Não use a Psicologia para moralizar

Publicado em: 05/10/2017 às 10:15

Por Rafael Guimarães, de Ilhéus, para Desacato.info.

Revisado por Elissandro Santana.

Já havia desistido de deixar esses grupos conservadores pautarem o que eu vou fazer. Respirei fundo. Republiquei um texto meu sobre a repressão sofrida pelo Maikon K e sua equipe em Brasília. Li vários textos interessantes, difundi. Fiz debates com minhas alunas e meus alunos. Num evento de hip hop que a gente organiza, fiz um discurso inicial sobre a repressão. Havia desistido de dar atenção a isso. Mas, então, aconteceu a triste história com o Wagner Schwartz, no MAM. Aquela confusão toda, mais do mesmo. Um vídeo recortado, agora havia uma criança. Nossa, uma criança assistindo a uma performance de um homem nu! Mantive-me sereno. Discuti na mesa do bar com alunas e alunos num evento. Respirei. Conseguia manter minha serenidade e não ia falar mais do mesmo na defesa da arte, todo mundo já sabia o que penso.

Mas, então, tudo podia piorar. Comecei a assistir a um conjunto de manifestações de psicólogas e de psicólogos se juntando ao ataque da mãe. Sim, da mãe. Essa mulher levou uma criança para ver um homem nu! “Nada contra a arte EM SI”. O problema é a mãe. A questão é que uma criança tão pequena não vai saber, em situações posteriores, se uma situação é abusiva ou não.

Não posso me furtar. Passei anos da minha vida participando da formação de psicólogas e de psicólogos. Uma amiga minha, a Roberta Stubs, igual a mim, também artista e psicóloga, disse-me esses dias que quando a gente envereda para as artes fica um psicólogo melhor. Talvez ela tenha razão. O que acontece é que passei (e, de certa forma, ainda passo, porque oriento pessoas graduadas em Psicologia na Pós-graduação) anos da minha vida contribuindo na formação. Isso me estarreceu.

Queridas e queridos (algumas ex-alunas e ex-alunos, inclusive): a Psicologia surgiu como uma ciência do controle e para o controle dos corpos, a gente explica isso no primeiro dia de aula. Passamos, no Brasil, muito tempo lutando para que saíssemos do lugar elitista que construímos. Que expulsou crianças da escola, que oprimiu a trabalhadoras e trabalhadores, que medicalizou a sociedade. Construímos aqui, junto a outras categorias profissionais, uma defesa irrestrita do SUS. A Luta Antimanicomial. Associações diversas em defesa dos Direitos Humanos. Um Conselho sério. Ampliamos o espaço da Psicologia no mercado de trabalho, chegando cada vez mais às pessoas.

Eu não falo como psicólogo que atua no cotidiano da clínica; não faço isso há muito tempo. Mas como um profissional dedicado à formação. Fico pensando que esta atitude de retorno ao organicismo, ao maturacionismo que esquadrinha a infância a momentos do desenvolvimento é mais um apoio técnico que estamos dando a grupos conservadores. É dizer que toda criança é igual. Ninguém é igual. Essa menina é filha de artistas, está acostumada com o ambiente da performance arte. Não conheço a mãe da criança, mas, por certo, seria importante perguntar a ela.

Ninguém perguntou. Ela foi atacada sumariamente como irresponsável. Isso é, inclusive, machismo. É esse tipo de preocupação que vocês, repleto de boas intenções, têm? “Estamos defendendo a criança”, dizem. Vocês têm mesmo certeza disso? Foi uma luta imensa para deslocar a psicologia do psicologismo. Tirar a psicologia da clínica de elite. Construir estratégias múltiplas para contribuir com uma sociedade mais igualitária. Uma luta de 60 anos. Não é possível que, agora, baseadas/os em leituras de manuais de desenvolvimento infantil, atendo-se ao seu “objeto de estudo”, psicólogas e psicólogos vão determinar se a mãe está correta ou não, se esta criança podia estar ali ou não.
Façam uma leitura de contexto. Setting terapêutico é muito mais que a organização da sala e a idade de quem você atende. O que você está fazendo é muito mais complexo, é dar suporte técnico a grupos conservadores, apoiados por sujeitos históricos que dizem que pessoas afrodescendentes são amaldiçoadas, que mulher deve ser estuprada. Não é preocupação com pedofilia, com abuso sexual na infância.

A gente tem muitos outros lugares para agir. Eu fiz uma pesquisa na tríplice fronteira Brasil-Paraguai-Argentina com mais duas alunas de Mestrado (psicólogas) e dois alunos de graduação em Psicologia. O turismo sexual existe, é uma organização criminosa. Há psicólogas e há psicólogos, junto de outras categorias profissionais dando atenção psicossocial a crianças e a famílias. Construindo políticas de prevenção. Construindo modos de acabar com isso. É uma luta diária. Podemos tratar a situação da presença desta criança numa performance de modo contextual, se é o que lhes interessa, mas há muitos outros espaços de ação muito mais importantes e urgentes.

Aliás, nos falta, à maioria das pessoas e à maioria das pessoas profissionais de Psicologia, uma vivência com arte. Falta arte na formação de Psicologia, falta na Educação Básica também. Trabalhamos com o verbal, na maioria das vezes, e recursos de outras naturezas nos faltam. Percebi isso durante meus anos de labuta na formação, por isso, construí espaços onde o diálogo com as artes nunca faltou. É importante perceber que ainda nos falta muito, e acho mesmo que essa história pode nos ensinar alguma coisa, a psicólogas e a psicólogos que atuam na área, e a nós, pessoas que cuidam das formações.

A Psicologia precisa avançar muito. Precisamos construir currículos que desloquem os nossos conhecimentos técnicos para longe dos manuais. É preciso reler os clássicos. De verdade. Em especial aquelas e aqueles que não estavam sob a égide desta Psicologia que serviu ao controle, ou estaremos, de novo, e sempre, apoiando o controle dos corpos. A moralidade, por boas que sejam as intenções que tivermos.

A clínica e a arte são capazes de nos ajudar a construir outros modos de existência, mas, para isso, precisamos compreender (e viver efetivamente) a arte e a clínica. Não dá para seguir manuais, para ter entendimentos de sujeitos universais, de infâncias universais, de mulheres universais, de pessoas universais. Isso é mesmo bastante perigoso!

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