Na esteira da revolta desta semana: O que é o ensino da filosofia?

Por Evânia Reich, para Desacato.info.

Não faz muito tempo a filosofia voltou a ser uma disciplina no ensino médio. A lei que torna a filosofia obrigatória é de 2008. Até 1971 ela havia feito parte do currículo do ensino médio, e durante todo o período da ditadura militar foi retirada e substituída pela então chamada educação moral e cívica. Claro que não é uma grande coincidência ela passar a ser alvo dos ataques do governo Bolsonaro. A sociologia e a filosofia são retiradas do currículo durante a ditadura militar, voltam para o mesmo nos breves anos de democracia, e são ameaçadas por este atual governo que tem mais cheiro de ditadura do que de democracia.

E por que a filosofia é mais uma vez alvo de ataques? Para responder uma pergunta que parece até bastante evidente é preciso responder qual é o papel do ensino da filosofia.

No governo do PT, o objetivo principal do ministério da educação era com a promoção do desenvolvimento sistemático das questões humanistas, bem como a preparação dos jovens como cidadãos que conseguissem refletir sobre os problemas e soluções para a nação brasileira. Segundo a declaração do então ministro da educação Fernando Haddad, os jovens brasileiros deveriam ser responsáveis e concernidos ao destino do Brasil. Neste período o ensino da filosofia segundo as diretrizes do ministério teve uma proposta não somente de ensinar a história da filosofia, mas, sobretudo proporcionar aos jovens uma reflexão, a partir dos conceitos filosóficos, sobre a vida, a ética e a política. As aulas de filosofia deveriam servir para a análise de questões sociais e políticas e a construção de vivências filosóficas com a vida, ativando o pensamento e o pensamento afirmando a vida.

Desastrosamente voltamos ao período em que não se quer filosofia, e não se deseja que haja reflexão dentro de sala de aula. É a ideia de “escola sem partido” que se propaga por este Brasil a fora. Lamentavelmente vivemos em tempo de crise das ideias. “Escola sem partido” não significa que os professoras não devam ter um partido ou falar de uma bandeira partidária. Significa antes de tudo que não devemos questionar, problematizar, exercer o pensamento. Tudo isso é o que a filosofia faz. Filosofia é entender o mundo em conceitos. É justamente problematizar o mundo, a vida, a sociedade, as leis, o conhecimento e a própria filosofia. É sair do conforto de nossas ideias lineares, nosso mundo homogêneo, enfim, de nossa profunda bolha. É pensar o mundo, as instituições, as relações intersubjetivas, sociais, econômicas e políticas para além daquilo que nos é oferecido ver.  É por isso que a filosofia faz tanto mal.

Praticamente todos os filósofos desde Sócrates, passando pelos medievais, por Kant, na modernidade, Nietzsche no século XIX, e Adorno já no século XX, se preocuparam com a educação. A filosofia sempre esteve preocupada com a busca do conhecimento, mas também sobre a problematização do conhecimento. É preciso refletir a respeito da finalidade do conhecimento. O Conhecimento pelo conhecimento, para simplesmente colocá-lo no baú do esquecimento não é o tipo de educação que a filosofia espera. É preciso o aprendizado de um tipo de conhecimento que nos dê a ferramenta adequada ao contínuo aprender. É preciso aprender a conhecer, isto é, um tipo de aprendizado que foge da simples aquisição de saberes codificados e focalizar-se no domínio dos próprios instrumentos do conhecimento. Esse domínio dos instrumentos é o meio e a finalidade da vida humana. Pretende-se que cada indivíduo aprenda a compreender o mundo que o rodeia, na medida em que isto é necessário para uma vida digna. Através deste domínio dos instrumentos do conhecimento o indivíduo desenvolve a curiosidade intelectual e esta por sua vez estimula o senso crítico e torna os indivíduos autônomos para compreender o mundo em sua volta. É somente através desta dinâmica do aprender que possamos formar indivíduos autônomos e conhecedores de seu próprio mundo. É por isso que a filosofia faz tanto mal!

Segundo a filosofia, o conhecimento de uma cultura geral deve estar no centro da finalidade da educação. Contudo, o aprendizado desta cultura geral deve incluir sempre as mudanças constantes do próprio mundo em que se vive. A aquisição dos saberes permite compreender melhor o ambiente sob os seus diversos aspectos, e favorece o despertar da curiosidade intelectual. Não é possível se fechar apenas no espaço de um tipo de especialização. É necessária uma cultura geral vasta que trabalhe em profundidade determinados números de assuntos.  É por isso que a filosofia faz tanto mal!

É preciso dizer que o programa da filosofia no ensino médio consiste em apresentar a história da filosofia desde a Grécia antiga até os filósofos contemporâneos percorrendo as diferentes teorias do conhecimento. Estudar a teoria do conhecimento ou a epistemologia significa conhecer as teorias que tratam sob o problema ou a possibilidade do conhecimento. O que conhecemos? Como conhecemos? Quem é o sujeito cognoscente? Em última instância, por que queremos conhecer? Muitas vezes os alunos são confrontados com ideias que lhes parecem muito estranhas. Há efetivamente um estranhamento no pensar filosófico porque há questionamentos. Nada é simples. Mas através desse estranhamento os alunos aprendem a pensar, a questionar, a problematizar o mundo e as coisas que estão a sua volta. É por isso que a filosofia faz tanto mal!

 O ensinamento estéril da história da filosofia aos alunos de ensino médio pode não fazer nenhum sentido, mas se fornecemos as ferramentas aos alunos para que eles consigam compreender o que uma doutrina e um conceito filosófico ainda têm a nos dizer no nosso tempo, embora eles possam ter sido escritos antes mesmo de nossa era, o estranhamento inicial pode se tornar algo esplêndido. Goethe, certa vez disse: “além disso, odeio tudo aquilo que somente me instrui sem aumentar ou estimular diretamente a minha atividade”. Não devemos querer apenas instruir nossos alunos, e tampouco discutir com eles mesmices do dia a dia; para tanto eles não precisam de filosofia. O que nós queremos é fornecer-lhes o contato com o estranhamento, e dar-lhes a possibilidade de ver algo que está para além da sua imediata compreensão. É o enfrentamento deste estranhamento que possibilitará o aluno adentrar no mundo da filosofia e do pensamento. Nós não podemos ensinar a filosofia como ensinamos a história. É preciso deixar uma marca de dúvida posto que filosofia não é a verdade incontestável, antes é a discussão eterna. É por isso que a filosofia faz tanto mal!

Todavia, para que os alunos consigam discutir é necessário que possamos percorrer o estranhamento e também a história do pensamento. É preciso que os alunos tenham conhecimento de seus antepassados. Das teorias que foram realizadas no decorrer de nossa história da humanidade. O fundamento de toda a educação, segundo Hannah Arendt é certa relação com o tempo. Os homens somente podem se tornar homens neste mundo comum que perpassa o seu próprio tempo. O passado lhe ensina sobre os seus antepassados, e como professores temos o dever de mostrar aos nossos alunos o passado e lhes confrontá-los com o presente. A educação não pode existir sem uma continuidade, continuidade esta que advém dos nossos ensinamentos passados. A educação é aquilo que se renova a cada tempo, mas não pode perder de vista a transmissão do precedente. Cada novo aluno é uma renovação e um potencial de conhecimento, que tem o direito de adquirir e conhecer aquilo que lhe precedeu. O mundo não pode iniciar com o nascimento de cada indivíduo, senão cairemos na loucura. Ao mesmo tempo, o indivíduo que nasce é o iniciador de uma novidade que não podemos antecipar. Sua relação com o mundo é o novo que surge, mas lhe são necessárias as bases deste mundo para que seus passos consigam transformar. É neste sentido que a educação consiste nesta dupla dimensão temporal; o tempo que precede e o tempo que está por vir. Educar consiste a dar ao educando a chance de se apropriar do mundo pessoalmente e singularmente enquanto herdeiro deste. É por isso que a filosofia faz tanto mal!

Portanto, não podemos abandonar a filosofia e não podemos deixar que governos autoritários, os quais possuem um programa bem claro para a educação, que consiste em torná-la escrava dos meios de produção capitalista, cortem verbas ou denigram o ensino da filosofia, nas universidades e nas escolas. A filosofia é o exercício do pensamento. Um governo que solapa a filosofia é um governo que deseja cidadãos sem pensamento crítico. Filosofia não é “coisa de comunista”, é algo muito sério.

Evânia E. Reich é doutora em Filosofia pela UFSC – Pesquisa do pós-doutorado em Filosofia Política pela UFSC.

 

 

A opinião do autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

Imagem:Pintura “Metamorfose de Narciso – Salvador Dali”.

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