de quentura.”

O irmão de Bel, Gilliard Juruna, é o cacique da aldeia e uma das vozes mais fortes do Médio Xingu. Mas Bel já foi vice-cacique e só deixou a liderança para terminar o curso de enfermagem. A primeira vez em que ela se arriscou a falar em público, ao pegar o microfone chorou. Não conseguiu falar uma única palavra. Mas seguiu tentando. “Eu ainda sinto um avexame nos peitos quando tenho que falar. Mas falo. O meu momento é pouco, mas esse pouco eu gosto de aproveitar.” E aproveita. Hoje, quando ela pega o microfone, as reuniões mudam de tom.

Foi assim na audiência pública da Volta Grande do Xingu, que mobilizou muitas forças e gerou expectativas, mas, ao contrário de outras, foi marcada por desorganização e pouca efetividade. Bel ficou observando a representante de Belo Sun. E, quando se levantou, apontou o dedo diretamente para ela: “Vou me direcionar aqui a essa moça de Belo Sun. Tou olhando ela aqui, e ela tem um olhar de deboche”.

Bel Juruna, exigindo a atenção da representante da mineradora canadense Belo Sun, em audiência pública de 21 de março de 2017, em Altamira, Pará. LILO CLARETO

A guerra dos nomes e das almas

A canadense Belo Sun batizou seu gigantesco projeto de mineração de ouro na Amazônia brasileira de “Volta Grande”. Os Juruna exigem que mude o nome do projeto, deixando explícita a sua vocação privada e capitalista. “É um projeto da Belo Sun, e não da Volta Grande”, disse Gilliard. “Como cacique, eu exijo que mude esse nome.” A reivindicação ecoa um episódio com grande simbolismo na região. No passado, quando ainda era um projeto, Belo Monte tinha outro nome: Kararaô, grito de guerra dos Kayapó. Os indígenas denunciaram que um projeto de destruição não poderia ter um nome tão caro à sua cultura – e Kararaô virou Belo Monte.

Bel explica: “Esse nome nos humilha muito. Porque Volta Grande é vida pra nós. E este é um projeto de destruição. Da natureza e do nosso meio de vida. Sei que mudar o nome do projeto não muda o projeto, mas pelo menos parece que sai essa humilhação de cima de nós. Eles vão tirar esse ouro, deixar essa barragem de rejeitos enorme, com bastante produtos químicos, e ainda querem manter esse nome que é vida pra nós?”.

Quando Bel dá entrevista, ela fala baixinho. Às vezes olhando para o chão. Pergunto a ela de onde vem a voz forte, eloquente, que ecoa na esfera pública. Ela ri. “Vem da raiva. Raiva daquelas pessoas com aquela conversinha de sempre. A gente vai com o anseio de ter resultado, e eles não respondem à expectativa da gente. Tem hora até que dá vontade de fazer besteira e largar a mão num cara daqueles. A gente vivendo a coisa, e eles dizendo que a gente tá mentindo. Aquela moça da Belo Sun tava coisando no celular enquanto as pessoas falavam. A gente se prepara, fica ansioso, vai até lá com dificuldade e a pessoa nem ligando, com aquele sorrisinho de deboche. É raiva. Em reunião eu falo braba.” E fala mesmo.

Parece ser um traço de família.  Não só Bel e o cacique Gilliard, mas também seu irmão Jailson, que empunha a câmera para registrar as reuniões.  Os Juruna de Muratu entendem que precisam produzir sua própria documentação, se quiserem que sua história seja contada com verdade, e gravam as palavras dos brancos para confrontá-los quando tentam negar os compromissos que afirmaram.  A certa altura da audiência, o pesquisador Juarez Pezzuti, do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará, apresentava sua análise dos impactos de Belo Monte, sobre a pesca e a fauna aquática, mas os representantes do Ibama, órgão que deveria estar zelando pelo meio ambiente da região e pelo cumprimento das condicionantes da hidrelétrica, conversavam entre si, sem prestar atenção à exposição.  Jailson saiu de trás da câmera e deu um berro, repreendendo os técnicos como se eles fossem crianças de colégio.  Esta é uma característica das audiências sobre os grandes empreendimentos no Xingu.  Indígenas e ribeirinhos imprimem um estilo próprio e não toleram desatenção e o que chamam de “conversinha”.  Deixam claro que “o ritmo da fome não é o da burocracia”.

Jailson Juruna, da Aldeia Muratu, usa a câmera para documentar as reuniões públicas e registrar os compromissos assumidos pelos “brancos”. LILO CLARETO

Muratu, extermínio e resistência

Quando se observa a aldeia encurralada, ao mesmo tempo às margens do rio e apartada do rio, compreende-se de imediato a tragédia. Mas é necessário mergulhar mais fundo para compreender o que é ser um Juruna. E então a tragédia se amplia. Juruna é um nome dado por outros. “Yudjá” é o nome que eles mesmo se dão. E o nome contém o rio. Yudjá significaria algo como “dono do rio”, ainda que não com o sentido de propriedade que a palavra “dono” tem na língua portuguesa, já que de certo modo é o rio que é dono deles. Os Yudjá ou Juruna se veem como os grandes navegadores e pescadores do Xingu. E por séculos foi exatamente isso o que foram. Assim, ser Juruna sem o rio é experimentar um tipo de morte. Quando o pequeno Maykawa não pode aprender a pescar porque o rio se tornou proibido para ele, o que se nega ao menino é uma enormidade.

Muratu, nome desta aldeia dissidente, vem de um personagem histórico. Quando a perseguição e a matança promovida pelos brancos, em especial na época da exploração da seringa, ameaçaram a própria existência física dos Juruna, a maior parte deles fugiu para a região que se tornaria o Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso. Para compreender a dimensão do extermínio, em 1842 havia 2.000 Juruna. Menos de um século depois, em 1916, eles eram 52. Apenas 12 pessoas, conforme é contado no PIB (Povos Indígenas do Brasil), permaneceram na região da Volta Grande, sob a liderança do tuxaua Muratu, refugiados junto à mítica cachoeira do Jericoá.

O cacique Gilliard Juruna, da Aldeia Muratu, em foto de setembro de 2015, antes da alteração do rio, na região da cachoeira do Jericoá, na Volta Grande do Xingu. LILO CLARETO

A família de Bel, assim como todos os Juruna que hoje lutam pela vida na Volta Grande do Xingu, são descendentes deste núcleo de resistência. Hoje fazem intercâmbio com os parentes que migraram para o Mato Grosso, já que foi lá que a transmissão do conhecimento ancestral se manteve devido à proteção do parque. Os Juruna que permaneceram na Volta Grande sofreram uma violenta repressão e agora reaprendem a própria língua. A cachoeira do Jericoá, que os protegeu no passado, é onde no presente Juliana lamenta não poder mais brincar.

Os jogos do poder

É paradoxal que justamente hoje esse enclave de resistência esteja novamente sob ameaça. Pela Constituição de 1988, nenhum povo indígena pode ser removido de sua terra. Mas os impactos de Belo Monte, como já se torna bastante visível, começam a tornar a vida cada vez mais difícil para os Juruna e outros povos. Se Belo Sun avançar, o impacto sobreposto terá consequências impossíveis de dimensionar neste momento, já que é preciso esperar pelo menos seis anos de monitoramento para compreender apenas o impacto de Belo Monte. Sem esquecer que a usina só deverá estar concluída em 2019. Neste momento, a Volta Grande do Xingu está em plena transfiguração.

Qualquer pessoa, por menos informação que tenha, entende que não é possível sobrepor um novo empreendimento quando sequer se conhece as consequências do empreendimento anterior, numa região estratégica para os povos tradicionais e para o meio ambiente, em plena floresta amazônica e em tempos de mudança climática. Mas esta obviedade tem sido ignorada no processo de licenciamento de Belo Sun, feito pelo governo do Estado do Pará.

Na audiência pública, a representante da Fundação Nacional do Índio (Funai), Janete Carvalho, fez uma declaração forte: “A equipe técnica da Funai tem se debruçado muito sobre a Volta Grande por ser uma região tão sensível, onde está o impacto mais significativo do processo de Belo Monte. A análise de Belo Monte suscita dúvidas sobre o suporte da vida hoje. E então surge um novo empreendimento na região, para confundir um pouco mais, que nos preocupa muitíssimo. A recomendação da Funai era de que o empreendimento da Belo Sun não fosse licenciado até o fim do monitoramento da Volta Grande”. Mas a recomendação da Funai foi ignorada pelo governo do Pará.

A Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Estado do Pará argumenta que as terras indígenas estão a mais de 10 quilômetros do local de mineração, parâmetro usado para estabelecer “impacto direto” sobre povos tradicionais. Janete rebateu esse argumento na audiência: “Eu quero dizer para vocês que 10 quilômetros não é nada quando se trata de mineração e Volta Grande do Xingu. Mesmo que as terras indígenas estivessem a 500 quilômetros de distância, a Funai ainda se manifestaria. Por quê? Eu tenho um exemplo claro, prático e real. A terra indígena mais próxima da barragem do Fundão, em Mariana, fica a mais de 300 quilômetros. E desde novembro de 2015 o povo indígena Krenak não tem água potável suficiente. A mais de 600 quilômetros da barragem do Fundão tem o povo Tupiniquim, e também foram afetados pela contaminação do Rio Doce. E na Volta Grande, num trecho de vazão reduzida, com os recursos hídricos já escassos por conta da hidrelétrica, qualquer acidente seria etnocídio. Nós temos sérias dúvidas sobre a viabilidade de Belo Sun. A montanha de rejeitos vai ser enorme. No próprio documento, é informado que, durante a operação do empreendimento, a barragem pode romper pelo menos uma vez. Está escrito lá. Os Juruna colocaram que já estão escaldados com o processo de Belo Monte. Belo Sun não vai ser assim. Vamos apoiar os Juruna no protocolo de consulta. Consulta livre, prévia e informada. O presidente da Funai assumiu o compromisso de entrar com uma ação para que os direitos dos povos indígenas sejam respeitados”.

A fala é contundente, mas a Funai vive um contínuo processo de desmonte que se iniciou no governo de Dilma Rousseff e segue de forma acelerada no governo de Michel Temer. “Eu não vejo grandes resistências aos projetos, o que eu vejo é insegurança naquilo que vai ser feito e por isso o Estado criou um centro de monitoramento ambiental, com ferramentas para monitorar todas as agendas trabalhadas na questão ambiental. Isso traz segurança durante o processo de licenciamento”, manifestou-se o secretário de Meio Ambiente do Pará, Luiz Fernandes, usando um comentário genérico, recurso tão característico de autoridades da área.

O secretário quase não foi pressionado durante a audiência e se manteve muito à vontade, apesar de todos os questionamentos judiciais ao licenciamento que lidera. Tão à vontade que afirmou que seu corpo técnico dava conta de toda a complexidade do projeto, mas quando chegou o momento de responder às perguntas difíceis, passou a palavra aos representantes da Belo Sun, sem que isso fosse sequer questionado. Como o tempo já tinha se esgotado, a audiência terminou sem que o projeto da Belo Sun fosse de fato debatido e iluminado. Defensores do empreendimento da Belo Sun temiam que a audiência fosse uma bomba contra a mineração de ouro na região impactada por Belo Monte, mas foi um traque. Ao final, ouviam-se comemorações nem tão discretas.

Trauma e Catástrofe

Na Volta Grande do Xingu, o território concreto onde a vida se dá dia após dia, longe dos jogos de poder de Brasília e Belém do Pará, os Juruna da Aldeia Muratu vivem com a sensação permanente de catástrofe. Esta não é uma figura retórica, mas um pesadelo cotidiano. Os indígenas acreditam, como a maioria dos habitantes da região, que a barragem pode romper a qualquer momento e afogá-los, como aconteceu em Mariana, em 2015, causando um dos maiores acidentes socioambientais da história do Brasil. Esse pavor se espalhou logo no início da operação de Belo Monte. Com a descoberta de que o engenheiro que assinou o relatório atestando a viabilidade e segurança de Belo Sun é o mesmo que fez o laudo da barragem do Fundão, em Mariana, o medo do presente e do futuro se sobrepuseram. “Eu não tenho pesadelo quando durmo”, diz Bel Juruna. “Minha vida é um pesadelo.”

No início de 2016, os Juruna denunciaram que um grande volume de água foi repentinamente liberado pela usina de Belo Monte durante a noite, sem qualquer aviso prévio, carregando embarcações e equipamentos de mergulho das margens da aldeia. Desde então, por duas vezes, boatos que chegam pela internet e pelo celular de que a barragem se rompeu levaram os moradores da aldeia a “pegar uma bolsa e os documentos” e correrem para a escola, que fica numa região mais alta e mais longe do rio. É também por isso que as crianças estão proibidas de se aproximar do Xingu: os pais temem que elas sejam tragadas por uma onda gigante a qualquer momento.

Em 26 de outubro, Jarliel, irmão de Bel Juruna, morreu afogado no Xingu. Tinha 20 anos e um filho de três meses que não conhecerá o pai. Ele mergulhava em busca de acari, um peixe ornamental, que desde a mudança no rio está mais difícil de ser encontrado. Até então, um indígena morrer afogado era uma impossibilidade lógica para os Juruna, “os donos do rio”. “Como pode um indígena morrer afogado?”, é a pergunta que Bel leva às reuniões sobre os impactos de Belo Monte. Que o impossível tenha se tornado possível é mais uma expressão do colapso do mundo dos Juruna. Mais uma vez, a experiência cotidiana do etnocídio. E, assim, cada dia amanhece um segundo antes da catástrofe na Aldeia Muratu.

Jarliel foi enterrado num local para o qual não estava previsto alagamento no período de cheia. Um local garantido como seguro. Mas desta vez a água chegou muito perto da sepultura, e sua mãe desesperou-se com a ideia de que o filho mais uma vez seria afogado pelo rio. A Muratu hoje é uma aldeia enlutada.

Bel Juruna diz: “Hoje nós temos que nos refugiar da nossa própria casa, porque a nossa própria casa não tem segurança por causa de Belo Monte. Sai uma notícia, assim, de que a barragem estourou, e a gente corre das nossas casas. E com essa Belo Sun nos pressionando, nosso futuro está mais comprometido. Lá vai ter produtos químicos, vai ter rejeitos, e a gente viu o que aconteceu com Mariana. É muito triste. Desviaram nosso rio, e com isso a vida foi mudando pra nós, que somos adultos. Mas é muito triste, também, porque nós estamos vendo o que está acontecendo com nossos filhos, que já não têm mais contato direto com o rio. E Juruna, Yudjá, é dono do rio. Nossos filhos vão conhecer a vida por fotografias. E estão esquecendo o que é ser Juruna, Yudjá. O meu maior medo não é deixar de existir, mas que meu povo não possa mais viver aqui, que tenha que se dividir e se refugiar”.

Qual é o impacto de viver dia após dia acreditando que uma barragem pode se romper a qualquer momento e afogar toda a vida, o mundo inteiro que se conhece? E acreditando que uma nova ameaça avança sobre a aldeia em ritmo acelerado? É possível perceber que o impacto desta experiência traumática é enorme. Seria sobre qualquer pessoa. Mas como dimensionar esse impacto sobre um povo tradicional, cujo próprio dizer de si contém o rio, quando o rio que sempre foi vida se torna uma ameaça de morte? São perguntas que o Estado brasileiro e a Norte Energia um dia terão que responder diante da humanidade.

É também de perguntas como estas que os brasileiros urbanos, os não índios, os não ribeirinhos, fogem ao fingir que a mudança climática não é uma ameaça concreta, uma realidade já conjugada no presente, uma barragem com fissuras cada vez mais largas. Os “brancos” consomem a ilusão de que controlam os processos da natureza, fingem que os impactos não provocam reações em cadeia, que a chuva que falta no Sudeste não tem relação com o desmatamento da Amazônia. Os Juruna e os demais povos da floresta sabem que a natureza é complexa. Para eles não há possibilidade de negação do planeta transtornado pela ação humana. Mas é a ilusão, reeditada dia após dia nos centros de poder do Brasil e do mundo, em nome de interesses seguidamente privados, assim como a alienação reeditada dia após dia na casa de cada brasileiro urbano, que provoca a catástrofe lá. O fim do mundo dos Juruna ainda são os brancos e sua monumental ilusão de controle. Mas lá será aqui no segundo seguinte.

O futuro dos Juruna, Yudjá, o futuro do Xingu e da floresta amazônica, o futuro do planeta depende da construção desta resposta: onde estará Alice na próxima fotografia?

Fonte: Amazonia

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